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Sempre gostei de mudanças, de explorar mundos novos, de ler sobre o futuro, e talvez por isso, quando eu era um garoto de 10 anos, adorava a "Coleção Argonauta", de uma editora portuguesa, que publicou, entre 1953 e 2006, todos os meses, um livro de ficção científica. Um mês era longo demais para aguardar a chegada daquele livro que eu devorava em poucas horas. Um dos livros que lembro bem era “Cidades Mortas”, de Clifford Simak, escritoem 1952.

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Nele o autor previa a morte das cidades pelo barateamento das terras (agricultura tinha se tornado hidropônica), do transporte (todos usavam helicópteros com energia atômicos) e pelas reuniões virtuais praticamente ilimitadas (tipo Zoom e Teams, só que muito mais avançadas). As reuniões virtuais eram praticamente iguais ao que aprendemos a chamar, nesses dias de pandemia e isolamento, de reuniões presenciais. Por tudo isso, e algumas coisas mais, as cidades deixaram de ser “necessárias”, e daí, morreram.

Todos foram morar em casas isoladas, bucólicas, em terras cercadas de natureza e mata, atendidos em todos suas necessidades pela Amazon do seu tempo e sem nenhuma necessidade de estar próximo de outras pessoas. Um dos personagens da história, e aparentemente igual a muitos outros, Jerome Webster, começa a sofrer de agorafobia, transtorno que teve seu nome tirado do grego, que significa medo do “agorá” ou espaços públicos, alguém que tem pavor de encontrar com pessoas, a essência das cidades.

Muito das previsões de Clifford não se confirmaram, ainda, como, por exemplo, as fazendas hidropônicas ou a energia nuclear espalhada na sociedade. Mas o sentido geral está muito presente em nosso cotidiano atual - home working, videoconferências e virtual shopping  - e num futuro muito próximo - carros elétricos autônomos, entregas por drones etc.

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O conceito de cidade, de densidade, de atração pelos mercados, de maior interação pessoal e serviços em grande escala venceu as teorias modernistas de afastamento dos prédios e zonas especializadas de serviços ou funções e continuava, nos últimos 30 anos, a vencer pela força de sua realidade contra o "wishful thinking" de teorias tão caducas quanto malucas. Essa grande vitória enfrenta hoje um grande desafio. A pergunta deste artigo é: como será o escritório depois da pandemia do novo coronavírus? Mas essa pergunta está contida numa questão maior: será que as cidades vão continuar sendo a maior invenção da humanidade?

O comércio de rua e até o varejo nos shopping centers, essa rua inventada, está morrendo pela força do comércio na internet. Nessa crise, nenhuma ação subiu tanto como a da Amazon. Pode a rua, a veia da vida em nossas cidades, sobreviver à morte do comércio de rua?

Nunca se usou tanto a videoconferência, uma tendência que já vinha acontecendo, mas que teve uma enorme aceleração durante esta pandemia. Até eu, cachorro velho com pouca disposição em aprender truques novos, rendi-me a pressão dos meus pares e estou usando diariamente a videoconferência. Mas as mudanças só estão começando. Quando a tecnologia avançar um pouco mais teremos ambientes totalmente virtuais onde poderemos "sentar" com pessoas de qualquer parte do mundo, verdadeiros ambientes virtuais onde a necessidade de viagens para uma reunião pode se tornar extinta.

A matriz de transporte nas cidades está mudando radicalmente e não por investimentos maciços do governo nem pelos “magníficos” planos diretores de nossos dirigentes esclarecidos, mas pela criatividade dos empreendedores que buscam novos meios de atender as necessidades da população. A bicicleta que até poucos anos era considerada como algo ultrapassado está se tornado um dos meios de transporte favoritos do futuro.

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Outro meio “ultrapassado” - o caminhar - está voltando à moda no desenho das cidades. Uber, Bla-Bla car, Lyft, e tanto outros aplicativos onde você pode chamar um carro ou um ônibus, alugar um patinete, uma bicicleta ou qualquer outro sistemas de transporte, inclusive um carro elétrico sem motorista, já estão em todos lugares. A revolução está à porta e ela mudará completamente nosso ambiente urbano.

O carro deixará de ser um veículo, tornando-se um “ambiente de estar de endereço variável”, onde trabalharemos e faremos reuniões, tudo enquanto estamos nos deslocando de um lugar para outro. Com essa redução dramática do custo das distâncias, será que a concentração urbana se justifica? As mudanças são radicais e a era “Jetsons” realmente está chegando. Mas como será tudo isso? Como serão nossas cidades? Difícil saber as respostas, mas talvez possa imaginar algumas perguntas.

A crise do coronavírus vai ser lembrada como um momento na história das cidades, um interregno que será visto, com o passar dos anos, como uma grande crise, mais na resposta do que na doença. Seus fatores de alteração de comportamento são circunstanciais, sem a capacidade de, duradouramente, alterar nossa forma de ser, por mais que, hoje, no olho do furacão, tudo nos pareça afetado.

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Mas para quem começou a trabalhar quando a comunicação com a filial do Rio de Janeiro era através de máquinas de Telex, as grandes inovações eram as máquinas de escrever da IBM e não existia telefone celular, não há dúvida de que as mudanças estão vindo e são tectônicas. A mudança poderá ser de natureza mais gradual ou mais disruptiva, mudar radicalmente a sociedade, ou talvez nem tanto.

A tecnologia pode resolver muitos de nossos problemas, mas não todos. Nossa natureza humana não é novidade, nossa espécie evolui a milhões de anos.  As cidades e sua natureza centrípeta respondem a anseios de milênios, nada mudou, tudo está mudando. Eu espero que consigamos equilibrar tecnologia e humanidades, mudança e tradição, máquina e homem para manter a cidade humana, a grande conquista dos últimos anos. Só assim poderemos levar os homens e mulheres para um patamar mais alto de humanidade.

É isso, e apesar de gostar muito de ficção científica, de adorar visitar mundos no futuro, na vida real, eu não consigo acreditar em previsões. Enfim, algo pode acontecer, ou não, mas fique tranquilo, colega incorporador, ainda teremos muitas décadas de edifícios de escritórios no mercado de São Paulo.

*Rafael Birmann é presidente e proprietário da Birmann SA, uma empresa imobiliária que ele fundou com seu pai, Aron Birmann, em 1978, em São Paulo. Durante esses 42 anos, Rafael desenvolveu muitos projetos imobiliários, mas é mais conhecido pelos projetos de escritório que incorporou em São Paulo. Seu último projeto é o B32, um complexo, de 120 mil m², com escritórios, restaurantes, teatro e praça pública, considerado o melhor prédio de escritórios de São Paulo.

Rafael Birmann será um dos participantes da palestra online "O futuro dos escritórios e os escritórios do futuro", que acontecerá dia 18 de agosto em uma parceria entre HAUS e Brain Inteligência Estratégica. As inscrições são gratuitas e estão abertas.

Conteúdo editado por:Luan Galani
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