Santos será revitalizada com ideias de Jaime Lerner

Projeto desenvolvido para a revitalização do Centro da cidade portuária segue preceitos usados pelo urbanista

Santos tem projeto de revitalização para áreas centrais e do porto pensada pelo escritório de Jaime Lerner. Foto: Reprodução

por Bruno Gabriel

11/07/2019

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Uma proposta de revitalização da região central de Santos, uma das principais cidades de São Paulo, teve sua primeira apresentação no último dia 4 de julho. O projeto foi apresentado à Prefeitura da cidade e chamou a atenção pelas propostas com a identidade do urbanista curitibano Jaime Lerner.

Os arquitetos Felipe Guerra e Ariadne dos Santos Daher, responsáveis pelo projeto, explicam que as proposições partem principalmente da reestruturação do Centro de Santos, mas ainda envolvem habitação e estruturação da área de expansão da cidade. A ideia, segundo Guerra, é levar a experiência de Curitiba para Santos, respeitando a realidade de cada lugar. “Nos interessa tudo aquilo que Jaime Lerner criou em relação à habitação, ao transporte e, principalmente, às acupunturas urbanas”, diz.

Projeto desenhado pelo escritório de Jaime Lerner busca resgatar o protagonismo do Centro de Santos. Imagem: Divulgação

Como explica o arquiteto, a acupuntura urbana é um processo que tem início em intervenções que acontecem em determinado local, mas que pela sua repercussão, trazem a valorização de tudo o que está ao redor. Ele cita como exemplo a construção do Jardim Botânico, na capital paranaense. “Havia ali uma região com muitos problemas, degradada. Quando foi inserido um elemento novo, isso trouxe força ao local. A partir daí, todo o entorno passou a se reciclar e ser valorizado.”

O projeto para Santos

Uma das particularidades nas questões urbanas da cidade do litoral paulista é o fato de o município ter uma geografia particular, por apresentar ilha e continente. Glaucus Farinello, ex-Secretário Adjunto de Desenvolvimento Urbano e atual Assessor da Secretaria de Governo, explica que o Centro surgiu como o local de origem da cidade e se expandiu em direção à orla, o que gerou disputa na valorização dos terrenos.  “Com o passar dos anos, isso trouxe um desequilíbrio de investimento, desenvolvimento e qualidade urbana em relação ao centro e à praia. Além disso, a dinâmica de bairros mistos, que criam novos subcentros, fez com que o esvaziamento da região central se intensificasse ainda mais”, diz.

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Por conta da importância do reavivamento da região central, a proposta apresentada para revitalização de Santos tem início justamente nela. “A parte histórica se encontra com pouca vida, comércio desarticulado e imóveis vazios. A tentativa é de buscar essa identidade”, explica Felipe Guerra.

A arquiteta Ariadne dos Santos Daher, também responsável pelo projeto, explica que o primeiro passo em Santos seria dado no que chamam de parque tecnológico, que abrange o Centro. São três regiões consideradas âncoras para a requalificação: o Monte Serrat, o Porto Valongo e a Bacia do Mercado. “A ideia é que a partir dessas três áreas, consideradas diferentes entre si, se alcance o Centro como um todo. Pelo fortalecimento desses espaços, conseguimos esse alcance”, diz.

A primeira dessas chamadas âncoras seria a revitalização do Parque do Valongo, próximo ao porto da cidade. O objetivo seria ligar simbólica e fisicamente o Centro Histórico ao cais. De acordo com Guerra, “o Centro tinha a economia atrelada ao porto e eles andavam juntos. Hoje em dia, há uma ruptura, mas a cidade não pode andar sem o porto, afinal, muitas das riquezas se desenvolvem por causa da atividade portuária. Ela é fundamental para geração de empregos e renda.”

Para o local, a principal proposta é a transformação de um navio cargueiro já inutilizado em uma plataforma cultural, com shows, eventos de gastronomia e ensino. Para isso, seria necessária a criação de uma praça elevada de sete metros de altura, que seria erguida até o navio, em um ambiente arborizado e com mobiliário moderno.

Proposta para o cargueiro

O turismo também é um ponto pensado dentro do projeto. Para os arquitetos, o terminal de passageiros de cruzeiros marítimos deve ficar próximo à região do cargueiro. Cerca de 500 mil visitantes desembarcam em navios de turismo em Santos a cada ano e passariam, necessariamente, pelo Centro Histórico.

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Outro foco do projeto do escritório de Jaime Lerner, a proposta para a região das bacias envolve a criação de uma arquibancada gramada, que dá acesso ao Mercado. Seria um espaço para descanso e apresentações artísticas e culturais, com uma plataforma na água. “É uma área que está bastante abandonada, embora ainda exista a atividade do transporte na bacia. Temos um casario histórico ao redor, mas ali há questões sociais preocupantes, com população vulnerável, drogas”, relata.

Área de convívio no Mercado, com arquibancada gramada

Participação social

Uma das ideias é remodelar o Mercado, mantendo a arquitetura original, mas fazendo também intervenções mais ousadas, com uma praça inclinada, sendo a cobertura de um centro cultural abaixo. “Atividades já desempenhadas pela Prefeitura, como as atividades da vila criativa aconteceriam ali. Ou seja, daríamos visibilidade diferente ao que a prefeitura já faz”, diz Ariadne.

