O francês Raymond Aron: combate ao marxismo | Reprodução
O francês Raymond Aron: combate ao marxismo| Foto:

Existe no Brasil uma tentativa de desqualificação quase sistemática de valores conservadores — muitos progressistas consideram uma ofensa alguém se identificar com alguns elementos dessa corrente ideológica.

De qualquer forma, ainda que se discorde das ideias propostas, não se pode negar que elas trazem à tona debates fundamentais para a sociedade contemporânea — sobretudo sobre o papel do Estado, seja no plano teórico ou mesmo em questões práticas.

Pensando nisso, a Gazeta do Povo lista 16 autores para compreender melhor o conservadorismo. Confira:

1. Edmund Burke (1729-1797)

Irlandês de nascimento, mas tendo passado a maior parte da vida em Londres como um membro da Câmara dos Comuns, Edmund Burke teve sua obra profundamente marcada pela oposição à Revolução Francesa. Embora tivesse apoiado a Independência dos Estados Unidos e a liberdade religiosa dos católicos no Reino Unido (após séculos de perseguição por parte dos anglicanos), Burke entendia que a violência revolucionária na França estava destruindo os valores da sociedade civilizada.

A obra de Burke, particularmente suas Reflections on the Revolution in France (Reflexões sobre a Revolução na França), de 1790, é considerada por muitos a fundadora do pensamento conservador moderno, e teria enorme influência nos séculos seguintes.

2. G. K. Chesterton (1874-1936)

britânico Gilbert Keith Chesterton não era exatamente o que poderia ser chamado de conservador — pelo menos, não dentro da definição teórica. De fato, sua crítica era tanto à esquerda quanto à direita, algo que fica claro em um de seus famosos aforismos: “O mundo moderno se dividiu em conservadores e progressistas. O negócio dos progressistas é cometer erros. O trabalho dos conservadores é impedir que os erros sejam corrigidos”.

Católico em um país de maioria protestante, Chesterton teve seu trabalho marcado por uma defesa do cristianismo em um momento que grande parte dos intelectuais defendia um afastamento da religião, pendendo para o ateísmo. Escrevendo em uma época em que as ideias de Nietzsche, Freud e Charles Darwin estavam em alta e questionavam os velhos valores, Chesterton dedicou seus principais romances a ironizar o pensamento moderno. Em The Everlasting Man (O Homem Eterno), de 1925, narra com sarcasmo a história do mundo através da ação de Deus, e afirma “o ateísmo é anormalidade”.

3. Whittaker Chambers (1901-1961)

A curiosa história de Whittaker Chambers começa como um improvável militante do Partido Comunista dos Estados Unidos e é concluída com ele se tornando um dos primeiros editores da National Review, uma das principais revistas conservadoras do país.

Após trabalhar como espião para a União Soviética, Chambers mudou de lado e se tornou uma voz proeminente no anticomunismo americano. Ganhou fama ao testemunhar contra Alger Hiss, um alto funcionário do Departamento de Estado, a quem acusou de também espionar para os russos — Hiss, que negou qualquer envolvimento, acabaria condenado por perjúrio, mas não por espionagem, pois o crime já havia prescrito no momento do julgamento.

Witness (Testemunha), a principal obra de Chambers, é uma crítica ao comunismo desde dentro, e influenciou uma geração de conservadores no mundo inteiro — em 1984, Ronald Reagan concedeu postumamente a Medalha da Liberdade (a mais alta honraria civil dos EUA) a Chambers, creditando o livro por ter ajudado a mudar sua visão de mundo.

4. Raymond Aron (1905-1983)

Se Marx dizia que a religião era o “ópio do povo”, o francês Raymond Aron argumentava que o próprio marxismo havia se tornado o “ópio dos intelectuais” – expressão que dá título à sua obra mais famosa, de 1955, publicada originalmente no Brasil como Mitos e Homens e relançada em 2016, após mais de trinta anos esgotada, com o título original.

Ópio dos Intelectuais é uma crítica à difusão do pensamento marxista no Ocidente, e na insistência dos intelectuais em seguir almejando um sistema comunista quando as evidências de prosperidade apontavam em outra direção.

Aron argumentava que a União Soviética havia apenas substituído uma cultura despótica por outra — o czarismo pela alta burocracia estatal —, e que o marxismo havia simplesmente trocado o culto religioso por uma fé cega na caminhada histórica prevista por Marx, que deveria levar à Revolução Socialista. Para ele, o comunismo sacrificava as mais diferentes liberdades humanas e os valores cristãos que as garantiriam.

