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O bem que as fábricas antigas fazem à paisagem de Curitiba

Pouco valorizados, edifícios industriais têm importância histórica esquecida

Moinho Anaconda, inaugurado em 1957, segue em atividade até hoje. Foto: Letícia Akemi / Gazeta do Povo

por Júlia Rohden*

31/10/2017

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Parte fundamental na história das cidades modernas, o patrimônio industrial remete à época da urbanização e é carregado de significados. Em Curitiba, o bairro Rebouças foi o berço das primeiras fábricas, no século 20. Muitas delas foram demolidas e as que resistiram ao longo dos anos passaram por diversas transformações.

“O patrimônio industrial tem muita importância na memória coletiva e explica a formação do território de uma cidade”, ressalta a arquiteta e urbanista Iaskara Florenzano, que realizou uma pesquisa sobre o desaparecimento do patrimônio e da paisagem industrial no Rebouças.

Detalhe do pavilhão da Fábrika, que abriga a Casa Cor PR. Telhado do imóvel segue as linhas fabris dos anos 1920 e 1930. Foto: Fernando Zequinão / Gazeta do Povo

Detalhe do pavilhão da Fábrika, antiga fábrica de fitas e bandeiras que foi revitalizado. Foto: Fernando Zequinão / Gazeta do Povo

Alguns prédios foram ressignificados e preservados, como a Fábrika, no Alto da XV. Construído em 1938, o local abrigou a fábrica de fitas e bandeiras Venske até 1980 e, após algumas reformas, foi ocupado por escolas de idiomas, de dança e uma academia. Outros edifícios tiveram outro destino, foram demolidos, como o caso simbólico da antiga fábrica Matte Leão, no Rebouças. Ocupando um quarteirão de 16,3 mil m², o importante edifício foi demolido em 2011 sob críticas de profissionais ligados ao patrimônio, dando lugar ao novo templo da Igreja Universal do Reino de Deus.

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Antiga fábrica Fiat Lux é um exemplar típico da arquitetura fabril com telhado shed. Foto: Marcos Campos / Acervo da Casa da Memória / Diretoria do Patrimônio Cultural / Fundação Cultural de Curitiba

Atual fábrica Foto: Letícia Akemi / Gazeta do Povo

Atual fábrica Swedish Match que também produz fósforos Fiat Lux. Foto: Letícia Akemi / Gazeta do Povo

Florenzano explica que o patrimônio industrial não é composto apenas por edifícios fabris. O conceito é mais amplo e envolve desde a casa dos operários e as linhas de trem até o maquinário usado na fabricação dos produtos. Esses conjuntos não são harmônicos, já que compreendem construções de épocas e materiais distintos.

“É fácil defender a preservação de um edifício como o Paço Municipal, uma construção eclética que tem qualidades estéticas de fácil entendimento pelas pessoas e pelo poder público”, opina a arquiteta. “Já as qualidades arquitetônicas de uma fábrica, por exemplo, não são tão apreciadas. Mesmo sendo portador de várias informações e significados, esse conjunto industrial dificilmente é defendido como patrimônio que deve ser preservado”, completa.

Histórico

O processo de industrialização em Curitiba esteve intimamente vinculado com a questão ferroviária. Antonio Pedro Taboada, arquiteto do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), conta que o conjunto fabril se caracterizou, a princípio, no entorno imediato da estação ferroviária. Com o passar do tempo, alguns edifícios ou plantas isoladas irradiaram para além dos limites do Rebouças, induzidos pela implantação dos ramais da via férrea.

Ele explica que em 1885 surge a região do Rebouças, na época periferia da cidade, com a construção da via férrea no auge do ciclo erva mate. O bairro foi o primeiro complexo fabril e ferroviário da capital paranaense e, em 1943, o plano diretor classificou a região como zona industrial. Décadas depois, a zona industrial foi transferida para a Cidade Industrial de Curitiba (CIC).

Antiga cervejaria Atlântica. Foto: Marcos Campos / Acervo da Casa da Memória / Diretoria do Patrimônio Cultural / Fundação Cultural de Curitiba

Antiga cervejaria Atlântica. Foto: Marcos Campos / Acervo da Casa da Memória / Diretoria do Patrimônio Cultural / Fundação Cultural de Curitiba

Foto: Letícia Akemi / Gazeta do Povo

No local da antiga cervejaria agora está a fábrica da Ambev. Foto: Letícia Akemi / Gazeta do Povo

Iaskara Florenzano relata que houve um processo de desindustrialização, com a mudança das fábricas para outros bairros, deixando os edifícios abandonados. Há, então, uma pressão econômica para remover esses antigos edifícios sem o devido cuidado com o patrimônio. “Esse processo aconteceu em vários lugares do mundo. Observamos em cidades como Buenos Aires e Londres e, em menor escala, em Curitiba”, comenta.

“Sobrou mais da paisagem ferroviária do que da fabril”, aponta Taboada. Ele lista como parte do estudo, realizado pelo IPPUC, sobre a paisagem ferroviária e fabril no Rebouças, os seguintes pontos que seguem em pé até hoje: Moinho Anaconda, Ambev (antiga cervejaria Atlântica), Moinho Paranaense (atual sede da Fundação Cultural de Curitiba) e a fábrica de fósforos Fiat Lux (atual fábrica Swedish Match).

O arquiteto também aponta imóveis nos quais não funcionaram fábricas, mas que estão intimamente ligados ao contexto histórico da época e por isso também integram o levantamento do IPPUC: Viaduto Capanema, Edifício Teixeira Soares, Garagem da Rede Ferroviária, Estação Ferroviária, Ponte Preta, Paraná Clube (antigo estádio do Clube Atlético Ferroviário), Teatro Paiol e a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (antigo CEFET).

 

Preservação

Para Florenzano só é preservado o que é conhecido. “O patrimônio industrial não é reconhecido como patrimônio. Alguns países já entendem a necessidade de preservar esses edifícios, mas aqui ainda estamos engatinhando nesse processo”, comenta.

“Não se trata de congelar esses edifícios, mas de dar um novo uso e preservá-los”, defende a arquiteta. Ela dá exemplos de transformações de antigas fábricas em museus, galerias de artes e centros culturais, nos quais foram feitas intervenções modernas usando metodologias para preservar o patrimônio histórico. Na Argentina, o Faena Art Center era um antigo moinho de farinha que se tornou um centro de artes e na Suécia uma usina elétrica foi reestruturada e hoje abriga o Moderna Museet Malmö.

*Especial para Gazeta do Povo

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