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Usando borboletas e abelhas, cidade da Costa Rica lança novo conceito de urbanismo

À frente do planejamento urbano de Curridabat está o prefeito Edgar Mora Altamirano, que veio em Curitiba para o Smart City Expo Curitiba 2018, maior evento de cidades inteligentes do mundo

Foto: AMPRENSA/Christian Labra/Reprodução

por Luan Galani

02/03/2018

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A minúscula cidade de Curridabat, no coração da Costa Rica, com 72 mil habitantes, fisgou a atenção de planejadores urbanos de todo o mundo nos últimos 10 anos. Ao empregar maneiras totalmente não óbvias para recriar os espaços urbanos, o que inclui transformar as ruas em corredores ecológicos com novas plantas, borboletas e abelhas nativas, a cidade virou um case de sucesso. Com direito a prêmios. Entre eles o CNU Awards, dos Estados Unidos, que reconhece cidades e soluções pelo mundo, e o LafargeHolcim Awards, da Suíça.

À frente desse planejamento urbano, que parece saído do realismo fantástico de Gabriel García Marquez, está o jornalista e três vezes prefeito de Curridabat Edgar Mora Altamirano. Egresso da Universidade de Harvard, onde se dedicou a estudar inovação, governança e a dualidade entre natureza e cidade, Altamirano esteve em Curitiba para um painel durante o Smart City Expo Curitiba 2018, maior evento de cidades inteligentes do mundo, e conversou com HAUS com exclusividade.

Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo

Além de dar voz real à população, resolvendo diversos problemas e expectativas bairro a bairro, instituiu o lema de que todos os seus funcionários deveriam fazer as pessoas felizes, todos os dias, e deu partida a diversos projetos experimentais e intervenções. Mas seu maior trunfo na condução da prefeitura é valorizar a fauna e a flora locais, colocando-as em todos os projetos, o que acaba tornando os espaços públicos e privados ricos em cores, aromas e formas.

Foto: Curridabat/Facebook/Reprodução

Cidade Doce, como também é conhecida a cidadezinha costa-riquenha, traz em seu novo DNA a defesa de que “as cidades também precisam agregar ao planeta, em vez de só extrair recursos dele”, como explica Altamirano. “A interação com a natureza tem que acontecer dentro da cidade. Ou não vai acontecer.” O que só vitaliza a experiência dos cidadãos com o lugar em que vivem.

Foto: Curridabat/Facebook/Reprodução

Quais os principais problemas e desafios da cidade quando você começou como prefeito?

Todo mundo me dizia a mesma coisa: o problema da cidade era que ninguém sentia a prefeitura. Não via senso de comunidade. Ninguém sabia o que a prefeitura estava desenvolvendo. Mas eu sabia que a prefeitura estava fazendo um trabalho apropriado. Estava cuidando das estradas, dos resíduos sólidos, das escolas. Então, a pergunta para mim sempre foi: por que as pessoas dizem sempre as mesmas coisas? Dizem que o problema é que a prefeitura não está lá. Descobri que o problema era outro. Levei meses para perceber que o problema era que a prefeitura não estava sentindo as pessoas, ouvindo elas, suas expectativas, problemas e demandas. Não tinha capacidade de sentir as pessoas. Trabalhamos com isso. Comecei a perguntar para todos que trabalham comigo: quantas pessoas você fez feliz hoje? Isso nos permitiu criar um novo tipo de cidade. Vieram diferentes respostas. Algumas agressivas: não devemos provocar felicidade. Outras: sabe, acho que criamos felicidade no bairro, fizemos uma senhora feliz hoje. Colocamos os momentos felizes em um mapa e passamos a criar diferentes experiências nas pessoas.

Mas como reproduzir isso diariamente?

De diferentes formas. Mas diria que é encaixando na política pública. Como essa senhora, por exemplo: nós cuidamos de um terreno ao lado de sua casa. Estava criando problemas para ela há muitos anos. Cuidamos do problema e ela ficou muito feliz. Um momento de felicidade. Esse e muitos outros são gravados em um mapa, que chamamos de o Mapa da Felicidade. E o mapa relaciona felicidade a confiança. Quando fui prefeito pela primeira vez, descobri que confiança é tudo. Acho que com essa capacidade de entender as experiências. Temos várias experiências, e vamos criando mapas da cidade. Acreditamos que devemos sair da gramática escrita e ir para a gramática gráfica para entender o que acontece na cidade.

Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo

Considerando isso, como criar esse senso em grandes cidades?

