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Cada vez mais os clientes querem espaços abertos, cômodos comunicantes, transparências, janelas amplas, segundo o que observamos em nossas pesquisas.  Trata-se de abrir portas, um elogio da abertura.

É de João Cabral de Melo Neto o poema que melhor traduz esta visão de mundo sobre a arquitetura, mas também o seu contrário. No seu A fábula de um arquiteto, publicada no livro Educação pela Pedra, João Cabral há o belo verso: “uma arquitetura como construir portas/de abrir; ou como construir o aberto”.  Nada como a elegância geométrica de um poeta feito engenheiro para falar de uma arquitetura que se projeta para fora, que se abre para a vida e para as cidades.

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João Cabral, como se sabe, tensionou o verso sobre outras artes, como pintura, música, dança, a própria poesia e teceu o elogio de cidades como Recife, Sevilha e tantas outras. Se a primeira parte deste poema convida para a abertura, a segunda condena o fechamento, como mostra o belo e instigante ensaio de Eucanaã Ferraz publicado na Revista Serrote 35/36, à respeito da crítica do poeta a certo desacerto (para ele) de algumas obras de Le Corbusier.

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O abrir-se para a cidade e para as ruas espelha uma tendência que podemos verificar cada vez mais nos empreendimentos recentes que vemos em várias partes do Brasil: ampliação de vidros e janelões; fachadas ativas e edificações mistas; integração com a paisagem urbanística da cidade, o convite para a fruição dos espaços, como uma possibilidade de convivência. É evidente, contudo, que o que vemos ainda esta muito aquém das possibilidades que uma verdadeira transformação das cidades propiciaria: um retorno mais intenso do urbano, da circulação e das trocas simbólicas e sociais que uma cidade deve permitir.

Mesmo antes deste flagelo pandêmico que nos assola, os empreendedores mais ajustados com o sentimento da demanda, já vinham dando sinais de compreender essa ânsia pela circulação, pela transparência, pela abertura de portas, como queria João Cabral. Em nossa opinião, vale à pena apostar nessa indicação, ainda que os resultados possam e devam melhorar. Eis aqui algumas razões (mas também alguns probleminhas relatados em pesquisas de campo!) O caminho é claro, mas nem tudo são flores:

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  1. Cozinha integrada à sala.  A tal da cozinha americana, como se proclama, integrando funções de convívio, alimentação, trabalho doméstico e sociabilidade. É claro que tal integração pode ser também reflexo da diminuição dos espaços internos; mas pesquisas que conduzimos mostram uma adesão superior à 80% nesse tipo de configuração. O problema, claro, é cozinhar peixe. Vocês sabem do que estou falando.
  2. Mais vidro. Como se poderia dizer, ecoando o poeta, “uma casa só janelas”, visto que a preferência das famílias por espaços com janelas amplas, com alta função estética é majoritariamente preferida à plástica tradicional, que faz da janela um eco apenas de sua função de ventilação. A questão que se apresenta é: como e quando dar conta de limpar tantas janelas? Sem contar as questões sempre relatadas de percepção de insegurança.
  3. Fachada ativa. Todos gostamos dela, desde que o comércio ali instalado seja, como dizer, aquela panificadora que faz o melhor pão do bairro, precisamente às 17 horas da tarde. Uma loja de seguros já não é bem tão apetitosa.
  4. Prédios mistos. Sim, a promessa de fazer tudo aqui agora ao mesmo tempo, num sincretismo desabrido: serviços médicos, escritório, residência, hotel, varejo e o que mais. Problema é achar a vaga, esperar o elevador, perder-se em uma circulação infinita; ou seja, essas trivialidades de que é feita a vida quando você está cansado (normalmente).
  5. Varanda integrada à sala. Ok, ótimo; mas, se a varanda em cidades frias do Centro-Sul do Brasil está sempre fechada, então ela é mais sala que varanda. Por falar nisso, onde mesmo é que você estende as roupas para secar? A sensação é que em alguns prédios não se pensa que lavar roupas é tão corriqueiro quanto cozinhar. Talvez não seja.
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Para finalizar, a questão que se coloca, é que esta arquitetura de portas abertas exige a integração com dimensão humana e social da vida nas cidades. É o que está faltando. Trata-se menos de uma função estética que antropológica, para não dizer também sociológica. A boa arquitetura abre as portas para a vida. É um convite para habitar o espaço. Enquanto isso, sigamos lendo o poeta.

*Marcos Kahtalian é sócio-fundador da Brain Inteligência Estratégica.

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