C. S. Lewis fazia ressalvas quanto ao culto ao progresso.
C. S. Lewis fazia ressalvas quanto ao culto ao progresso.| Foto: Pixabay

C.S. Lewis: escritor mundialmente conhecido, filósofo, teólogo. Apologista cristão. Basta mencionar seu nome para que lembremos de imagens de alegorias de fé, de leões, bruxas e armários, das defesas racionais da fé cristã.

Mas e quanto ao papel dele como analista político e opositor dos ideais progressistas?

Não é assim que pensamos em C.S. Lewis quando pensamos em C. S. Lewis.

Ainda que a maioria de nós associemos Lewis à literatura teológica, o homem que nos deu Nárnia também foi um opositor firme dos ideias progressistas-esquerdistas que predominavam no cenário mundial da época dele. A resistência de Lewis ao progressismo europeu era, antes de mais nada, uma reflexão sobre a realidade da natureza do homem e sobre a incapacidade do progressismo de responder pela queda do homem. Ele rejeitava a ideia progressista da bondade inerente do homem, do Estado como ídolo. Lewis descrevia suscintamente o progressismo como “adoração ao Estado”, baseada na ideia da inevitável ascensão do homem ao reino da bondade.

Entrando no palco da fixação dos séculos XVIII e XIX pelo progresso e pela Revolução Social, a incrível obra de Lewis sobre temas contemporâneos dele (morais, espirituais e práticos) é sua coletânea de ensaios intitulada Present Concerns [Preocupações atuais]. Essa obra, desconhecida da maioria dos devotos de Lewis, foi recentemente discutida pelo estudioso Gary Gregg. Mas talvez o melhor trabalho de Lewis sobre o progressismo e a política seja uma obra de ficção — o romance de ficção científica de 1945 intitulado Uma Força Medonha, terceiro e último livro da “Trilogia Cósmica”. Abrangendo vários temas, do casamento ao orgulho, a trama do livro gira em torno de uma organização progressista chamada Instituto Nacional de Experimentos Coordenados (NICE, na sigla em inglês) e de sua determinação em usar a ciência para resolver todos os problemas do homem.

A história começa com a vida extraordinariamente comum e simples dos recém-casados Jane e Mark Studdock, mas aos poucos se transforma numa narrativa provocadora. Mark, sociólogo na Bracton College, logo se percebe pertencente ao “círculo íntimo” do “Elemento Progressista” na faculdade. Ao contrário dos “marginais” e “negacionistas” (isto é, os conservadores), o grupo Elemento Progressista logo começa a formalizar um acordo com a organização progressista nacional, a NICE, que pretende comprar terras da faculdade para construir suas novas instalações.

“A NICE foi o primeiro fruto da fusão entre o Estado e o laboratório, na qual tantas pessoas inteligentes baseiam suas esperanças de um mundo melhor”, escreveu satiricamente Lewis, reforçando as tendências da ciência estatal, comum a tantos governos europeus na época de Lewis. Depois de ser enganado pelo líder do Elemento Progressista, Lorde Feverstone, Mark se vê numa relação de amor e ódio com a NICE. Desesperado por reconhecimento e aceitação, Mark se torna uma pessoa dependente do seu trabalho, ainda que desconheça o caráter ambíguo da sua função.

Em meio aos deveres informais e ao favorecimento duvidoso da liderança da NICE, Mark se resigna a trabalhar com a srta. Hardcastle, chefe da política secreta da NICE. Sua função principal, percebe Mark, é escrever artigos de jornal de qualidade questionável para levar a pauta progressista ao público em geral de uma forma camuflada.

Lewis capta com habilidade a orientação propagandista do progressismo europeu: “Faz toda a diferença como as coisas são ditas”, argumenta Lorde Feverstone. “Por exemplo, se disserem aos sussurros que a NICE quer ter poder para fazer experiências com criminosos, você terá todos os velhinhos do mundo gritando sobre humanismo. Agora, se você chamar isso de reeducação dos desajustados, todos ficarão felizes porque a era brutal da punição vingativa finalmente chegou ao fim”.

Apesar de sua hesitação inicial, Mark começa a escrever propaganda para a NICE, incluindo uma “matéria” que recomenda a demolição do bairro inglês de Cure Hardy, descrevendo-o como velho, dilapidado, sujo, superpopuloso. Por acaso, a NICE precisa de terras para construir suas novas instalações e pretende “se livrar” do bairro para aumentar sua “higiene” e “eficiência”. O trabalho “jornalístico” de Mark continua e ele cobre o envolvimento da NICE num enorme protesto numa localidade próxima, uma crise de mentira criada pela política secreta da NICE a fim de declarar lei marcial na cidade.

Apesar do envolvimento de Mark com a propaganda progressista, este não é o único elemento do progressismo que Lewis inclui no romance.

