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O arquiteto alemão radicado em Milão Andreas Kipar defende a criação de “teias de mobilidade verde” como o futuro das cidades.
O arquiteto alemão radicado em Milão Andreas Kipar defende a criação de “teias de mobilidade verde” como o futuro das cidades.| Foto: D. Asbach

“A cada dia que passa, descubro que mais que paisagista, sou mesmo é um agricultor”, brinca Andreas Kipar, arquiteto alemão radicado em Milão há mais de 35 anos, e uma das mais importantes autoridades em projetos urbanos de paisagismo. O seu escritório Land (Landscape, nature, architecture, development) com sedes em Milão, na Itália, Lugano, na Suíça e Dusseldorf, na Alemanha, é responsável por obras “verdes” espalhadas pelos quatro cantos do mundo.

Arquiteto, mas também um pouco filósofo, Kipar acredita que o paisagismo hoje, mais do que nunca, exprime toda a dinâmica da qual a sociedade contemporânea necessita. Em tempos de pandemia, ele viu suas teorias ganharem voz e seus projetos serem exaltados. Em uma conversa descontraída com HAUS, Andreas Kipar nos contou um pouco sobre o futuro do paisagismo em tempos pós-Covid-19, seus planos para o futuro e sua grande admiração pelo mestre Burle Marx.

Projeto de paisagismo para Moscou
Projeto pluripremiado na Rússia, a Smart City de Rublyovo-Arkhangelskoye, em Moscou. | LAND

Arquiteto, paisagista e jardineiro. Quem é Andreas Kipar?

Eu nasci jardineiro! Consegui meu primeiro diploma em jardinagem no viveiro de plantas municipal da minha cidade natal na Alemanha: dois anos em que vivi entre livros – durante meu curso na faculdade de Arquitetura e Paisagismo na Universidade de Essex – e plantas. Uma experiência única. E posso dizer que foi fundamental para meu currículo. Por isso mesmo, digo que sou um bom jardineiro, o que para mim significa manter a capacidade de observar, experimentar e cultivar relacionamentos fora de nós mesmos.

O que mudou na vida profissional de arquitetos e paisagistas durante a pandemia?

Embora dramática, a pandemia evidenciou a necessidade de nos reconectarmos e nos aproximarmos da natureza. E o nosso trabalho ganhou ainda mais evidência e importância. Somos nós os responsáveis por projetar espaços abertos levando em conta as características do território e de quem nele vive. Hoje, mais do que nunca, nós paisagistas estamos focados em questões como desenvolvimento ambiental, mudanças climáticas e, principalmente, na regeneração urbana. O papel do arquiteto paisagista é, portanto, cada vez mais o de mediador na dialética entre a realidade construída e a natureza cultivada, numa perspectiva de sustentabilidade que leve em consideração o ambiente, a sociedade e, é claro, os fatores econômicos.

Paisagismo no calçadão da Piazza Gae Aulenti
O calçadão da Piazza Gae Aulenti, no bairro de Porta Nuova, o novo centro de Milão, onde se encontra o maior arranha-céu da cidade, a Torre Unicredit com seus 31 andares e 152 metros. | Nicola Colella

Durante o lockdown, houve a chamada valorização do lar e, obviamente, de como ocupamos os espaços domésticos. A metragem das casas, nos últimos tempos, vem se reduzindo drasticamente. A solução está no aumento do metro quadrado ou na ampliação de espaços públicos como praças, parques e áreas comuns em condomínios?

O ano de 2020 nos ensinou que é preciso uma reinterpretação radical da relação entre os tipos de construção e a morfologia urbana. Vimos que, com a pandemia, o uso do home office veio para ficar. E isso implica também melhorar a configuração de nossas habitações. Eu, como paisagista, vejo que nossa missão aqui na Land é “reconectar as pessoas com a natureza” e transformar nossas cidades construídas em autênticas paisagens urbanas. Ou seja: unir esses dois requisitos. A palavra de ordem atual na arquitetura e no paisagismo é investir em “espaços verdes”: seja ele em telhados de edifícios e casas, jardins suspensos, fachadas com jardins verticais e até jardins de chuva.

