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Jazz Jennings é estrela de uma série que promove a ideologia de gênero entre crianças.
Jazz Jennings é estrela de uma série que promove a ideologia de gênero entre crianças.| Foto: Reprodução/ Twitter

Fazer reféns é uma estratégia ousada, mas que às vezes vale a pena. Valeu para Bart, herói de “Banzé no Oeste”, de Mel Brooks – um daqueles clássicos que jamais seriam feitos hoje em dia. E pode muito bem valer a pena para o movimento das crianças trans.

Entre os mais recentes exemplos está um perfil de Jazz Jennings publicado na Variety. Jennings ficou famosa depois de aparecer no programa 20/20 de 2007, como uma criança trans de apenas seis anos. Depois disso, ela conseguiu atenção, elogios, militância e oportunidades de negócio, incluindo a série I Am Jazz, que está prestes a entrar na sétima temporada, depois de dois anos com Jennings ausente para lidar com “burnout, depressão e ansiedade”. Agora Jazz está de volta, mas o tributo que a Variety faz a Jennings e outras crianças trans sem querer revela os perigos da ideologia de gênero e o movimento por ela impulsionado.

O texto apresenta Jazz  e outros ícones trans como salvadores, sob a premissa de que as crianças trans se matarão sem afirmação e tratamentos. O artigo diz que as leis que restringem o acesso de menores à transição “podem ser literalmente uma questão de vida ou morte”. A mãe de Jazz, Jeanette, declara: “Quando converso com um pai que me diz que seu filho não estaria vivo hoje se não fosse por mim, isso faz com que tudo valha a pena. (...) Não há nada mais recompensador do que salvar a vida de uma criança”.

Por outro lado, céticos do movimento trans são acusados de serem preconceituosos assassinos de crianças. Mas não são eles que estão dando às crianças vulneráveis esse roteiro qual a alternativa à transição é a morte. Deveríamos nos espantar com um movimento que estimula jovens perturbados a se deixarem sequestrar – tática que revela algo de pobre na essência da ideologia de gênero. Além disso, suas pressuposições não encontram respaldo nos fatos. Ainda que os transgêneros realmente tentem ou cometam suicídio a taxas elevadas, não está demonstrado que a transição precoce mudaria esse quadro.

Citando Jack Turban, da Faculdade de Medicina de Stanford, por exemplo, a Variety diz que “ser capaz de fazer a transição em segurança, acompanhada por um médico, pode diminuir as taxas de suicídio assustadoramente altas entre os jovens trans”. Esse trecho supostamente se refere a um estudo coescrito por Turban e que descobriu que o uso de bloqueadores de puberdade estava associado a um risco menor de ideação suicida. Mas o estudo “não percebe diferença na probabilidade de se tentar o suicídio ao longo da vida ou no ano anterior ao estudo”. Afinal, a forma como o estudo foi feita limita suas descobertas (os que se matam são incapazes de responder a pesquisas retrospectivas). Por outro lado, é de se esperar que aqueles aos quais se diz que eles deveriam ter pensado em suicídio se lembrarão mais de terem esse tipo de ideação. Independentemente disso, a eficácia da transição como medida de prevenção ao suicídio em crianças com disforia de gênero permanece uma incógnita.

Na verdade, os estudos que os defensores do movimento trans citam tendem a estar cheios de falhas metodológicas que vão desde o baixo índice de respostas a amostras minúsculas, passando pela confiança demasiada na autodescrição. Além disso, estudos mais antigos envolvendo, digamos, suecos adultos (na maioria homens) que foram cuidadosamente examinados antes da transição explicam pouco das consequências da explosão de adolescentes norte-americanos (na maioria meninas) que se submetem à transição.

