Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
 | Foto: Cesar BrustolinSMCS
| Foto: Foto: Cesar BrustolinSMCS

A vacinação de crianças atingiu o nível mais baixo no Brasil em pelo menos 16 anos. Em 2017, pela primeira vez, todas as vacinas indicadas para crianças com menos de um ano ficaram abaixo da meta (que é imunizar 95% das crianças dessa idade). Os dados são do Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde. 

O Ministério da Saúde divulgou também, no dia 3 de julho, uma lista de 312 municípios onde a vacinação contra poliomielite em crianças ficou abaixo de 50%, e alertou para o risco do retorno da doença, que está erradicada no Brasil desde 1990. Também chamada de pólio, ela é causada por um vírus e pode resultar em paralisia, geralmente das pernas. 

O risco existe para todos os municípios que estão com coberturas abaixo de 95%, informou o PNI em um comunicado. “Temos que ter em mente que a vacinação é a única forma de prevenção da poliomielite e de outras doenças que não circulam mais no país. Todas as crianças menores de cinco anos de idade devem ser vacinadas, conforme esquema de vacinação de rotina e na campanha nacional anual. É uma questão de responsabilidade social”, disse a coordenadora do PNI, Carla Domingues. 

O Ministério da Saúde afirma que o sucesso das campanhas de imunização no Brasil, que já eliminaram a poliomielite, sarampo, rubéola e síndrome da rubéola congênita, tem causado na população uma falsa sensação de que as vacinas não são mais necessárias. 

Leia também: Grupos contra vacinação crescem e disparam alerta para volta de doenças no Brasil

O infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunização (SBIm), diz que são muitas as causas responsáveis pela queda de cobertura das vacinas, e concorda que a falta de percepção do risco pela população é a principal. 

"As vacinas fazem tanto sucesso, eliminam tanto as doenças, que acabam sendo vítimas de si mesmas. Passa uma geração em que ninguém mais vê sarampo ou pólio, não se ouve mais falar da doença, as pessoas não reconhecem aquele risco", diz. 

Mas os riscos existem, já que essas doenças ainda não foram eliminadas no mundo inteiro. Por exemplo, a pólio existe em alguns países da Ásia, e o sarampo ainda existe em países da Europa, nos Estados Unidos e no Canadá. “As migrações e deslocamentos populacionais são muito frequentes. Estamos há 28 anos sem pólio no Brasil, mas se as pessoas aqui não estão protegidas, existe o risco de reintrodução – como o que está acontecendo com o sarampo vindo da Venezuela”, explica Kfouri. 

O Amazonas confirmou 263 casos de sarampo e 1.368 estão em investigação, de janeiro a junho deste ano. Roraima também passa por um surto da doença. As autoridades associam o surto de sarampo à chegada de venezuelanos refugiados na região. 

Kfouri lista outros fatores que podem colaborar com a menor adesão às vacinas: profissionais de saúde que nunca vivenciaram essas doenças, que não viram crianças morrerem ou ficarem com sequelas, cobram menos dos pacientes que eles tomem as vacinas; a falta de vacinas nos postos de saúde, que é comum, faz as pessoas desistirem de voltar ao posto; a crise, que dificulta as pessoas de sair do trabalho para vacinar os seus filhos; e os horários dos postos de saúde, que não funcionam em horários estendidos ou alternativos. 

Movimento contagioso

O Ministério da Saúde não traz detalhes sobre os motivos que estão fazendo as pessoas vacinarem menos os seus filhos. Além dos fatores já mencionados, há indícios de que o movimento de pessoas contra vacinas esteja crescendo no Brasil. Nos Estados Unidos, já é grande o grupo de pessoas que se opõem às vacinas – os chamados “anti-vaxxers”, e algumas cidades já estão vulneráveis a doenças como o sarampo. 

Leia também: Por que a homeopatia, mesmo sem comprovação, ainda tem espaço no Brasil?

As atitudes antivacinas, curiosamente, são encontradas nas classes sociais mais esclarecidas, diz Kfouri. "São os grupos que se opõem à vacinação, que postam relatos nas mídias sociais com modismos e uma tendência de busca de terapias alternativas. E as pessoas acabam colocando as vacinas no mesmo balaio que outras terapias, acreditam que elas podem ser maléficas ao organismo, ignorando todo o histórico de benefícios e a revolução que a vacina fez na saúde da população do mundo". 

Muita desinformação a respeito das vacinas circula nas redes sociais. Alguns argumentos são frequentes nos grupos antivacina, como os seguintes: 

“Vacinas têm substâncias perigosas na sua composição e causam efeitos indesejáveis” 

"As vacinas, como qualquer medicamento, são capazes de produzir reações", afirma Kfouri. No entanto, ele ressalta que a segurança das vacinas é muito mais conhecida, já que elas são usadas praticamente pelo mundo inteiro, há muito tempo. "A experiência e a segurança continuamente acertadas das vacinas são infinitamente superiores à segurança de outros medicamentos, e as pessoas não têm essa percepção". 

O infectologista dá um exemplo; se uma pessoa tem uma infecção respiratória, uma crise de bronquite ou uma cólica renal, vai ao pronto-socorro, e, ao ser atendida pelo médico, receberá analgésicos, antibióticos e outros medicamentos. "Isso acontece todo dia, e ninguém está preocupado se as medicações têm 2 microgramas de mercúrio, ou se algumas delas podem ter efeitos colaterais graves", relata. 

No caso do tratamento de um câncer de colo de útero, que pode ser prevenido com uma vacina contra o vírus HPV, a comparação é ainda mais drástica. "As pessoas não querem tomar duas doses de vacina contra HPV porque acham que vai fazer mal para a saúde, e vão se tratar desse câncer, que poderia ser evitado, com drogas muitas vezes mais tóxicas e com efeitos colaterais muito piores do que as vacinas", conclui. 

