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Fila para receber vacina contra a COVID-19 em Gênova, Itália, 10 de janeiro de 2022
Fila para receber vacina contra a COVID-19 em Gênova, Itália, 10 de janeiro de 2022| Foto: EFE/EPA/LUCA ZENNARO

Em novo estudo, o CDC (Centers for Disease Control - Centros para o Controle de Doenças), um dos órgãos governamentais americanos responsáveis pelo enfrentamento da pandemia, reconhece que a infecção prévia com o coronavírus SARS-CoV-2 confere proteção que atua em sintonia com a imunidade obtida pelas vacinas. A imunização por infecção prévia e a imunização vacinal contribuem para a imunidade de rebanho, um limiar majoritário da população a partir do qual podemos considerar que a doença está vencida.

O estudo, com primeira autoria de Tomás M. León, do Departamento de Saúde Pública da Califórnia, agregou dados de infecção, hospitalização, testagem e imunização de maio a novembro de 2021 nos estados de Nova York e Califórnia, que têm quase 20% da população americana. A população da amostra, de adultos com 18 anos ou mais, foi dividida em quatro grupos:

  • Não-vacinados e ainda não-infectados (sem proteção).
  • Vacinados em duas doses e ainda não-infectados (com proteção vacinal).
  • Não-vacinados e já infectados (com imunidade natural).
  • Vacinados e já infectados (com dupla proteção).

Na comparação com o grupo sem proteção, os que tinham só proteção vacinal tiveram um risco 20 vezes menor de pegar covid, o que demonstra a proteção conferida pela vacina. Este risco foi de sete a dez vezes menor entre os que tinham imunidade natural, e de oito a dez vezes menor entre os vacinados com infecção prévia. Esses resultados se referem ao início de maio, antes de a variante delta ser prevalente.

No fim de junho e em julho, a variante delta tomou conta dos casos e criou um novo cenário que o estudo captura no início de outubro: comparados aos sem proteção, a proteção vacinal reduziu o risco de covid em quatro a seis vezes, a imunidade natural em 15 a 30 vezes, e a dupla proteção em 32 a 20 vezes. Portanto, contra a delta, uma sinergia entre vacina e infecção prévia foi o melhor cenário para os indivíduos.

A expectativa com a variante ômicron é que rompa ambos os tipos de proteção com mais facilidade, mas cause uma doença bem mais leve e comparável à gripe. Como é a variante mais infecciosa do vírus que já surgiu, no entanto, pode ser que ocupe os hospitais, mas em análises preliminares, como na cidade de Londres, não parece que este é o caso.

O CDC demorou?

Em novembro, a diretora do CDC, Rochelle Walensky, foi sabatinada no Senado americano. O senador Bill Cassidy, do Partido Republicano, fez um apelo: “Se não sabemos se a imunidade natural confere proteção contra infecção futura, é porque decidimos não olhar. Pois eu soube que temos uma coorte de pessoas que foram infectadas antes. Por que não fizemos essa pesquisa?” Walensky respondeu que “nossa posição atual depois de analisar 96 estudos nessa questão é que todos que foram infectados antes devem ser vacinados”.

Walensky não é a única a colecionar artigos. O Instituto Brownstone de Pesquisa Social e Econômica, uma ONG fundada em maio de 2021 por acadêmicos e intelectuais críticos das políticas da pandemia, mantém uma lista que já conta com 146 estudos a respeito da imunidade natural. A lista deve ser considerada enviesada, dado o viés do instituto. Para conclusões mais imparciais, cientistas contam com metanálises e revisões de estudos que considerem o estado da arte de um campo de pesquisa como um todo, idealmente sem seleção por preferências políticas.

Ainda assim, a lista do Instituto Brownstone é informativa, ao menos como um vetor contrário ao dominante na grande imprensa, que tendeu a defender as políticas mais autoritárias na pandemia. O último estudo incluído é um pré-prelo de Nabin Shrestha, da Clínica Cleveland em Ohio, com uma amostra de 52 mil pessoas em que nenhum entre 1.359 infectados que não se vacinaram pegaram covid no período considerado. Abaixo dele, um estudo que já passou pela revisão por pares e foi publicado na revista Nature informa que “pacientes que se recuperaram da SARS [gripe asiática] possuem células T de memória de longa duração que reagem contra a proteína N do SARS-CoV[-1] 17 anos após o surto da SARS em 2003; essas células T mostram uma reatividade cruzada robusta à proteína N do SARS-CoV-2”.

É preciso paciência para que os cientistas cheguem a conclusões mais duradouras a respeito da imunidade natural comparada à imunidade da vacina para COVID-19. É uma boa notícia que começam finalmente a fraquejar os argumentos contra a defesa de que os naturalmente imunizados deveriam ser livres para circular ou para recusarem a vacina.

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