5. Barry Goldwater (1909-1998)

Seis vezes senador republicano pelo estado do Arizona, Barry Goldwater foi um dos mais influentes pensadores conservadores da década de 60. Sua obra The Conscience of a Conservative (A Consciência de um Conservador) é considerada a grande responsável por uma espécie de renascimento conservador nos EUA, permanecendo influente mesmo mais de meio século após sua publicação.

O livro discutia uma ampla gama de questões políticas e econômicas, abordando sindicatos, direitos civis, subsídios agrícolas, programas de bem-estar social e taxação, e advogando contra o coletivismo e o Estado grande.

Crítico do “New Deal” de Franklin Roosevelt, Goldwater chegou a concorrer à presidência dos EUA em 1964, mas acabou derrotado por Lyndon Johnson. No entanto, grande parte de suas ideias influenciaria, na década de 80, as políticas do governo Reagan.

6. Richard Weaver (1910-1963)

Professor na Universidade de Chicago e um dos filósofos políticos mais influentes da metade do século XX, Richard Weaver alcançou grande notoriedade pela sua obra Ideas Have Consequences (As Ideias Têm Consequências), publicada originalmente em 1948.

Em seu texto, Weaver criticava o sistema de pensamento de sua época, e enfatizava a tradição, os valores e defendendo a manutenção da propriedade privada — que considerava “o último direito metafísico” do indivíduo — como maneiras de salvar o Ocidente do declínio que julgava estar testemunhando. Sua obra inspirou os conservadores que vieram depois e serviu de base teórica para muitos trabalhos que criticariam os movimentos reformistas que ganhariam força, sobretudo, a partir dos anos 60.

7. Russell Kirk (1918-1994)

Em sua obra-prima de 1953, The Conservative Mind (A Mente Conservadora), Kirk traçou uma genealogia do pensamento conservador desde Edmund Burke, a quem considerava o pai-fundador da doutrina. Originalmente elaborado como uma tese de doutorado, a obra é considerada seminal para o pensamento conservador no pós-Segunda Guerra Mundial, e também ajudou a renovar o interesse na obra de Burke.

Para Kirk, o conservadorismo não podia ser resumido como uma ideologia: era um modo de vida e uma visão de mundo. Seu trabalho também faz uma análise das diferenças entre os conservadores e os libertários.

8. Thomas Sowell (1930-)

Membro sênior da Hoover Institution, na Universidade de Stanford, o economista  Thomas Sowell é conhecido não apenas por suas análises de mercado, mas também pelos comentários em temas sobre raça, grupos étnicos e educação. Crítico de ações afirmativas, dizendo que levam a mais fracassos do que exemplos bem-sucedidos, Sowell defende uma mínima intervenção do Estado em temas como controle de armas e auxílio às minorias, entendendo que ele apenas aprofunda as dificuldades dessas comunidades. Também advoga em prol do livre-mercado e da extinção do Federal Reserve (o Banco Central americano), que considera incapaz de corrigir o rumo da economia do país e evitar crises.

Em A Conflict of Visions (Conflito de Visões), Sowell defende que os mesmos grupos se opõem sucessivamente nas mais variadas questões sociais, políticas e econômicas em função de suas “visões”, que podem oscilar entre a crença de que a natureza humana é essencialmente boa e uma solução ideal é sempre possível e entre o entendimento de que o homem sempre age em interesse próprio — e, portanto, não é possível esperar soluções ideais, sendo preciso apelar para meios-termos, tradição e leis.

Principal obra: Conflito de Visões (Editora É Realizações, R$ 69,90)

9. Roger Scruton (1944-2019)

Uma das maiores perdas recentes para o mundo conservador, o filósofo britânico Roger Scruton, morto no ano passado, foi um dos grandes intelectuais contemporâneos dedicados a difundir as visões do conservadorismo tradicional. Seguidor dos preceitos de Edmund Burke, Scruton apropriou-se das reflexões daquele sobre a Revolução Francesa para fazer críticas às visões socialistas, argumentando que a tentativa de organizar a sociedade de uma maneira totalizante (como os regimes marxistas buscaram) é impossível sem um inimigo real ou imaginário — só funcionando em tempos de crise e guerra, gerando a eterna necessidade da literatura socialista em estabelecer inimigos externos para manter a população coesa.

