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Direita e esquesta estão dispostas a se unir em defesa dos livros que formam o cânone ocidental e que ideológicos racialistas querem queimar.
Direita e esquesta estão dispostas a se unir em defesa dos livros que formam o cânone ocidental e que ideológicos racialistas querem queimar.| Foto: Pixabay

Os porcos devem estar voando, o inferno deve estar congelando e o leão deve estar deitado com o cordeiro. Porque, numa época em que a divisão entre esquerda e direita se transformou num abismo, personagens diferentes como as apresentadoras progressistas do programa “The View” e representantes do Claremont Institute, de direita, se uniram em seu apoio entusiasmado pela educação clássica.

A apresentadora Joy Behar recentemente disse que “é importante que todos aprendemos sobre os gregos, por exemplo, porque eles basicamente nos deram tudo”. A coapresentadora Sara Haines acredita que os clássicos “devem ser a base da educação universitária”. À direita, Spencer Klavan, apresentador do podcast Young Heretics, argumentou que “todos, seja qual for a raça ou a origem, deveriam ler os clássicos. Eles são sua chance de aprender com os melhores sobre como ser humano”.

O catalisador dessas defesas do cânone ocidental foi um texto que coescrevi com o professor Cornel West sobre a decisão da Howard University de acabar com seu departamento de estudos clássicos. A decisão da universidade, claro, me irritou, talvez porque os poderes que buscam extinguir a tradição ocidental têm ganhado força ultimamente.

Depois que ideólogos racialistas tiraram Homero do currículo de uma escola de Massachusetts, os professores celebraram e um deles chegou a dizer que estava “orgulhoso” da censura. Todo um movimento de professores que agem sob a hashtag #disrupttexts tenta substituir o cânone ocidental por livros mais contemporâneos que seguem o padrão atual da política em constante mutação. Em Princeton, Dan-el Padilla Peralta, um reconhecido historiador sobre o Império Romano, chegou a dizer sobre seu campo de estudo que ele é “meio vampiro, meio canibal”, afirmando: “Espero que esse campo de estudo acabe e acabe o mais rápido possível”.

O fervor piromaníaco e quixotescamente cheio de auto-ódio da turba que defende o cancelamento dos clássicos está totalmente dissociado da cultura popular e da opinião da elite. Não se trata, aqui, da direita proteger os clássicos de ataques da esquerda ou de alguém que, educado numa escola privada ou em casa, se opõe aos que frequentam escolas públicas tradicionais. Os únicos que parecem desejar a morte dos grandes livros são uma elite acadêmica marginal e alunos radicais.

Pessoas com todos os tipos de opinião política, de origem educacional variada, de todas as profissões e de todos os lugares do país amam cânone ocidental. Elas se emocionam pelo heroísmo da “Eneida”, de Virgílio, ficam aterrorizados com o “Inferno” de Dante. Elas se deixaram envolver por movimentos históricos grandiosos em “Guerra e Paz”, de Tolstói, e sofreram as agonias do amor nos volumes épicos de Proust. Elas chegaram ao poder na república romana com os textos de Políbio e no império com as palavras de Lívio. E viram os pilares caírem nas páginas do bispo africano Santo Agostinho e do historiador Edward Gibbon.

Essas não são histórias nem a sabedoria de um único povo em determinada época. São a tradição comum de todas as pessoas que optam por adotá-la. Elas estão acessíveis a todos que querem estudar e lê-las com a mente aberta — e elas podem mudar vidas.

Há alguns anos, quando eu lecionava numa escola pública de Maryland, me pediram para lecionar no período noturno para um grupo de alunos do ensino médio que tinham reprovado em inglês. No primeiro dia, eles reviram os olhinhos enquanto abríamos os velhos livros didáticos de sempre, com passagens fragmentadas, atividades sem sentido e histórias bobas.

Por isso, na noite seguinte eu me livrei do livro didático. Em vez de usá-lo, comprei cópias de coletâneas de contos de Flannery O’Connor e fizemos um acordo: nada de lição de casa, nada de provas, nada de testes e principalmente nada de livros didáticos. Todas as noites, líamos em voz alta, reunidos num círculo, e conversávamos sobre o que tínhamos lido. Ao fazemos isso, eles recuperaram o interesse e ficaram obcecados pelas histórias de O’Connor.

Ao longo de toda a vida, esses alunos receberam uma educação sem substância e tiveram de se submeter a leituras sem sentido, num sistema criado para treinar peças de uma roda dentada, e não para pessoas decentes e dotadas de alma. Eles queriam mais do que treinamento técnico e o chamado “pensamento crítico”. Eles queriam estudar religião e filosofia, moral e ética, amor e guerra, o bem e o mal. Eles não queriam ser adestrados como crianças. Queriam aprender como seres humanos.

O cânone ocidental em si não é capaz de unir nem dar vida a grupos divididos de pessoas. Mas grandes livros sempre inspiraram e formaram as almas capazes de fazer isso. Sempre haverá diferenças políticas e culturais entre nós, mas está cada vez mais claro que nos unimos em torno da ideia de que os textos clássicos precisam orientar nossa educação.

Jeremy Tate é fundador e CEO da Classic Learning Test.

© 2021 National Review. Publicado com permissão. Original em inglês
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