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Segundo maior empregador privado dos Estados Unidos, Amazon vai custear até US$ 4 mil em despesas de viagens para “tratamentos médicos sem risco de vida” de colaboradores, o que inclui abortos
Segundo maior empregador privado dos Estados Unidos, Amazon vai custear até US$ 4 mil em despesas de viagens para “tratamentos médicos sem risco de vida” de colaboradores, o que inclui abortos| Foto: EFE/EPA/JUSTIN LANE

A sinalização de que a Suprema Corte vai derrubar a jurisprudência que legaliza o aborto em todo o território americano acirrou a reação das Big Techs, que temem perder talentos em estados com leis mais restritivas. Na última semana, a Amazon - segundo maior empregador privado dos Estados Unidos — anunciou aos seus colaboradores que vai custear até US$ 4 mil em despesas de viagens para “tratamentos médicos sem risco de vida”, um eufemismo mentiroso que inclui procedimentos como o aborto, no qual invariavelmente pelo menos uma vida é perdida.

A medida faz crescer a lista de empresas que já vinham ajudando funcionários a abortar em outros estados, como resposta a legislações estaduais pró-vida que limitam o acesso. De acordo com a CNN Business, a fabricante de automóveis elétricos Tesla, do bilionário Elon Musk, oferece auxílio semelhante desde o ano passado, quando mudou sua sede para o Texas e o estado proibiu o aborto após seis semanas de gestação. No relatório de impacto de 2021, a empresa informou que custeará viagens e hospedagem "para aqueles que precisam procurar serviços de saúde indisponíveis em seu estado de origem".

Além de Amazon e Tesla, Citigroup, Bumble, Match Group, Salesforce, Yelp, Levi Strauss, Lyft, e Uber estão entre as marcas que oferecem algum tipo de “assistência ampliada” a funcionários residentes em estados com acesso restrito ao aborto, de acordo com a CNN. O portal de notícias Business Insider completa a lista com Apple e Dell.

Reembolso

Segundo informação da agência de notícias Reuters, publicada em 2 de maio, o novo “benefício” da Amazon tem efeito retroativo a 1º de janeiro e se aplica a funcionários que não tenham acesso a aborto em um raio de 161 quilômetros de casa e que estejam impossibilitados de serem atendidos virtualmente.

Os reembolsos valem para colaboradores de escritórios ou depósitos da empresa nos EUA e seus dependentes inscritos nos planos de saúde Premera ou Aetna. Além do aborto, o auxílio cobre “tratamentos não fatais” (ou seja, quando a situação não traz risco para a vida do paciente), envolvendo cardiologia, terapias genéticas celulares e serviços de transtorno de abuso de substâncias. Para doenças em que há risco à vida do colaborador, a Amazon oferece até US$ 10 mil em reembolsos anuais de viagem.

Convicções da Gazeta do Povo: Defesa da vida desde a concepcção

Competitividade feminina?

Por meio de comunicado publicado em seu site, dois dias depois de vir a público a decisão da Amazon, a Levi Strauss, proprietária da marca Levi's, afirmou que funcionários da empresa “são elegíveis para reembolso de despesas de viagem relacionadas à saúde por serviços não disponíveis em seu estado de origem, incluindo aqueles relacionados a assistência à saúde reprodutiva e aborto”. A companhia também prometeu “reembolso de despesas de viagem incorridas nas mesmas circunstâncias” para trabalhadores horistas não inclusos no plano de benefícios.

“O acesso aos cuidados de saúde reprodutiva, incluindo o aborto, tem sido um fator crítico para os ganhos e contribuições das mulheres no local de trabalho nos últimos 50 anos. Restringir ou criminalizar ainda mais o acesso prejudicará esse progresso e afetará desproporcionalmente as mulheres negras, colocando seu bem-estar em risco e impedindo diversos canais de contratação. As mulheres em alguns estados teriam menos direitos do que as mulheres em outros, e nosso país estaria destinado a um futuro mais injusto e desigual”, explica o comunicado.