Podemos dizer que o distanciamento social imposto pela pandemia fez com que nos reapropriássemos dos espaços públicos?

Acredito que ficamos mais conscientes sobre quão importante é o nosso bem-estar físico. Como eu comentei anteriormente, o distanciamento social favoreceu não só a necessidade de se estar próximo à natureza, como também de usufruir de espaços amplos. Volto a dizer que esse episódio inusitado em nossas vidas nos impulsionou a buscar a chamada socialização ao ar livre e desejar ainda mais a proximidade com o “verde urbano” como nosso refúgio seguro. Praças, ruas e parques se tornaram uma extensão de nossas casas, nossos locais de trabalho e de nossa vida cultural e política.

Além do tema da arquitetura e do paisagismo, temos de incluir o da mobilidade green (transportes sustentáveis). É possível transformar as nossas metrópoles de cidades inteligentes em cidades com paisagens inteligentes?

Não é só possível, como indispensável! Há tempos estamos refletindo sobre uma mudança de paradigma que diz respeito à relação entre a cidade e o território. Nesse sentido, a “paisagem urbana” deve estar entre as prioridades orçamentárias das prefeituras, das empresas e até dos cidadãos. Para encorajar esse tipo de investimento, seria apropriado que, em todo planejamento, houvesse um espaço garantido para esse tema. Por exemplo, aqui no escritório, o nosso projeto de pesquisas “Landscape Information Modeling” (LIM) nos dá a possibilidade de “medir” a paisagem ao longo do tempo através de simulação digital. Digo que já não se trata apenas de plantar uma árvore ou de dar vida a uma área verde. É fundamental criar e poder calcular, ano após ano, o impacto e a contribuição da paisagem no aumento da biodiversidade e na redução do aquecimento global. Ou seja, em poucas palavras, fazer com que a sustentabilidade seja não só visível como mensurável.

Como podemos imaginar nossas cidades depois da pandemia?

Hoje, sabemos como é viver em nossos bairros e acabamos por redescobrir nossas cidades. Uso como exemplo Milão: durante a pandemia muitos milaneses aprenderam a admirar o próprio quarteirão, seja caminhando a pé ou passeando de bicicleta. Nosso “I Raggi Verdi” (Os Raios Verdes), projeto de desenvolvimento urbano realizado em Milão e implantado há mais de 10 anos, viu duplicar as áreas verdes na cidade. Criamos uma verdadeira teia de mobilidade verde – parques e espaços públicos – que se estende por várias partes da metrópole e que se conecta através de ciclovias e calçadões. Esse é o futuro.

Parque Krupp também passou por projeto de paisagismo
O Parque Krupp na cidade de Essen, na Alemanha, faz parte de um projeto de requalificação de uma antiga área industrial de 22 hectares.| Ralph Richter

Qual a grande diferença entre um projeto arquitetônico puro e um de paisagismo?

Trabalhar com paisagismo quer dizer, em primeiro lugar, trabalhar com pessoas e depois com a superfície. Só mesmo depois é que se pensa na arquitetura. Essa é a lição que nos deixa Jan Gehl ao analisar o que é o espaço público [Jan Gehl é arquiteto e urbanista dinamarquês, cuja carreira foi construída com base na melhoraria da qualidade de vida urbana através da reorientação do planejamento urbano em favor de pedestres e ciclistas]. No meu caso, o paisagismo significa promover a dialética entre a verticalidade dos edifícios e o horizonte das áreas urbanas. Isso é o que chamamos na Alemanha de Raum, um local ao ar livre vivível e articulado. O que me deixa ainda mais satisfeito é que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou recentemente que é preciso conviver com uma nova natureza urbana onde se contemple a participação e colaboração de artistas, engenheiros, arquitetos e paisagistas.

Inaugurado em 2014, o Parque Europa da cidade de Rho, perto de Milão, é um mosaico de espaços verdes com uma área total de mais de 110 mil m² com suas mais de 800 árvores, ciclovia e um calçadão de 2 km e playground.
Inaugurado em 2014, o Parque Europa da cidade de Rho, perto de Milão, é um mosaico de espaços verdes com uma área total de mais de 110 mil m² com suas mais de 800 árvores, ciclovia e um calçadão de 2 km e playground.| Nicola Colella

Quando falamos sobre paisagismo, é claro que pensamos no mestre brasileiro Burle Marx, um profissional que o senhor admira muito. Qual a importância de Burle Marx na sua carreira?

