Guardião das araucárias dedica 20 anos a reflorestamento de grande área em meio a cidade

Dedicando-se há 20 anos ao reflorestamento de uma área na CIC, professor aposentado já ajudou a natureza a reconstituir 30 mil metros quadrados de mata com árvores nativas da floresta com araucárias

Marco Mazzarotto, tem 71 anos e é um "guardião das araucárias". Ele reflorestou uma área em Curitiba e segue trabalhando para proteger esse espaço.

Marco Mazzarotto, tem 71 anos e é um “guardião das araucárias”. Ele reflorestou uma área em Curitiba e segue trabalhando para proteger esse espaço. Foto: Jonathan Campos / Gazeta do Povo.

por Vivian Faria*

14/11/2019

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Quando decidiu substituir as áreas de cultivo que tinha em sua chácara, na Cidade Industrial de Curitiba, por bosques de árvores nativas da Mata de Araucárias, o doutor em matemática e então professor universitário Marco Mazzarotto não fez grandes planos ou estabeleceu objetivos a serem cumpridos. “Compramos aqui em 1974. Até 1999, nós brincamos de agricultor, digamos assim. Tínhamos plantações de feijão, amendoim, milho. De repente, eu pensei: ‘Acho que estou perdendo tempo com isso. É melhor – e mais útil – reflorestar essas áreas’”, conta.

Porém, depois de dedicar 20 anos ao reflorestamento de seus terrenos, ele conseguiu reconstituir uma mata de aproximadamente 30 mil metros quadrados, dando espaço a espécies cada vez mais raras, como a própria araucária, pinheiros-bravos, imbuias, entre outras. “Eu não imaginava que ia fazer tanto. Mas, numa área grande, você faz um pouco, depois para um pouco…”, diz Mazzarotto sobre o resultado de anos de trabalho.

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O começo foi um pouco frustrante: sem qualquer experiência com árvores, matas ou reflorestamento, o então professor apostou no plantio de mudas de árvores nativas doadas pelo Horto Municipal para por em prática seu novo projeto. “Mas logo vi que não ia dar resultado”, lembra. Não deu mesmo. Além de a terra estar muito degradada, havia ervas daninhas e pequenos animais que não permitiam o desenvolvimento das mudas. Faltava oferecer às árvores nativas o ambiente adequado para seu desenvolvimento, o que acontece a partir do processo de sucessão.

Marco Mazzarotto envolveu toda a família no trabalho de recuperação e reflorestamento.

Marco Mazzarotto envolveu toda a família no trabalho de recuperação e reflorestamento. Foto: Jonathan Campos / Gazeta do Povo

“Eu pensei que não sairia do lugar, até que lembrei que quando comprei a chácara, tinha uma plantação de bracatinga em um pedacinho. Com o passar dos anos, as bracatingas foram morrendo naturalmente e deixaram o bosque que apareceu embaixo delas, que é formado por árvores nativas. Aí eu falei: ‘Vou imitar a natureza’”, conta o aposentado. Assim, ele passou a plantar bracatingas, para então plantar pinheiros e ervas-mates, entre outras espécies, sob a sombra delas.

Como reflorestar a mata

Superada o insucesso inicial, Mazzarotto pegou gosto pela coisa e acabou comprando outros dois terrenos ao lado de sua chácara para continuar o trabalho. Pouco a pouco, a natureza também começou a aproveitar a oportunidade que ele estava criando para ela. A tal ponto que, de acordo com um levantamento feito pela Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) em 2010, mais de 155 espécies se estabeleceram ali. Entre elas estão erva-mate, jacarandá-branco, aroeira, canela, guassatunga, guabiroba, ariticunzinho, uvaia, tarumã e jerivá, além das já citadas araucária, pinheiro-bravo e imbuia.

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Nem todas chegaram ali pelas mãos do proprietário da chácara: à medida que a mata foi ressurgindo, vários animais começaram a visitá-la, contribuindo para o reflorestamento. “Hoje quem planta pinhão é a cotia ou o serelepe [o esquilo brasileiro]. Nós vemos eles subindo na árvore, derrubando o pinhão, descendo e enterrando nos pés de árvores. Depois da época do pinhão, surge um monte de muda”, diverte-se Mazzarotto.

Além dos bichos citados, o professor aposentado conta que já avistou por ali diversas espécies de aves – de jacu a tucano –, além de tatus, ouriços, iraras, gambás e até veados e tamanduá-mirins. De acordo com a SPVS, todos eles chegaram até ali devido à proximidade da chácara com o Parque Municipal do Passaúna – e resolveram voltar devido à presença de árvores frutíferas – nativas ou exóticas – que lhes fornecem alimentos o ano inteiro.

Marco Mazzarotto: o "guardião das araucárias".

Marco Mazzarotto: o “guardião das araucárias”. Foto: Jonathan Campos / Gazeta do Povo

Dedicação ao reflorestamento 

Com 71 anos e aposentado das salas de aula, Mazzarotto passa de cinco a seis dias da semana na chácara, dedicando parte do seu tempo ao cuidado com a mata que ajudou a fazer (re)nascer. O tempo é maior do que era no início, quando conseguia ir à chácara apenas nos fins de semana e feriados, o problema agora é o espaço. “Onde que eu posso plantar uma árvore hoje? Não tenho mais lugar”, constata.

Isso não significa que não haja trabalho a ser feito. O principal deles é evitar que a mata seja tomada por espécies exóticas invasoras, como uva do Japão, ameixa amarela (néspera) e alfeneiro. “Os passarinhos trazem as sementes, elas brotam e crescem fininhas, mas quando chegam lá em cima, elas abrem a copa e acabam destruindo as árvores nativas envolta. Se deixar, no futuro, você só terá uva do Japão ou ameixas amarelas, porque elas vão afastando a mata nativa”, explica Mazzarotto.

Ainda assim sobra tempo para que o guardião da mata passeie por ela, relembrando a infância e aproveitando a energia da natureza. “Eu nasci em Cornélio Procópio e me criei andando em regiões de muitas árvores. Eu gosto de árvores, gosto da natureza. Tanto que, ao lado de cada pinheiro grande, tem um banquinho de tijolo. Eu gosto de ficar sentado ali pegando a energia das árvores”, diz.

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*especial para HAUS, publicada originalmente em junho de 2019.

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O que é sucessão ecológica?

Sucessão ecológica é o processo de implantação de espécies de flora e fauna em determinada região. Pode ser primária, quando ocorre numa desabitada, ou secundária quando há a recuperação de uma área degradada, como foi o caso da chácara de Marco Mazzarotto. Em ambos os casos, espécies pioneiras vão contribuindo para a adequação do ambiente para o desenvolvimento de outras, até que o clímax ecológico seja atingido, como fizeram as bracatingas que o professor aposentado plantou em seus terrenos.

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