Outro fator que também está em jogo é que a resistência a riscos normalmente é maior quando a pessoa está saudável, como quando vai tomar uma vacina, do que quando está doente e precisando de um tratamento. 

“Vacinas causam autismo” 

A associação entre vacinas e autismo surgiu após a publicação de um artigo científico no periódico The Lancet em 1998. No artigo, os pesquisadores associaram a vacina tríplice viral (que protege contra sarampo, rubéola e caxumba) a casos de autismo, e causaram preocupação no mundo todo a respeito da vacina. 

Uma investigação mostrou que o autor da pesquisa, o britânico Andrew Wakefield, tinha conflitos de interesse e manipulou evidências. O artigo foi retirado da literatura científica em 2010, e considerado "profundamente falso" pelo periódico. Wakefield foi considerado culpado de má conduta, e perdeu seu registro de médico no Reino Unido. Mesmo assim, a controvérsia permaneceu, e foi responsável por queda na vacinação e surtos em vários países. 

“Se você vacina o seu filho, por que está preocupado que eu não vacino o meu?” 

Muitas pessoas não podem receber vacinas, ou porque ainda não atingiram a idade certa, ou por outras condições, entre elas, "pessoas que têm imunidade muito baixa, que têm câncer, que estão em quimioterapia, são transplantados, ou portadores do vírus HIV”, relata Kfouri, e explica que existe uma parcela da população que não responde às vacinas, que não são sempre 100% eficazes. 

Essa população se beneficia da chamada "imunidade coletiva", que é quando uma comunidade tem a maior parte da população vacinada, e assim, não há quem transmita a doença para os que não podem ser vacinados. "É a ação da cidadania e o benefício estendido. É mais do que a proteção individual, é a proteção de grupos. A pessoa que acha que só vacina o filho se quiser e não está prejudicando ninguém, está sim prejudicando a sua comunidade", acredita o infectologista. 

Negando as evidências 

Um dos desafios para o combate à desinformação é que mostrar evidências científicas não é o suficiente para muitas pessoas. Essa é uma das conclusões de um estudo com 5 mil pessoas em 24 países que mediu as atitudes antivacinas e outras variáveis psicológicas. “A evidência científica funciona para a maioria das pessoas. A questão é que para quem é antivacina, simplesmente repetir as evidências pode ser uma tarefa em vão”, disse o psicólogo Matthew Hornsey, professor da Universidade de Queensland (Austrália) e um dos autores do estudo. 

A maioria dos estudos que pretendem mudar atitudes antivacinas se concentraram em corrigir informações, ou seja, usar a ciência para refutar mitos sobre as vacinas. “Nós sabemos que isso não é tão eficaz, e que para as pessoas antivacinas mais ferrenhas, isso tende a ter um efeito bumerangue, que as torna ainda mais antivacinas”, explica Hornsey. Para ele, essas estratégias provavelmente falham porque elas ignoram o porquê das atitudes antivacinas das pessoas. “Não é porque elas não ouviram os argumentos pró-vacinação. Elas ouviram, elas não são tolas. Então, apenas repetir os argumentos provavelmente não funcionará”, diz. 

Leia também: Fosfoetanolamina, o “caso que envergonhou a ciência brasileira”

Hornsey cita o exemplo de um estudo que teve certo sucesso ao, em vez de usar informação corretiva, se concentrar em narrativas emotivas descrevendo a experiência de uma criança que contraiu sarampo e quase morreu. “Eu gosto de abordagens desse tipo, que dispensam os argumentos intelectuais e fazem um apelo emocional direto”. 

Uma das principais características em comum entre os que se opõem às vacinas é a disposição delas de acreditar em teorias da conspiração. Os pesquisadores avaliaram o quanto as pessoas acreditavam em quatro teorias da conspiração: “a Princesa Diana foi assassinada”; “os Estados Unidos sabiam sobre os ataques do 11 de Setembro e preferiram deixá-los acontecer”; “um grupo sombrio da elite está tramando para formar uma nova ordem mundial”; e “JFK foi assassinado como parte de uma intrincada conspiração”. 

“De todas as variáveis psicológicas que medimos, por uma grande margem, a que mais prevê as atitudes antivacinas das pessoas é a sua disposição para acreditar nessas quatro teorias da conspiração”, relata Hornsey. O psicólogo explica que algumas pessoas têm uma visão de mundo conspiratória. “Elas acham que é comum que grupos de pessoas com objetivos malévolos se reúnam para executar elaboradas farsas para o público em segredo quase perfeito”, diz. Dessa maneira, quem acredita que o mundo funciona assim, está mais aberto a aceitar as teorias de conspiração, incluindo as que sugerem que as grandes indústrias farmacêuticas estão acobertando os efeitos negativos das vacinas. 

Leia também: Carteira de vacinação se torna obrigatória para matricular alunos em escolas do Paraná

Hornsey diz que a indústria farmacêutica é um alvo popular das teorias de conspiração, e é ela que mais lucra com a vacinação. Isso daria início a um processo de pensamento que tenta ligar os pontos: grandes farmacêuticas produzem e vendem vacinas, então, por definição, existem agendas mal intencionadas em jogo. 

O psicólogo diz que a associação entre a vacina tríplice viral e o autismo é o melhor exemplo desse pensamento.

“Essa associação foi totalmente refutada, e o artigo científico que a relatava foi excluído da literatura científica. Para a maioria de nós, esse é um sinal do processo autocorretor e saudável da ciência, onde os mitos são desmascarados e a verdade surge. Mas, para teoristas da conspiração, isso é facilmente visto como um sinal de que o sistema está quebrado, e que a verdade está sendo encoberta por interesses”, explica.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]