O mestre Burle Marx é uma referência no meu trabalho, principalmente na abordagem dos meus projetos, ou seja, ir além, nunca “parar” na aparência, submergir plenamente no processo evolutivo em curso. Além de ter sido um grande paisagista, foi também um grande artista. Conheci seus preceitos mais de perto graças ao amigo e grande professor italiano Pietro Porcinai. Ambos conseguiram combinar a ideia alemã de paisagem com uma forte veia artística. Agradeço aos dois por me ajudarem a entender a natureza.

Paisagismo do Parque Nord, em Milão.
Requalificação do Parque Nord, zona norte de Milão, realizada em 2005, onde o arquiteto criou um sistema integrado de um calçadão e ciclovia.| Mediterra Editrice

Entre as suas obras, qual a mais significativa?

Meus primeiros anos em Milão foram dedicados ao plantio de árvores; o “Bosco in Città” e o Parque Norte, onde colaborei como consultor em paisagística de 1985 a 2000. Essa experiência também gerou outros “projetos irmãos” na Alemanha, como os Krupp Park – Five Hills, em Essen, e Krefeld Fischeln. Ainda na Itália, gosto de mencionar o trabalho com os parques pós-industriais da Alfa Romeo Maserati e, recentemente, o Parque Europa Rho. São importantes todas essas obras e, é claro, as mais recentes, como o parque urbano da cidade de Riad, na Arábia Saudita, e o plano “Raios Verdes” na nova Smart City em Moscou.

O projeto da Piazza Gae Aulenti recebeu o prêmio Landscape Institute Award, em 2016, na categoria "Design for a medium-scale development", por seu projeto de paisagismo realizado pelo escritório de Andreas Kipar.
O projeto da Piazza Gae Aulenti recebeu o prêmio Landscape Institute Award, em 2016, na categoria "Design for a medium-scale development", por seu projeto de paisagismo realizado pelo escritório de Andreas Kipar.| Nicola Colella

Em outubro do ano passado, em Lugano, na Suíça, você apresentou o Digital Landscape Manifesto. Pode nos contar um pouco desse projeto?

Como paisagistas temos a responsabilidade para com o futuro do planeta de forma sustentável: o Manifesto Digital Landscape propõe um paisagismo inteligente e interativo de acordo com as necessidades das comunidades e as vocações de seus territórios. A comunicação com os cidadãos passa a ser uma importante ferramenta de aproximação social e envolvimento nos processos de transformação e reconhecimento do território. Nosso escritório Land viu na digitalização do uso da paisagem uma oportunidade para cumprir essa missão. Acredito que o Manifesto Digital Landscape possa ser um catalisador no mapeamento de oportunidades em relação ao desenvolvimento do território através da implementação dos princípios da sustentabilidade: conhecimento, conscientização, continuidade, cultivo, crescimento.

Projeto de paisagismo no centro de Milão
Milano Porta Nuova, área revitalizada em 2016, que engloba os bairros de Garibaldi, Varesine e Isola, tornou-se o novo centro de Milão com seus prédios comerciais e residenciais vencedores de prêmios de arquitetura e paisagismo.| Nicola Colella

Quais são os desafios para o futuro?

O desafio está no “design voltado ao cidadão” (people-oriented design), ou seja, na renovação dos espaços públicos para que possam oferecer um serviço a 360 graus. Bem-estar, segurança, trabalho, alimentação e atividade física: tudo isso deve convergir nessa nova natureza urbana regenerada que anda de mãos dadas com a revalorização do território. Esta mudança radical no paradigma de desenvolvimento e retorno de “enaltecimento” da natureza nos grandes centros pode ser examinada na carta do “European Green Deal”. Queremos uma natureza urbana que ofereça a possibilidade de um confronto direto com o nosso meio ambiente – feito de ar, terra, água, flora e fauna - e que exige toda a nossa atenção, respeito e cuidado.

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