Mitos e verdades sobre o efeito do café para as plantas

Especialistas indicam as formas adequadas de utilizar a borra e o líquido - sempre com moderação

Borra de café pode ser uma ótima aliada para o desenvolvimento das plantas. Mas deve ser usada com parcimônia. Foto: Bigstock

por Guta Brandt*

05/09/2019

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Sabe aquele cafezinho que sobra de manhã ou a borra que fica no filtro de café? É cada vez mais difundida a ideia de que esses resíduos podem ser utilizados como adubo em hortas e cultivos caseiros. E a boa notícia é que de fato esses materiais orgânicos tão comuns no dia a dia podem trazer benefícios para as suas plantas. Inclusive, aumentando a produção delas – desde que empregados de forma adequada e com cautela.

O jardineiro e tecnólogo em gestão ambiental, Ademar Brasileiro, afirma que a borra de café tem diversas aplicações nas plantas que cultivamos em casa. “Quem tem composteira, pode e deve utilizar a borra, pois, por ser rica em carbono, ela ajuda a reduzir o mau cheiro gerado pela fermentação dos resíduos e também serve para arejar a composteira”, explica.

Foto: Bigstock

Quem não tem a composteira, mas também quer aproveitar os resíduos orgânicos, pode utilizar a borra de café nos vasos e canteiros. “Se misturada à terra, a borra ajuda a manter a permeabilidade, a drenagem do solo e a sustentar microrganismos benéficos ao desenvolvimento das plantas”, ensina. De acordo com o jardineiro, se o solo está bem drenado, as raízes se desenvolvem e penetram com mais facilidade.

O especialista em hortifruti e engenheiro agrônomo conselheiro do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná (CREA-PR), Hugo Vidal, também avalia como positivo o uso da borra de café, sobretudo em relação aos microrganismos que se desenvolvem a partir da fermentação, e afirma: não é crendice. “Tudo que fermenta pode gerar resíduo positivo para as plantas. A borra do café fermentada é rica em nitrogênio e ajuda os microrganismos do solo a se desenvolverem, servindo de alimento para a planta”, diz Vidal.

O engenheiro ensina: para fins de fertilização e adubação, o ideal é deixar a borra fermentando alguns dias – de 4 a 6 – antes de fazer a aplicação no vaso. “Dessa forma, a borra já vai ter liberado mais nutrientes importantes”, explica. Para aplicação, o produto deve ser misturado à terra ou a outros elementos orgânicos.

Ademar Brasileiro também indica a utilização da borra de café como elemento para a forração de vasos – basta distribuir um pouco do pó sobre o solo. “Pode ajudar a manter a umidade e, além disso, protege o solo contra o impacto da rega ou da chuva. A forração também é boa para evitar que nasça ervas invasoras ou espontâneas”, enfatiza.

Foto: Bigstock

Aliás, segundo o especialista, fazer a forração de vasos e canteiros é bem importante para que não nasçam ervas e outras plantas indesejadas. “Desta forma, com o solo bem forrado, a natureza entende que não precisa acionar o banco genético de sementes dela para fazer com que a terra seja coberta e fique protegida”, explica.

Para fazer a forração com a borra, o especialista ensina que é muito importante não compactar o pó. “É preciso que ele seja colocado de forma bem solta sobre o vaso, pois a compactação acaba impedindo a rega adequada, uma vez que o pó é fino e a borra é um pouco oleosa. Se compactado, pode formar uma película impermeável”, pondera.

É preciso, também, estar atento ao surgimento de fungos nos casos em que a borra é utilizada em excesso na forração e sem a limpeza periódica dos vasos e canteiros. “Alguns fungos são benéficos, é verdade. Mas, neste caso, os fungos que surgem em cima do resíduo do café podem atacar as folhas, as sementes que estão nascendo, as mudas mais jovens ou comprometer as espécies que já estão debilitadas devido a outros problemas”, explica Brasileiro.

Equilíbrio é fundamental

Apesar dos benefícios apontados, o jardineiro alerta: “tudo que é demais ou utilizado em excesso, pode trazer problemas para as plantas”. O uso em excesso pode ocasionar intoxicação dos vegetais e também do solo – pois a planta estará recebendo alta quantidade de alguns nutrientes e baixa de outros.

A utilização do café não faz milagres, afirmam os especialistas, pois, para que as plantas se desenvolvam de forma saudável, elas devem ser cultivadas em ambientes  favoráveis e adequados às necessidades de cada espécie. É preciso que haja equilíbrio. Ou seja: não adianta nada encher as plantinhas de café e não fazer a rega adequada ou não proporcionar a  insolação necessária.

“A planta precisa de água. Este é o elemento mais importante de todos. Se não regarmos da forma correta, não adianta saturar o solo de adubo e de matéria orgânica, a planta não vai se desenvolver ou vai morrer devido à falta de água”, alerta Vidal.

Foto: Bigstock

O engenheiro agrônomo também indica o uso do café líquido. “Não é para passar café para as plantas, logicamente, mas o café que sobra na xícara ou no fundo da garrafa pode ser utilizado, sim”, afirma. O líquido é rico em cafeína, que é um bioestimulante. “Assim como a cafeína nos estimula, ela estimula os vegetais. Com a cafeína, as plantas ganham disposição e reagem se alimentando mais e, consequentemente, produzindo mais”, diz. No entanto, Vidal reitera: é preciso que o solo esteja equilibrado, para que ela busque os nutrientes e os encontre no solo – caso contrário, a planta apenas ficará “com mais fome.”

O maior benefício

Tanto o engenheiro Hugo Vidal quanto o jardineiro Ademar Brasileiro são categóricos em dizer: o maior ganho disso tudo é o reaproveitamento dos resíduos que geramos. “O benefício da reutilização é que, além deste produto ser um insumo para a jardinagem e para a agricultura, proporcionando um ganho ambiental, também há um ganho econômico – uma vez que não há custo com a destinação do resíduo gerado”, explica Brasileiro.

“O ideal é que a gente possa reciclar cada vez mais os resíduos que produzimos”, afirma Vidal. O engenheiro agrônomo ainda dá uma última dica: a casca de ovo triturada é ótima para as plantas, pois é rica em cálcio. Tá aí um assunto para uma nova matéria.

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*especial para a Gazeta do Povo 

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