Ao longo do romance, Lewis claramente ilustra a dependência e a adoração da tecnologia e conhecimento por parte do progressismo, baseada na ideia da tendência positiva constante do homem rumo ao progresso e esclarecimento. De uma forma bastante clara, a NICE busca a mudança a qualquer preço e ao mesmo tempo pressupõe que o distanciamento do passado é uma empreitada digna. O objetivo dela é “a reconstrução científica da raça humana rumo à eficiência cada vez maior”, por meio da devoção ao “Homem Tecnocrata e Objetivo”.

Como os regimes progressistas existentes na Europa e América, a NICE de Lewis tende a considerar a tecnologia e o conhecimento deuses e a depender de tecnocratas e “especialistas” para promover essa adoração da tecnologia. Descrita por Lewis como “cientificismo”, a adoração da tecnologia e do conhecimento pela NICE se manifesta na obsessão da sociedade pelas experiências científicas e pelo recrutamento de “especialistas” convenientes. Essa idolatria da ciência atinge seu auge na submissão da NICE a uma cabeça humana cientificamente reconfigurada. Os membros da NICE passam a considerar a cabeça o “primeiro Deus de verdade” e passam a acatar ordens da máquina biônica.

Lewis, então, alerta para o perigoso do cientificismo no governo, dizendo que, se aceitarmos o cientificismo por completo, “temos também de aceitar totalmente a ideia de que nada além da ciência, e uma ciência mundial, e portanto um controle governamental sem precedentes, é capaz de alimentar e dar cuidados médicos para todos os humanos: nada, em resumo, além de um Estado assistencialista”.

E tudo isso, claro, feito em nome da “bondade”.

Ao longo de toda a sua obra, Lewis faz alusões claras à Torre de Batel e à tentação do homem de se tornar deus e alcançar isso usando o talento e o conhecimento. Como o estudioso da obra de Lewis David K. Naugle diz, o título do livro, “Uma Força Medonha”, é baseado num verso do poema Ane Dialog, escrito em 1555 por Sir David Lyndsay, e no qual Lyndsay condena a maldade humana e o objetivo arrogante do homem na história bíblica de Babel (Gênesis 11). Lewis pega emprestado um verso do poema: “A sombra dessa força medonha, com mais de seis milhas de comprimento”. Na verdade, no prefácio do romance Lewis descreve seu trabalho como uma história que explora o mundo da “maldade” natural do homem, pecado que transborda para as esferas pública, política e educacional. Essa mesma maldade encontrada em Babel, argumenta Lewis, atiça o desejo insaciável do progressismo pelo avanço humano.

E há outras obras nas quais Lewis confronta o progressismo.

Eu seu livro clássico de memórias, Surpreendido pela Alegria, relato de sua conversão ao cristianismo, Lewis cunha astutamente um termo para criticar o que via como “arrogância cronológica” do progressismo. Esse termo descrevia a “aceitação acrítica do clima intelectual de nossa época e a ideia de que nada que saiu de moda merece crédito”. Assim, em vez de conferir valor com base na verdade e confiabilidade, o arrogante cronológico confere valor com base no tempo, prática comum à NICE e aos progressistas ocidentais da época de Lewis. O progressismo, alerta Lewis, defende o progresso apenas porque ele é supostamente um raciocínio avançado. Mas, como Lewis sabiamente observa em Mero Cristianismo: “O progresso significar se aproximar do lugar onde você quer estar. E, se você pegar o caminho errado e seguir adiante, isso não o ajuda em nada. Se você estiver na estrada errada, o progresso significa dar meia-volta e pegar a estrada certa”.

Lewis também fez uma crítica pragmática aos estados progressistas em outras de suas obras.

Em seu ensaio “O problema é possível: escravos voluntários do Estado assistencialista”, de 1958, Lewis alertava profeticamente para a tendência progressista a acabar com a liberdade humana em nome do progresso. Ele dizia que, “quanto toda a nossa vida” passa a interessar ao Estado, tornamo-nos escravos do Estado e não podemos mais questionar a ideologia do Estado. Esses eram os perigos de uma “sociedade cada vez mais planejada” e do governo que age como “a mãe que sabe o que é melhor para você”. Uma forma de corrigir isso, propunha Lewis, era por meio de “uma educação sem o controle do governo”.

C.S. Lewis reuniu vários textos condenando o Estado progressista que se espalhou pela Europa no século XX. Enquanto líderes criminosos como Lenin e Stalin e até líderes socialistas britânicos como Clement Attlee buscavam a perfeição humana por meio do controle estatal, Lewis alertava para os perigos claros do progressismo: não só os direitos políticos e liberdades do homem, mas também a própria percepção de realidade da Humanidade. O grande escritor e apologista cristão produziu uma obra filosófica e política robusta para rebater o progressismo europeu da sua época — um contra-argumento ao qual a Europa deveria ter dado ouvidos e que hoje talvez fosse bom escutarmos.

Benjamin T. Hutchison é médico e cientista político.

© 2020 The Imaginative Conservative. Publicado com permissão. Original em inglês
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