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    Vale do Pinhão Prefeitura de Curitiba

Soluções “mágicas” não vão salvar as cidades brasileiras, aponta maior evento de smart cities do mundo

Capital paranaense entrou para o seleto grupo de cidades que recebem o evento, e deve sediá-lo pelos próximos três anos

Mais de oito mil pessoas passaram pelo Expo Renault Barigui durante os dois dias da Smart City Expo Curitiba 2018. Foto: Hugo Harada / Gazeta do Povo

por Stephanie D'Ornelas*

02/03/2018

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Tudo indica que o maior evento sobre cidades inteligentes do mundo, o Smart City Expo World Congress (SCE), chegou a Curitiba para ficar. A primeira edição do Brasil, realizada na capital paranaense nos dias 28 de fevereiro e 1º de março, reuniu mais de oito mil participantes, superando a projeção da organização, que contava com cerca de cinco mil.

A programação foi dividida entre a exposição, de entrada gratuita, e o congresso, recheado com as discussões comandadas por 18 palestrantes internacionais e 36 brasileiros. Além de 22 estandes de empresas que apresentaram soluções tecnológicas na feira expositiva, projetos inovadores de mais de 80 startups da capital paranaense foram expostos ao público na Smart Plaza Vale do Pinhão, ambiente voltado para fomentação do networking e intercâmbio de conhecimentos.

Milhares de participantes lotaram o salão principal do evento. Foto: Ana Gabriella Amorim/Gazeta do Povo

Para André Telles, diretor de marketing da empresa paranaense iCities Smart Cities Solution, que organizou o Smart City Expo Curitiba 2018 com apoio do WTC Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba, o evento foi um sucesso em todos os sentidos. “Tanto a participação dos congressistas quanto a contribuição dos speakers e expositores foi à altura deste evento histórico para o país e para Curitiba, que agora faz parte do seleto grupo de smart cities sede de um evento chancelado pela Fira Barcelona”, comemora.

Frederico Lacerda, presidente da Agência Curitiba de Desenvolvimento, salienta que todas as cidades que receberam o evento atraíram muitos investimentos, tanto na área de tecnologia quanto na de desenvolvimento de smart cities. “A realização do Smart City Expo não só recoloca Curitiba no cenário internacional de cidades inteligentes como referência, como traz uma importante oportunidade de negócios. O evento nos coloca em contato com as soluções mais atuais do ponto de vista de inovações urbanas e mostra para o resto do mundo o que tem sido feito e desenvolvido em Curitiba”, afirma. O Smart City Expo já foi realizado em cidades como Quioto (Japão), Istambul (Turquia), Montreal (Canadá), Casablanca (Marrocos), Puebla (México) e Buenos Aires (Argentina).

Congresso foi realizado na Expo Renault Barigui. Foto: Ana Gabriella Amorim/Gazeta do Povo

Curitiba se converteu na capital mundial das discussões de políticas de smart cities durante os dias de congresso, sublinha Ricard Zapatero, CEO da Fira Barcelona Internacional. Para ele, uma cidade é inteligente quando toda a população tem condição social e acesso às tecnologias urbanas. “Toda cidade que queira ter a dinâmica de uma smart city precisa de vontade política, recursos econômicos e capacidade de inovação, através de empresas que desenvolvam novos serviços”, explica.

A curadora internacional do evento, Pilar Conesa, acredita que os principais benefícios para Curitiba que ficam do evento são o compartilhamento de experiências, aceleração de projetos e relações mais intensas com outras cidades, que podem levar ao compartilhamento de projetos. “Tivemos a oportunidade de nos reunir com o prefeito e com os convidados internacionais para refletirmos sobre projetos de cidade. Com isso, os cidadãos têm retorno em desenvolvimento de iniciativas de smart cities. O objetivo é permitir uma melhor qualidade de vida”, diz.

