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A ativista Angela Davis exemplifica a frase do saudoso Millôr Fernando, segundo o qual "quando uma ideologia fica bem velhinha, vem morar no Brasil".
A ativista Angela Davis exemplifica a frase do saudoso Millôr Fernandes, segundo o qual “quando uma ideologia fica bem velhinha, vem morar no Brasil”.| Foto: Reprodução/ YouTube

Angela Davis está entre nós.

“Quem?”, você deve estar se perguntando. “Aquela atriz do QI altíssimo?”, sugere alguém, se confundido com outra Davis, a Geena. Não. Me refiro a Angela Davis – ex-membro do grupo radical e violento Panteras Negras, militante que defendia a revolução comunista como forma de solucionar os problemas raciais nos Estados Unidos, ativista que quase foi condenada à morte, voz que passou décadas no ostracismo, de onde nunca deveria ter saído, mas que ressuscitou nos últimos anos, juntamente com as ideias mumificadas do comunismo.

Davis está no Brasil a convite da editora Boitempo, pela qual está lançando sua autobiografia sangrenta e ressentida, e da Fundação Rosa Luxemburgo, instituição financiada pela esquerda alemã e que leva o nome de outra revolucionária violenta da esquerda radical que tentou instaurar uma ditadura comunista na Alemanha depois da Primeira Guerra Mundial.

Mas o que o interesse por uma “intelectual radical” sem qualquer relevância para a política ou a academia, uma figura marginal da história pela conquista dos Direitos Civis nos Estados Unidos, a antípoda de Martin Luther King, revela sobre a paleolítica esquerda brasileira?

Radicalização do discurso e heróis duvidosos

Várias coisas. Primeiro que estamos mesmo diante de um processo claro de radicalização de um discurso cada vez mais superficial. Esqueça a esquerda dita esclarecida, aquela que procurava basear sua luta igualitária na obra de filósofos densos, que promovia discussões de obras clássicas em porões que fediam à pretensão e que defendia a dialética como caminho para o poder.

A esquerda millenial não quer pensar. Ela busca inspiração em figuras como Angela Davis, que não conseguiu nada e cujos livros não passam de panfletos que só são levados a sério por uma comunidade acadêmica fechada em sua bolha claustrofóbica, mas cuja retórica vitimista e populista é como mel para as mosquinhas da igualdade.

Outra coisa que o interesse despertado por Davis revela é que a nova esquerda não está nem aí para as máculas no currículo de seus heróis. O que, aliás, explica bastante por que as 15 mil pessoas que teriam lotado o Ibirapuera, em São Paulo, para ouvir a ex-Pantera Negra ficaram arrepiadas e emocionadas ao ouvirem-na falar “Lula Livre”. Mais do que nunca, a esquerda brasileira acredita que pela causa vale tudo, até mesmo se associar a pessoas de retórica fácil e passado manchado.

E aqui não me refiro apenas ao fato de Angela Davis ter sido presa e quase condenada à morte por ter comprado a arma usada num crime que acabou com nada menos do que quatro mortos, incluindo um juiz. Estou falando mesmo é do ativismo seletivo e mentiroso de Davis que, apesar de todo o discurso antiprisional, nos anos 1970 se recusou a ajudar presos políticos por trás da Cortina de Ferro, dizendo que, como eles se opunham ao comunismo, tinham mais é que continuar na prisão.

Nos anos 1970, aliás, Angela Davis manteve um contato muito próximo não só com as ditaduras assassinas tradicionais daquele tempo – Cuba, União Soviética e Alemanha Oriental. Ela se envolveu também com Jim Jones, o líder espiritual progressista que levou nada menos do que 918 pessoas ao suicídio em Jonestown, na Guiana.

Oportunismo desavergonhado

Apesar deste passado mais do que nebuloso, ou justamente por causa dele, a intelligentsia brasileira achou por bem trazer Angela Davis. No evento, a militante inoportuna, mas oportunista, arrancou suspiros e aplausos da plateia ao falar de todos os temas que são caros à esquerda brasileira atual, dos incêndios na Amazônia ao derramamento de petróleo no Nordeste, passando, claro, pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e pela santificação de Lula como prisioneiro político. Até a menina Ágatha, morta em setembro, supostamente num confronto entre policiais e traficantes no Rio de Janeiro, foi usada por Angela Davis para defender sua maior causa hoje em dia, uma causa completamente dissociada da realidade brasileira: a abolição carcerária.

Sim, você leu certo. Abolição carcerária. Desde que foi presa e quase se sentou na cadeira elétrica, há 50 anos, Angela Davis tem como bandeira a ideia de que as prisões só existem para oprimir os pobres e os negros. Crime, para ela, não existe. É só uma justificativa do capitalismo branco heteronormativo patriarcal globalizado neoliberal para aprisionar anjos cuja inocência está acima de qualquer dúvida. (A não ser no caso das prisões dos regimes ditatoriais de esquerda, que encarceram aqueles que realmente merecem, os inimigos da luta igualitária).

O saudoso e presciente Millôr Fernandes dizia que uma ideologia, depois que ficava bem velhinha, vinha morar no Brasil. Quanto a Angela Davis, não sei se ela veio para ficar, mas suas ideias velhas e agressivas, tenho certeza, já encontraram morada no coração de muita gente que insiste em acreditar na balela comunista.

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