Para Scruton, a maneira de manter a sociedade unida é através das leis e da obediência — a verdadeira liberdade não estaria oposta a esta obediência: as duas seriam faces da mesma moeda. Seus trabalhos atuam como guias elaborados para defender o pensamento conservador em tempos de clamores por mudanças, oferecendo argumentos para conter investidas em prol de ideias reformistas desse sistema legal, como nas campanhas por eutanásia e aborto.

10. Gustavo Corção (1896 - 1978)

Muito antes de as ideias conservadoras desaparecerem do debate público por cerca de três décadas, o carioca Gustavo Corção foi um de seus principais divulgadores em terras tupiniquins, embora nunca tenha se declarado como tal. Mais do que conservador, Corção - o Olavo de Carvalho sem os palavrões - era profundamente católico, e foi um proeminente crítico do Concílio Vaticano II, que modernizou a Igreja Católica e praticamente aboliu a missa em latim.

Antes da morte de sua mulher, Diva, em 1936, chegou a flertar com ideias comunistas, para depois se dedicar completamente a analisar os acontecimentos políticos e culturais do país pelas lentes do catolicismo. Desde 1964 até sua morte, em 1978, Corção foi um ferrenho apoiador da ditadura militar no Brasil, a ponto de chegar a considerá-la "tolerante demais" com a esquerda. Esta seja, talvez, a razão pela qual seus escritos tenham caído no esquecimento. Suas controversas opiniões políticas não impediram, entretanto, que o escritor mantivesse amizade com figuras como Ariano Suassuna, Nelson Rodrigues e Manuel Bandeira, que considerava sua obra O Desencanto do Mundo (1965) como "um dos livros mais belos e mais fortes de nossas letras".

11. José Guilherme Merquior (1941 - 1991)

Mais um carioca a criticar a esquerda - mas, desta vez, em plena ascensão do socialismo na arena pública -, José Guilherme Merquior nasceu no Rio de Janeiro em 1941 e foi um verdadeiro prodígio intelectual. Formado em filosofia e direito, tornou-se doutor em Letras pela Universidade de Paris e em Sociologia pela London School of Economics, na Inglaterra. Como diplomata, atuou como representante do Brasil na Unesco e embaixador no México. Aos 40 anos, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras.

Embora fosse um raro expoente do pensamento liberal no Brasil dos anos 1960 a 1980, Merquior criticava os que defendiam uma versão doutrinária e idealizada do liberalismo. Sua crença era no que chamava de "liberalismo social": um sistema que equilibraria um Estado enxuto e a redução das desigualdades. Morto antes de completar 50 anos, em decorrência de um câncer, Merquior escreveu 22 livros, sendo o mais conhecido deles a obra Liberalismo Moderno e Antigo, no qual traça um panorama da origem e do desenvolvimento das ideias liberais e mostra como essa tradição intelectual abarca conceitos diferentes de liberdade.

12. Alexis de Tocqueville (1805-1859)

Alexis-Charles-Henri Clérel, mais conhecido como Alexis de Tocqueville, ou visconde de Tocqueville, nasceu em 1805, em uma família aristocrática com forte teor intelectual e patriótico em relação à França de Luís XVI. Na infância, assistiu às guerras napoleônicas (1803-1815) e, depois, à restauração da monarquia de Luís XVII, que durou até 1824, sendo esse último sucedido por Carlos X e logo derrubado, em 1830, por Luís Felipe.

A experiência o levou a desenvolver grande interesse pelo movimento democratizante que emergia na França iluminista e na América, para onde viajou em 1830. A empreitada lhe renderia uma profunda imersão filosófica na democracia real, afastada dos ideais iluministas franceses. A obra escrita por ele, após retornar da viagem em 1832: A democracia na América, lhe rendeu um lugar na Academia Francesa e em demais representações políticas e intelectuais do país, além do título de historiador da democracia. Paradoxalmente, sua maior contribuição intelectual, após anos de estudo do regime democrático, foi retirar deste sistema o caráter religioso.