Empresa 99 forneceu quatro estações para o aluguel de patinetes no evento, com o objetivo de oferecer uma mobilidade mais sustentável e econômica. Foto: Ana Gabriella Amorim/Gazeta do Povo

A Fira Barcelona concedeu a chancela do SCE para a iCities por quatro anos. Com isso, o evento deve ser realizado novamente em Curitiba nos próximos três anos, pelo menos. Roberto Marcelino, sócio fundador do iCities, adiantou que serão realizados fóruns regionais em quatro cidades brasileiras, ainda não definidas, para expandir a discussão sobre smart cities no país e incentivar a participação de novos agentes na edição do Smart City Expo Curitiba que será realizada em 2019.

Confira os principais destaques dos dois dias do evento

Cidades sensíveis

Palestra de Carlo Ratti deu início ao congresso do Smart City Curitiba 2018. Foto: Ana Gabriella Amorim/Gazeta do Povo

A palestra mais aguardada do evento foi a do arquiteto e engenheiro italiano Carlo Ratti, referência mundial na discussão sobre smart cities. Ele fez a conferência inicial do congresso falando sobre “cidades sensíveis”, conceito desenvolvido por ele que destaca o lado humano da cidade em meio às transformações tecnológicas. Eleito pela revista Wired como uma das 50 pessoas capazes de mudar o mundo, Ratti tem um currículo de peso. Dirige o Senseable City Lab do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), grupo responsável por estudar as tecnologias capazes de transformar a vida nas cidades.

88 Market Street, projeto de Carlo Ratti Associati (CRA). Foto: CRA/Reprodução

A palestra do arquiteto foi dividida em quatro pontos que ele acredita que passarão por transformações profundas nos próximos anos: mobilidade, espaços de trabalho, comércio e experiências urbanas. Ele apresentou os últimos projetos desenvolvidos pelo escritório de design e inovação Carlo Ratti Associati (CRA), do qual é sócio e fundador, que fornecem soluções tecnológicas que se relacionam diretamente a esses temas.

Projeção da instalação em Milão. Foto: CRA/Reprodução

Entre os projetos ele destacou o 88 Market Street, arranha-céu de 280 metros de altura em Singapura, que prioriza a vegetação abundante dentro e fora do edifício; o “Living Nature”, pavilhão que será instalado em Milão para a criação de microclimas para possibilitar o estudo do controle de luz e calor e o “Supermercado do Futuro”, grande supermercado na Itália que fornece dados de consumo de cada produto para os consumidores e que visa à máxima sustentabilidade em seu funcionamento.

Vale do Pinhão conectado ao mundo

Smart Plaza Vale do Pinhão. Foto: Ana Gabriella Amorim

O Vale do Pinhão – programa da Prefeitura de Curitiba que estimula a conexão entre os diversos agentes do ecossistema da cidade, para que atuem em conjunto e fortaleçam o desenvolvimento de negócios inovadores na capital –, recebeu evidência com o espaço exclusivo na exposição. Entre os projetos inovadores essencialmente curitibanos apresentados na Smart Plaza, destacaram-se o Adam Robô, desenvolvido pela startup Prevention, um robô capaz de pré-avaliar um paciente e realizar testes para diagnosticar doenças como miopia, hipermetropia, presbiopia e astigmatismo e, também, os óculos de realidade virtual desenvolvidos pela empresa Bee Noculus VR, que criou uma experiência exclusiva para o evento.

Acordo que cria Observatório Brasileiro de Cidades Inteligentes (OBCI) foi realizado no segundo dia da Smart City Expo. Foto: Cesar Brustolin/SMCS/Reprodução

“O talento curitibano observado no Smart Plaza Vale do Pinhão, junto ao impulso promovido pelo Smart City Expo, vai deixar um legado muito grande para a cidade. Teremos anos pela frente para colhermos os resultados e bons frutos”, comenta Marcelino. No dia 1º, o Vale do Pinhão estabeleceu uma nova plataforma de intercâmbio com Vale do Silício. O prefeito Rafael Greca assinou um acordo de cooperação que cria o Observatório Brasileiro de Cidades Inteligentes (OBCI), com sede em São Francisco, nos Estados Unidos. O observatório é uma iniciativa do Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBQP), da Federação Nacional das Empresas de Software (Assespro) e do iCities.

