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Quando chegar o verão
| Foto: Bigstock

Uma casa de praia sempre é a dos outros. Ou era. De fato, há crer nas estatísticas das diversas secretarias estaduais de turismo no Brasil, hospedar-se “na casa de parentes e amigos” é a condição preferencial do turista brasileiro. Atire a primeira pedra quantos de nós não passamos verões maravilhosos na casa emprestada de amigos, de uma tia simpática, ou mesmo - nos casos mais abusados - na casa dos parentes dos amigos dos amigos de um conhecido.

Não adianta: casa de praia é sempre de alguém que comprou um dia, esqueceu do fato e desde então vive habitada por tantos quantos ali tiveram a sorte de aparecerem. Como um velho calção de banho – diz a música – e um dia para vadiar. Uma boa casa de praia se faz pela maresia que desgasta os antigos móveis que a casa principal não quer mais; pelas almofadas corroídas pelo sal; e pelos retratos e pinturas que já descoloriram. Uma boa casa de praia tem história – e a julgar pelo que estamos vendo no mercado imobiliário – essa história tem tudo para continuar a acontecer nesse próximo verão que será movimentadíssimo. Essa história já está acontecendo, aliás, com lançamentos pra todos os gostos, e preços. E segue vendendo.

Antevendo isso, hotéis e pousadas começam também a ficar com reservas cheias. As casas de praia vão sendo reformadas e novos lançamentos imobiliários surgem. As pesquisas indicam que a demanda reprimida pela pandemia vai fazer do verão de 21/22 um período bastante aquecido para o mercado imobiliário, de decoração e serviços de lazer. Após a imunização, o sol. (Mas por favor, siga as recomendações!)

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Segundo dados do Booking, 60% dos brasileiros querem ir para a praia nessas férias – e segundo pesquisas da Brain Inteligência Estratégica, 10% da intenção de compra de imóveis das famílias de classes médias e altas de renda está voltada para um imóvel de segunda moradia, tendo a praia como desejo principal.

Segunda moradia? Ou primeira? Mas afinal, o que quer dizer segunda e primeira moradia nos tempos atuais?

O mercado imobiliário tem os seus jargões e ocorre de chamar aquele imóvel de lazer – na praia, no campo, em outra cidade – de segunda moradia, por referência à primeira, o domicílio original. Ordem que se invertia nas férias, ou, tradicionalmente, quando as famílias se aposentavam e deixavam, digamos, São Paulo por Santos; ou Curitiba por Caiobá - e agora Balneário Camboriú de praias largas.

Acontece que o conceito de primeira e segunda moradia se complicou. Se antes o imóvel de praia só era usado umas poucas vezes ao ano, gerando esse comércio de pessoas para aproveitá-lo quando ocioso – agora, com a entronização do home office como condição possível, muitas famílias que podem dar-se ao luxo vêm movimentando os litorais e campos brasileiros. Trocaram a primeira moradia pela segunda; ou ainda, aquela segunda moradia virou uma primeira. Isso mesmo: uma segunda que é primeira; uma primeira que é segunda.

Esse quadro deve ser um legado do momento atual – uma maior flexibilidade na condição de trabalhos típicos de escritório – permitindo que se use mais aqueles imóveis e espaços que se usava pouco. Trata-se do fim da casa de praia dos outros e o início da nova casa de praia – agora turbinada com internet de alta velocidade. Por isso as vendas de imóveis no litoral estão aquecidas e vão continuar por um tempo. O imóvel de praia ganhou novo status. Se perdeu a roupa velha e algum charme, vai ganhando em permanência e cuidados com o lar. Passa a ser também uma moradia regular, rotineira. E até mesmo um local de trabalho. No fim do expediente você pode ver o pôr do sol.

Trabalhar na praia? Bem, não nesse verão.

*Marcos Kahtalian, sócio-fundador da Brain Inteligência Estratégica

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