13. Eric Voegelin (1901-1985)

Embora seja disputado à unha pelos intelectuais da "nova direita" - a safra de pensadores liberais e conservadores que apareceram no espaço público depois dos anos 1990 - Eric Hermann Wilhelm Voegelin, nascido em Colônia, Alemanha, nunca se autodenominou conservador. Com passagens pelas universidades de Columbia, Harvard e Wisconsin, Voegelin voltou para a Europa nos anos 1930 para lecionar Sociologia e Ciência Política na Universidade de Viena, em plena ascensão no nacional-socialismo na vizinhança. Sua obra "As religiões políticas", lançada em 1938, na qual critica a sacralização do Estado como meio de irrupção revolucionária, faça com que sua cabeça se torne um alvo para os novos líderes. Quando a Áustria é invadida pelos nazistas, Voegelin perde o emprego e foge para a Suíça, após ser visitado duas vezes pela Gestapo. De lá, foi para os Estados Unidos, de onde escreveu a maior parte de sua principal obra, História das ideias políticas.

Eric Voegelin com certeza não foi o primeiro intelectual a falar do fenômeno da sacralização mundana dos componentes político-ideológicos da sociedade. A diferença de Voegelin é que ele dá uma explicação completa, ao identificar no gnosticismo a chave para entender a questão política atual: a heresia cristã que prega que, através do conhecimento, é possível alcançar a salvação final no tempo presente, além de consertar os problemas que a própria existência naturalmente comporta.

14. Adam Smith (1723 - 1790)

Roger Scruton, já citado nesta lista como um ícone do pensamento conservador contemporâneo, atribuía a um pensador do Iluminismo escocês o "insigth filosófico que realmente deu início ao conservadorismo intelectual". Este homem é Adam Smith, considerado o pai do liberalismo econômico moderno. Em seu trabalho popularmente conhecido como "A riqueza das nações", Smith alguns sustentáculos que uniriam liberais e conservadores sob um consenso mais ou menos pacífico referente aos adequados tratos políticos nos séculos XIX, XX e XXI. Liberais e conservadores concordariam com a necessidade de um governo limitado que desse conta de administrar as relações humanas sem, todavia, determiná-las ao ponto de suas diretrizes se tornarem tiranas.

No entanto, foi a partir de uma obra pouco louvada ― "Teoria dos sentimentos morais" ― que Adam Smith se sagrou o fundador moderno do pensamento conservador, ao se opor à ideia de “contrato social”. E é justamente nessa posição que está o nascimento da teoria social do conservadorismo: a sociedade existe por causa dos indivíduos, das famílias e instituições, e não o contrário. Smith comunga da percepção de que não somos bons e nem maus selvagens, mas indivíduos capazes de bondades e maldades caso observemos - ou não - as condutas e regras que a experiência social nos legou.

15. Karl Popper (1902 - 1994)

"Não tolerar a intolerância". Eis a principal lição legada por Karl Popper, o austríaco judeu radicado em Viena que assistiu de camarote a ascensão do nazifascismo na Europa e contribuiu para a elaboração do método científico, ao desenvolver o critério da falseabilidade. As consequências da crítica de Popper seriam o abandono da pretensão positivista de que a ciência inevitavelmente chegaria a um conjunto de verdades permanentes e irrefutáveis.

No campo da filosofia política, entretanto, a principal obra de Popper é A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, lançado em 1944. Neste tratado, o filósofo o que entende por Historicismo — a crença de que a História humana se move indubitavelmente em uma direção específica. É também nesta obra que ele explica - unindo suas ideias políticas à ciência - que uma sociedade aberta precisa ser baseada não na adoção de uma fórmula ideológica hermética, mas tolerância, justamente para que a liberdade de expressão resguarde a capacidade de errar e de corrigir erros.

16. Michael Oakeshott (1901 - 1990)

Pouca gente sabe, mas um dos grandes nomes do pensamento conservador perdeu o título de lorde ao ser flagrado em pleno ato sexual com uma dama na praia. Michael Oakeshott, definitivamente, não se enquadra no estereótipo de elegância inglessa associado ao conservadorismo.

Não por acaso, é justamente quem defendia, literalmente, que ser conservador é antes de tudo uma disposição de caráter, que prefere "o familiar ao estranho, (…) o que já foi tentado a experimentar, o fato ao mistério, o concreto ao possível, o limitado ao infinito, o que está perto ao distante, o suficiente ao abundante, o conveniente ao perfeito, a risada momentânea à felicidade eterna".

A sua postura de ceticismo com relação à política era o resultado da certeza de que todos nós somos falhos e que, por isso, é ilusão esperar que a vida humana caiba em uma planilha de Excel. Apesar das controvérsias, Oakeshott foi, portanto, a crítica indispensável ao pensamento que está se transformando na via da sanidade

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