Foco na América Latina

Diversos nomes do urbanismo de países latino-americanos participaram do evento ressaltando a maneira como dificuldades foram superadas em cidades de países vizinhos. Um dos exemplos de mais destaque é Medellín, cidade da Colômbia que passou da mais perigosa do mundo para referência mundial de segurança e ocupação dos espaços públicos. O arquiteto colombiano Jorge Perez Jaramillo, responsável por essa evolução urbana, deu a fórmula do sucesso: coletivismo, compromisso com a cidade, trabalho, planificação social e a incorporação da sociedade nas políticas públicas.

O arquiteto Jorge Perez Jaramillo. Foto: Ana Gabriella Amorim/Gazeta do Povo

No segundo dia de evento, especialistas mundiais como a colombiana Monica Villegas, gerente da Fundación Corona; a paraguaia Natalia Alejandra Ramirez, presidente da Codeleste e o argentino Juan Pablo Bosco, arquiteto e planejador urbano do Instituto De Vivienda De La Ciudad (Ivc), debateram iniciativas como a tecnologia cívica e inclusão social, a modernização de serviços públicos, a promoção dos ecossistemas de startups e os desenvolvimentos urbanos sustentáveis.

Mobilidade e energia solar

Carro elétrico Twizy, criado pela Itaipu e Renault. Foto: Ana Gabriella Amorim/Gazeta do Povo

As discussões sobre mobilidade urbana marcaram o evento. A empresa brasileira 99 forneceu quatro pontos de empréstimos de patinetes, garantindo uma forma divertida e sustentável de se locomover por todo o espaço da exposição. O espaço da Itaipu teve como destaque um carro elétrico, o Twizy, criado em parceria com a Renault. Ele tem velocidade máxima de 80km/h e pode andar 100km autonomamente. Além disso, pode ser completamente recarregado em 3h30. A segunda inovação da empresa de energia foi um simulador de potencial solar que agrega todo o estado do Paraná. Ele serve como um atlas online que mostra o quanto de energia renovável cada um pode produzir dentro da própria casa ao aproveitar as características próprias de relevo do local.

Sustentabilidade, ‘puxão de orelha’ e blockchain

Palestra de André Trigueiro foi uma das principais atrações do Smart City Curitiba 2018. Foto: Ana Gabriella Amorim/Gazeta do Povo

Uma das principais atrações do segundo dia de congresso foi a palestra do escritor e jornalista André Trigueiro, que explanou os problemas que o Brasil enfrenta em relação à sustentabilidade. Ele foi enfático ao afirmar que, se a forma de fazer política no Brasil continuar a mesma, nossas cidades nunca irão melhorar. Frisou ainda que não temos nem o mínimo para que as cidades sejam sustentáveis: saneamento básico. “Não basta coletar; coletado não é tratado. Mais de 100 milhões de brasileiros não têm esgoto tratado, isso é uma vergonha”, disse. Ele citou soluções encontradas pelo país com biodigestores, capazes de gerar gás e adubo a partir dos excrementos.

Apresentação de Trigueiro lotou salão principal do pavilhão. Foto: Ana Gabriella Amorim

Ele também alertou que a capital paranaense não pode se acomodar na fama alcançada com o reconhecimento mundial por suas soluções urbanísticas do passado, afirmando que as tecnologias que funcionaram no passado devem ser atualizadas para que possam continuar sendo chamadas de inteligentes e sustentáveis.

Uma das últimas e mais aguardadas palestras do último dia de congresso foi a da empresária e autora indiana Tia Kansara, da Replenish Eart, especialista em cidades sustentáveis. O tema abordado foram as transformações que o blockchain – tecnologia que visa a descentralização de dados e transações – pode trazer para cidades inteligentes. “Questões como segurança na IoT, privacidade, novos modelos econômicos e combate à corrupção estão relacionadas a esta realidade de blockchain”, frisou.

*Especial para a Gazeta do Povo.

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