Visão do planejamento para o Mercado

O último foco trazido pelos arquitetos seria a reestruturação do Monte Serrat. Nesse caso, o atrativo ficaria por conta de um caminho de ferro funicular, no qual se encontra um bondinho e um espaço de eventos, que funcionava como um antigo cassino. Como atualmente há ocupação irregular no local, o objetivo é favorecer a inserção da comunidade na rotina da cidade. “A ideia é trabalhar com esses espaços públicos para reforçar o vínculo das pessoas com o lugar. Temos muitas escadarias e, por meio de manifestações artísticas feitas ali, as pessoas podem redescobrir o Centro, se reaproximar”, afirma a arquiteta. Envolver crianças da comunidade, com pintura e artesanato, também é um dos pontos do projeto.

Ideia para a escadaria em Monte Serrat

Daher, inclusive, enaltece a importância das manifestações culturais na tentativa de revitalizar um município. “Tudo isso pode se transformar em uma atração para a cidade. Em projetos pelo mundo e em Curitiba notamos que a questão da arte abre as pessoas. Os diferentes convivem com mais facilidade. Pelo caminho da arte, podemos sensibilizar as pessoas a frequentar os lugares, reviver o Centro, o comércio e as memórias que ali viveram”, conta.

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Glaucus Farinello concorda com esse posicionamento e reafirma o poder que eventos, como os festivais podem ter para uma região. Prova disso, segundo ele, foi o Festival do Café, realizado entre 5 e 9 de julho de 2019 e que atraiu mais de 70 mil pessoas para a região central de Santos. “Precisamos aproveitar essa onda de otimismo e convergir ações para investimentos públicos e também privados. Pelo caminho da arte, as pessoas podem frequentar novamente os lugares e enxergar a cidade”, diz.

Atividade cultural no navio cargueiro

Patrimônio cultural e verticalização

Um fator relevante e que gera controvérsia é a preservação do patrimônio. Para Glaucus Farinello, “as pessoas confundem o que é velho com o que é, de fato, patrimônio cultural. Bairros degradados, como o Valongo e Paquetá, embora tenham construções antigas, não estão protegidos na totalidade.”

Entre poucos tombamentos reconhecidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e algumas políticas estaduais, Farinello expõe que cerca de dois mil imóveis na região central são normatizados por uma política do município de proteção cultural. Dentro disso, há diferentes restrições. A primeira delas, mais restritiva, protege os imóveis em sua totalidade, em suas áreas interna e externa. A segunda restrição protege apenas a fachada e o telhado. As duas últimas restrições são mais flexíveis e permitem renovação completa e até mesmo a verticalização no espaço, o que envolveria a construção de edifícios. “Embora muitos pensem que não se pode mexer no Centro, cerca de 50% das construções seguem apenas as restrições mais flexíveis. Poucos imóveis têm proteção total”, aponta Farinello.

Felipe Guerra explica que a preservação do patrimônio é importante, mas precisa ser aliada à necessidade de ocupação do espaço urbano. “O centro precisa ter gente morando para que as mudanças tenham força. Nosso projeto mostra à iniciativa privada, por meio das construtoras, que é possível intervir sem prejudicar a paisagem urbana e o casario original”. O arquiteto indica que, para isso, foi feito um estudo de preservação da moldura histórica local, com sugestão de construção de prédios de 45 metros de altura apenas no miolo das quadras.

Exemplo de verticalização preservando a moldura

Também responsável pelo projeto, a arquiteta Ariadne Daher chama a atenção para o fato de que o potencial construtivo de Santos envolve soluções urbanísticas que precisam ser amplamente pensadas, principalmente pela geografia do local, que envolve ilha e continente.  “Entre ter um crescimento urbano esparramado, que vai cada vez mais longe, ou ter um adensamento próximo, com estruturas adequadas para assegurar mobilidade das pessoas, temos na segunda a solução mais adequada”.

Para ela, a concentração populacional em Santos permitiria o fortalecimento do transporte público, de pedestres e de ciclovias. “São necessários esses incentivos no centro para atração de mercado. A nova legislação que o município aprovou para o centro é generosa em relação aos potenciais construtivos, principalmente de moradias. Vemos que a prefeitura flexibilizou parâmetros para a verticalização no que não está no polígono do centro histórico”, conta.

Em nome da Secretaria de Estado, Farinello fala que a verticalização não precisa ser vista como uma vilã.  “Ao invés de expandir uma infraestrutura que não temos, podemos aproveitar o potencial que existe e está ocioso. O centro de Santos não é uma situação engessada e com configuração única. Há vários caminhos e diálogos, que também incluem a construção civil para mostrar cenários futuros de como o centro pode se articular”. Segundo ele, a construção de cenários para a região central pode trazer, inclusive, o sentimento de pertencimento de volta à população local.

Custos

A contratação do projeto se deu sem custos à Prefeitura de Santos, pois foi desenvolvida pela Comunitas, organização que estimula a participação da iniciativa privada em obras de desenvolvimento, buscando o aprimoramento dos investimentos sociais corporativos. No caso da cidade paulista, a Comunitas buscou parceiros técnicos para as frentes de projetos ligados às questões urbanas. “Foram eles que organizaram a parceria com o escritório do Jaime Lerner. E como Curitiba é uma referência de urbanismo de modo geral, recebemos com bons olhos essa parceria”, afirma Farinello. Como o projeto ainda está em debate e não tem data para ser colocado em prática, a indicação de valores ainda é relativa e está aberta a investimentos da iniciativa privada.

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