No Ceará, cidade inteligente com lotes a preços populares começa a sair do papel

Guethner Gadelha Wirtzbiki é gerente de vendas da Smart City Laguna, primeira cidade inteligente social do mundo. Ele defende que esse modelo urbano proporciona a verdadeira experiência de viver em uma comunidade integrada, e que poderiam ser uma solução para suprir a carência de moradias adequadas para a população

Perspectiva de como será a Smart City Laguna, que está em construção na cidade de São Gonçalo do Amarante (CE). Fotos: Divulgação

por Aléxia Saraiva

22/06/2018

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É em solo brasileiro que será instalada a primeira cidade inteligente social do mundo. A Smart City Laguna, empreendimento do Grupo Planet, almeja aliar as tecnologias próprias desse modelo urbanístico a um custo de vida mais acessível. Atualmente em construção na cidade de São Gonçalo do Amarante (CE), o empreendimento imobiliário tem 330 hectares e vai abrigar lotes residenciais, comerciais e empresariais integrados, em um total de 7.065 unidades e com capacidade para 25 mil habitantes.

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Guethner Gadelha Wirtzbiki, gerente de vendas da Smart City Laguna.

HAUS entrevistou Guethner Gadelha Wirtzbiki, gerente de vendas de Laguna, que defende o uso de produtos e conceitos tecnológicos já existentes na construção de uma cidade e, assim, redefinir o urbanismo.  Segundo ele, essa inovação aplicada em áreas urbanas torna a vida desses moradores mais econômica, mais sustentável e socialmente inclusiva. Confira a entrevista completa.

Smart City Laguna já está em construção no Ceará.

Apesar do conceito de cidades inteligentes estar mais consolidado nos últimos anos, o viés social junto ao projeto ainda é inédito. De que forma vocês chegaram à necessidade de juntar os dois?

As smart cities são uma tendência do urbanismo mundial, mas são produtos desenvolvidos ao público de alto poder aquisitivo. O percentual da população que mora nas cidades está aumentando rapidamente, e as habitações sociais são uma resposta dada ao déficit habitacional. Essas habitações abrangem milhões de casas por ano, mas nesse mercado gigantesco as políticas de construção são de péssima qualidade, construídas em série, e com infraestrutura básica. É um modelo de desenvolvimento que não é sustentável.  A ideia foi mesclar esses dois produtos, desenvolvendo imóveis de altíssima qualidade, mas de preço acessível.

A Smart City Laguna é focada para uma classe específica ou prevê o convívio de diferentes classes sociais? 

Trabalhamos com um público-alvo bem amplo. A cidade é um espaço que interage inevitavelmente com as necessidades e as aspirações de seus habitantes. O intuito é plantar na cidade inteligente o potencial necessário para se tornar um espaço que não se resume ao simples “morar”, mas que abra portas para se viver. É um modelo urbanístico onde teremos o convívio de diferentes classes sociais, que poderão desfrutar de uma infraestrutura de alta qualidade.

De que forma o “social” impacta na parte “smart” de Laguna, na prática?

Para uma cidade ser inteligente, além de fornecer infraestrutura de alto padrão com uma compatível plataforma tecnológica, precisa ser promotora da criação de comunidades inteligentes.  A proposta de que as pessoas podem se organizar para conviver de forma colaborativa pode parecer totalmente óbvia. Ao falarmos de convivência colaborativa, estamos propondo um modelo de vida que envolva a casa, o bairro e a cidade.

O valor do lote em Laguna é consideravelmente mais baixo do que o de outras smart cities. Como esse custo de vida se mantém mesmo com toda a manutenção de tecnologias na cidade?

Para isso, nós vamos trabalhar com big data, o grande volume de dados armazenados online, para focar na venda dos espaços publicitários. Teremos a base de dados do Aplicativo Planet App, que já está em funcionamento e pode ser baixado gratuitamente. Esse aplicativo será o painel de controle da Smart City Laguna. Os anúncios gerariam receita e alcançariam os usuários do aplicativo. Com esse formato, nós conseguimos resguardar a privacidade dos usuários.

Esse projeto tem a intenção de servir de modelo para futuras cidades inteligentes sociais? 

Sim, a ideia é que essa primeira cidade inteligente social seja um projeto piloto que contribua para a criação de outras cidades inteligentes sociais. A Planet Idea, em parceria com o grupo Arup, é desenvolvedora do Social Smart City Matrix, uma ferramenta de avaliação do grau de inteligência de uma smart city. Dessa forma, além de replicar esse modelo de cidade inteligente social, estamos trabalhando também para definir quais parâmetros devem ser seguidos.

Você acredita que cidades já consolidadas podem aprender com as experiências das smart cities e se tornarem mais eficientes? De que forma?

Acredito que sim, com a inclusão de tecnologias alcançando sustentabilidade, segurança e qualidade de vida, reduzindo os custos de quem mora nela. Um exemplo de cidades consolidadas em busca desse aprimoramento é Temuco, no Chile, que foi convidada a ser reconhecida como uma cidade que tem buscado incansavelmente soluções em relação ao meio ambiente, sustentabilidade e responsabilidade energética.

Qual é o principal desafio na construção desta smart city?

O maior desafio da Smart City Laguna é criar uma cidade para todos. Que tenha um altíssimo nível de qualidade de vida. Ela precisa oferecer tecnologia e serviços de qualidade ao alcance do todos, sem distinção, além de promover a inclusão social.

Brasília se tornou um exemplo de uma cidade planejada que sofreu várias críticas por problemas urbanísticos que só surgiram depois da vinda das pessoas e decorrente apropriação do espaço público. Como vocês se preparam para evitar, na medida do possível, que isso ocorra?

Um dos problemas de Brasília é ser um mix funcional não integrado, diferentemente de Laguna. Em Brasília têm-se setores residenciais, comerciais e empresariais distantes um do outro, o que traz problemas de deslocamento e de segurança. Aprendemos que esses setores devem ser totalmente interligados.

Já referente a possíveis problemas que possam surgir após a vinda das pessoas, o grupo mantém um centro de competência em Turim, com profissionais de várias áreas, que fazem o acompanhamento do desenvolvimento do produto para que, além de planejada, a Smart City Laguna seja uma cidade inteligente, sustentável e inclusiva, mas acima de tudo resiliente.

Na ocasião da Smart City Expo em Curitiba, o arquiteto Jorge Perez Jaramillo, responsável pela evolução urbana de Medellin até 2015, afirmou que o processo de diálogo com a população da cidade foi fundamental para o sucesso das políticas públicas que a tornaram referência em segurança e ocupação dos espaços públicos. Como você enxerga a construção colaborativa de uma cidade no contexto das smart cities, com todo o seu planejamento prévio? 

A grande questão na construção dessa cidade é o conceito de incluir o social. É um conceito de inteligência que foca em dar maior ênfase ao indivíduo. O próprio Instituto Planet, que já está trabalhando esses conceitos na região, é um ótimo instrumento de aproximação da smart city com a comunidade, e que facilita essa ponte de transmissão de informações.

Segundo o IBGE, o Brasil tem 36 milhões de habitantes morando em condições precárias de moradia em áreas urbanas. Você acha que cidades inteligentes sociais são uma alternativa sólida para solucionar este problema? Como?

Acredito essa é realmente uma alternativa sólida. A construção de smart cities e a adaptação de espaços urbanos já existentes a essas novas tecnologias é a solução de dar melhor qualidade de vida às pessoas. Oferecer infraestrutura de alta qualidade, contribuir para que as pessoas façam parte da cidade, colocar o ser humano no centro desse processo facilita o desenvolvimento da educação e da segurança.

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