Em todas as cidades ao redor do mundo, existem duas escalas. Uma que diz respeito à esquina da sua casa, e outra que considera o país. Basicamente, tudo começa com voltar o planejamento não para o território, mas para as experiências das pessoas. É uma maneira muito diferente de planejar. É valorizar a gota da chuva, que não precisa ser mandada para o solo, e árvores, por exemplo. É bem mais fácil do que o modo tradicional feito ainda hoje.

E como criar essas comunidades nas grandes cidades? Algumas pessoas nem conhecem seus próprios vizinhos de porta.

Nós tendemos a dizer como as pessoas devem se organizar. E não reconhecer quão orgânicas são essas organizações. Existem diferentes maneiras de organização dos bairros. Na Costa Rica, por exemplo, pedimos para eles criarem comitês. Mas as discussões giram em torno de quem será presidente ou secretário. Isso é ridículo. Ninguém quer ser presidente ou secretário. E então pedimos para eles fazerem isso para darmos dinheiro para eles ou outros recursos. Não deveríamos fazer isso. Essas organizações são para o conforto da cidade, nosso conforto, não das pessoas, individualmente, que fazem parte disso. Temos que pensar sobre isso de uma maneira bem diferente.

Foto: Facebook/Reprodução

A boa arquitetura contemporânea é difícil de aplicar no Brasil com o atual cenário de violência, o que também acontece em outros países da América Latina. Como equacionar isso para melhorar os espaços públicos?

Acho que temos que mudar a experiência de confiança no espaço público. A experiência tem que ser redesenhada. Vamos de espaço público aberto para espaço público fechado. Nós temos redesenhado os espaços e temos sido reconhecidos por várias instituições. Propomos uma outra pergunta. Não perguntamos que bairro você gostaria de ter. Porque sempre vêm ideias com fechamento dos espaços. Colocamos então a questão: qual a melhor bairro que podemos construir incorporando espaços para biodiversidade? Incluir a biodiversidade é uma estratégia importante para segurança. Tende a criar um ambiente mais gentil e leve.

Uma das coisas que questionamos é: por que redesenhamos espaços somente para jovens homens? Como quadras de basquete, em vez de criar outro design imparcial, em que outras pessoas se sintam seguras e livres. Uma das coisas que vem facilmente quando tratamos de parques: temos que pensar nas crianças e no mobiliário urbano para elas. Elas só querem ir lá. Mas também tem que desenhar para as pessoas que levam as crianças ao parque. A maneira como projetamos está mantendo as pessoas fora. As crianças não vão sozinhas ao parque. Se o lugar está cheio de testosterona, outras pessoas não virão ao lugar.

Basicamente, promovemos outro design de espaços públicos, um design imperfeito. Não será focado em nenhum membro da família. Abelhas nativas, plantas, árvores, tem que estar na pacificação. As abelhas são a maneira mais rápida e barata de introduzir biodiversidade. Quando faz isso, você cuida do solo no lugar. Não é só deixar verde a cidade. É criar a diversidade química no solo para ser rico. E para manter-se assim. Tudo tem a ver com o solo. Nosso principal fonte: borboletas, abelhas e abelhas nativas. Ninguém teria dinheiro suficiente para fazer o que eles fazem. E nos ensinam como agregar valor ao planeta, em vez de subtrair apenas. Eu quero ser uma abelha nativa quando crescer.

Foto: AMPRENSA/Christian Labra/Reprodução

Hoje assistimos a um vácuo de liderança no país. Como implementar esse planejamento que você inaugurou lá e lidar com essa escassez de pessoas aqui?

Na Costa Rica é a mesma coisa. No mundo todo. Estamos em uma transição em que a liderança está sendo  questionada por muitas coisas. E nós estamos certos. Eles não estão sendo bons líderes. É a maneira como entendemos a cultura do poder. Lutamos por poder como se estivéssemos ainda na Idade Média. Poder, autoridade e capacidade são três coisas diferentes. Poder vem com uma eleição. E está simbolizado em uma caneta para assinar. Mas aí vem o paradoxo: nada pode ser feito sem minha assinatura, mas nem tudo que assino é feito. Por quê? Não temos autoridade, ou perdemos a autoridade. A autoridade pertence às pessoas a todo momento. Quando temos poder é uma capacidade para autoridade onde as pessoas vivem. E quem nós dá? As pessoas. Todo mundo tem a capacidade de te dar ou tirar autoridade. E fazemos isso todo dia. Damos pela manhã e podemos extrair à tarde de novo para nós. Queremos pessoas para liderar com capacidade de agregar para projetos, com calma, entusiasmo, empatia, concentração e abertura. Precisamos disso para este século.

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