A justificativa da defesa do aborto como um guardião da competitividade feminina no mercado de trabalho vem sendo exaustuivamente evocada nos últimos anos por corporações de peso, com organizações abortistas na retaguarda.

Em 2019, executivos de 180 grandes empresas americanas escreveram uma carta aos legisladores, publicada em página inteira pelo jornal New York Times, afirmando que restringir o aborto é "ruim para os negócios". Entre os signatários estavam executivos-chefes de empresas como MAC Cosméticos, Endeavor, Postmates, Bloomberg, Tinder e H&M, além de Jack Dorsey, ex-CEO do Twitter, que assinou em nome da outra empresa que administra.

O grupo foi reunido por uma coalizão que inclui a União Americana pelas Liberdades Civis (Aclu, na sigla em inglês), a Planned Parenthood, maior realizadora de abortos nos EUA, e o grupo mais antigo de defesa do aborto no país, o NARAL Pro-Choice America. A campanha recebeu o nome de "Não proíba a igualdade" e lançou um site, convidando outros executivos a assinarem o documento.

Segundo a carta, leis rígidas sobre o aborto são "contra nossos valores" e ameaçam "a saúde, a independência e a estabilidade econômica de nossos funcionários e clientes". Na visão do grupo, impedir legalmente o aborto vai contra esforços corporativos para construir uma mão de obra mais diversificada.

"Já temos leis de licença parental bastante anêmicas neste país para começar, e uma diferença salarial em cima disso", disse o vice-presidente de políticas públicas da Postmates, Vikrum Aiyer, à CNN. Para ele, as restrições ao aborto são "outro corte da igualdade de gênero". Dessa forma, dificultar o acesso ao aborto restingiria a capacidade da mulher de "fazer escolhas econômicas".

Atração de talentos

Uma reportagem publicada pelo jornal Washintgon Post em setembro, no entanto, mostra que a preocupação das empresas com legislações restritivas sobre aborto, apesar do discurso oficial ser a preocupação com os “direitos reprodutivos”, é puramente econômica. Empresas de tecnologia do Texas admitem que esse tipo de lei pode ter repercussões significativas no recrutamento e retenção de talentos, potencializando uma dor de cabeça já comum no setor.

“Já achamos extremamente desafiador atrair trabalhadores de tecnologia”, reconheceu Vivek Bhaskaran, executivo-chefe de uma empresa de software de pesquisa com sede em Austin. Com mais vagas do que talentos na área, estados mais permissivos sobre o aborto teriam vantagem na atração dessa mão de obra.

O Texas faz antever isso. Propagandeado como um paraíso tecnológico nos últimos anos, o estado tem atraído grandes corporações como Tesla, Oracle e Hewlett Packard, além de assistir à ampliação das operações de gigantes como Facebook, Amazon e Apple.

Mas as recentes mudanças na legislação estadual sobre o aborto podem ter impacto direto na migração de trabalhadores progressistas para lá, avaliam especialistas. "Você pode ver uma desaceleração", afirmou Richard Alm, estudioso da economia do Texas, na Escola de Negócios da Universidade Metodista Meridional, em Dallas. “Isso tem potencial para impactar a oferta de mão de obra se os trabalhadores estiverem menos dispostos a se mudar para o Texas”, completou.

“Isso me assusta muito”, opinou Deep Barot, investidor-anjo em empresas de biotecnologia, software e criptomoedas, a respeito da restrição ao aborto no Texas. “Esta é uma lei de aborto, mas o que vem a seguir?”

Por meio do Twitter, o executivo-chefe da Salesforce, Marc Benioff, afirmou estar disposto a transferir seus funcionários, caso quisessem se mudar, sem fornecer mais detalhes. Segundo um funcionário, que pediu anonimato, a empresa comunicou os trabalhadores, por meio de chat interno, que ajudaria a realocar as famílias de quem estivesse preocupado com “acesso a cuidados de saúde reprodutiva em seus estados”.

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