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Astronauta Buzz Aldrin caminha na superfície da Lua perto da perna do módulo lunar Eagle durante a missão Apollo 11. O comandante da missão, Neil Armstrong, tirou a foto. Enquanto Aldrin e Armstrong exploraram a região da Lua chamada de Mar da Tranquilidade, o astronauta Michael Collins permaneceu no módulo de comando
Astronauta Buzz Aldrin caminha na superfície da Lua perto da perna do módulo lunar Eagle durante a missão Apollo 11. O comandante da missão, Neil Armstrong, tirou a foto. Enquanto Aldrin e Armstrong exploraram a região da Lua chamada de Mar da Tranquilidade, o astronauta Michael Collins permaneceu no módulo de comando| Foto: Nasa

Há cinquenta anos, o homem pousava na Lua. Mais do que uma efeméride, a data evoca reflexões. Por parte de alguns, ela desperta antigas e elaboradas teorias da conspiração. O que é ridículo, mas de um ridículo compreensibilíssimo. Afinal, o pouso na Lua é daqueles feitos que mudaram o mundo, que revolucionaram nosso entendimento não só do Universo, mas também do homem e da nossa passagem por este planeta como espécie e como seres dotados de alma.

Para as gerações nascidas depois de 1972, ano do último passeio lunar, é difícil compreender a grandiosidade daquelas excursões. Mandamos não um, mas doze homens à Lua, isto é, àquele astro que, desde que descemos das árvores ou desde que fomos expulsos do Paraíso, fascina o ser humano. Hoje, porque o ser humano entrou num foguete e cruzou o espaço numa viagem de 384.400 quilômetros que durou quatro dias, é até difícil olhar para o céu numa noite de lua cheia e se maravilhar com aquela bola lá suspensa entre as estrelas.

Eis um dos efeitos colaterais do feito de Neil Armstrong & Cia.: todas as coisas do espaço, que durante milênios deixaram os homens intrigados, se tornaram coisas muito concretas e, no caso das pedras lunares, palpáveis. Junto com o mistério e as superstições das quais hoje rimos, desdenhosos e arrogantes, de certa forma acabou também aquela sensação de impotência e pequenez. O homem se agigantou perante tudo o que antes pertencia ao reino do desconhecido.

Vale lembrar que a Missão Apollo 11 nasceu simbolicamente menos de vinte anos depois da Segunda Guerra Mundial, naquele famoso discurso de 25 de maio de 1961 em que Kennedy lançou o desafio de levar o homem à Lua. A Humanidade estava vivendo um momento próspero e até feliz, de libertação, mas por sob as roupas multicoloridas da juventude que engatinhava na psicodelia havia as lembranças ainda frescas na memória coletiva dos horrores do Holocausto e da Bomba Atômica.

O filósofo Theodor Adorno disse que “fazer poesia após Auschwitz é um ato bárbaro”, mas claro que ele não estava falando exatamente de poesia. Adorno estava falando de todas as coisas belas e elevadas, aquelas coisas que durante milênios tentaram alcançar, absorver, compreender e se deixar elevar pelo divino. As cores pasteis da art-nouveu, portanto, escondiam um pessimismo doloroso, um desencanto generalizado com as coisas do espírito e também com as coisas muito terrenas. O homem se olhou no espelho e não gostou muito do que viu.

Era hora, portanto, de recuperar valores, inclusive aqueles destruídos pela Bomba Atômica. Se Auschwitz mostrou que o homem era capaz de matar em escala industrial, de forma organizada e engenhosa, como uma linha de produção do Mal, Hiroshima mostrou que o homem era capaz de usar todo o seu conhecimento científico para a destruição indiscriminada. A ciência, que desde o Renascimento gozava de prestígio, agora despertava mais temor do que reverência.

Assim, o projeto Apollo foi criado para dar alguma esperança à Humanidade. Sim, eu sei que seu professor de história do ensino médio (o meu também) disse que a NASA era antes de tudo um projeto bélico que tinha por objetivo exibir todo o poderio dos Estados Unidos e, de quebra, humilhar a União Soviética e seu comunismo enganosamente eficiente. Mas reduzir a empreitada espacial de norte-americanos e russos a um joguinho político é ignorar a necessidade dos homens daquela época de algo que lhes restituísse alguma esperança em si mesmos.

Como comandante da expedição foi escolhido Neil Armstrong. Difícil imaginar escolha melhor. E aqui nem vou falar das habilidades técnicas de Armstrong como piloto – até porque me falta conhecimento neste sentido. Prefiro me ater às qualidades morais daquele que foi herói num tempo em que essa palavra não tinha sido reduzida à imagem de uns marmanjos vestidos com fantasias em superproduções da Marvel.

Curioso que o lado mais nobre de Armstrong se revelou depois da chegada do homem à Lua. Sim, ele cumpriu a quarentena, porque os cientistas temiam uma tal de peste lunar, e sim, ele desfilou em carro aberto e recebeu todas as loas a que tinha direito. Mas, passada a balbúrdia, Armstrong decidiu se recolher, assumindo um posto de professor de engenharia aeroespacial na Universidade de Cincinnati e vivendo quase como um monge secular.

Alguém consegue imaginar heroísmo, discrição e contrição semelhantes hoje em dia? Há por aí homens nobres o bastante para irem a, sei lá, Marte pela primeira vez e voltarem ao planeta Terra não como super-homens, supermilionários e supernarcistas pairando sobre os demais, ruminando arrogância e vendendo souvenirs de si mesmo por quaisquer dois vinténs?

Eis que o homem finalmente pousou na Lua pela primeira vez no dia 20 de julho de 1969, às 20h17 UTC (17h17, no horário de Brasília) – Armstrong só daria seu famoso “grande passo para a Humanidade” seis horas mais tarde, já no dia 21. O feito gerou euforia por um tempo, mas ela foi gradativamente dando lugar a uma sensação incômoda, triste e talvez até cínica de normalidade. Era como se tivéssemos batido no peito depois da expulsão do Jardim do Éden e dito, com toda a arrogância possível: “Conquistamos a Lua! Não há nada que não possamos fazer! Agora, de volta às batalhas terrenas”.

A Lua perdeu seu encanto, a poesia caiu em desgraça, Deus, já questionado por causa do Holocausto, passou a ser questionado pela materialidade daquilo que um dia nos pareceu inalcançável, e a mesma ciência que nos legou o zyklon B e a fissão do átomo passou a acreditar que era capaz de responder a todas as dúvidas da Humanidade, reduzindo o ser humano a um acidente cósmico.

Essa macrovisão pessimista, contudo, não precisa ser a minha (ou sua) visão. Se desde aquela noite, há cinquenta anos, a maioria das pessoas optou por ignorar o lado divino desse feito que é o maior da Humanidade até aqui, preferindo acreditar na mentira da autossuficiência, paciência. Não há motivo nenhum para, individualmente, não admirar a aventura, rir da nossa própria pretensão, louvar a humildade de Armstrong e seguir com a vida, aqui e ali pairando para ver um eclipse ou uma superlua.

E ainda se permitindo se perguntar: “Por quê?”

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