Isso explica, em parte, por que outros países estão deixando de pressionar crianças a se submeterem à transição. No começo deste ano, o hospital sueco Karolinska anunciou que deixaria de prescrever bloqueadores de puberdade a paciências com disforia de gênero com idade inferior a 18 anos, exceto em pesquisas rigorosamente controladas. Enquanto isso, no Reino Unido o caso Keira Bell pôs fim à prescrição de bloqueadores para crianças com menos de 16 anos. Assim como nos Estados Unidos, esses países testemunharam aumentos exponenciais na quantidade de adolescentes diagnosticados com disforia de gênero e de clínicas dispostas a promover a transição medicamentosa nessas crianças. Ao contrário dos Estados Unidos, esses países estão buscando uma abordagem mais prudente depois de aprenderem algo sobre os danos causados a crianças que se submeteram a hormônios e cirurgias sob a supervisão de adultos temerosos ou cegos pela ideologia.

O caso Keira Bell ilustra os perigos disso. Ela se apressou em se submeter à transição na adolescência. Seu arrependimento se mistura à culpa dos adultos que estavam mais interessados em modificar o corpo dela do que em promover a reconciliação entre ela e seu corpo. “À medida que amadureci”, escreve ela, “percebi que a disforia de gênero era um sintoma da minha tristeza, não sua causa”. Bell e muitos outros que se arrependem da transição são o efeito colateral do sequestro de Jennings e outros ativistas trans, cujas ameaças de suicídio têm tolhido os esforços para que se examine cuidadosamente os pacientes, sobretudo crianças, antes da transição.

O dano causado por esses casos é horrível. Quando a transição tem início na infância, com o uso do protocolo dinamarquês de aplicação de bloqueadores de puberdade e cirurgia, ela esteriliza o paciente e destrói suas funções sexuais. Os efeitos colaterais disso ainda estão sendo descobertos. E ainda assim o tratamento não altera o sexo do paciente, algo que está além da capacidade da medicina. A realidade biológica, e não há uma forma mais amena de dizer isso, é que Jazz Jennings é um jovem que foi castrado e que, por meio do uso de produtos químicos, cirurgia plástica e cosméticos, hoje parece uma mulher.

Não há sinal nenhum de que esse tratamento drástico seja o certo para todas as crianças que se dizem transgêneros. Com o tempo, a maioria das crianças diagnosticadas com disforia de gênero desistirá da ideia e voltará a aceitar seu corpo. Em vez de fazer pressão para que as crianças assumam suas identidades trans, os médicos costumavam pregar paciência no tratamento desses casos (antes raros). A nova combinação de tratamentos baseados apenas na autoafirmação e uma onda de crianças (muitas, ao que parece, influenciadas pelo contágio social e a Internet) se dizendo trans pode ser catastrófica, um desastre médico comparável à moda da lobotomia no século XX. Como todas as adolescentes que hoje recorrem à Planned Parenthood para tomar testosterona se sentirão sobre isso daqui a uma ou duas décadas?

Essas mudanças nos tratamentos foram motivadas pelo ativismo, não pela medicina, e foram impostas pelo medo. Até mesmo progressistas explícitos que apoiam a identidade de gênero são atacados se mencionam os que se arrependem da transição ou se sugerem que é preciso mais cautela antes de promover a transição em crianças. Os ativistas justificam a interrupção do debate citando a ameaça de os reféns se matarem. Se a discussão leva crianças a cometerem suicídio, então essa discussão precisa ser silenciada; se as famílias se colocam como obstáculo à transição, elas precisam ser destruídas.

Tais esforços para se fabricar e manter o consenso da elite pode entrar em colapso repentinamente. Não sabemos o que pode levar a uma mudança no que se refere ao movimento trans, mas a recepção negativa do público a ideias como permitir homens em esportes e espaços femininos é um candidato, assim como a esterilização em massa de crianças por médicos que aderem ao modelo de tratamento baseado apenas na autoafirmação.

Esperamos que as consequências graves da ideologia de gênero provoquem reflexão sobre ela. Muitos que desejam demonstrar compaixão em relação às pessoas diagnosticadas com disforia de gênero relutam em enfrentar os ativistas. Mas a compaixão verdadeira depende da verdade e a verdade é que o movimento trans é essencialmente místico e até mágico, e não médico.

Numa afirmação reveladora, Jennings insiste que ouçamos crianças que se identificam como trans porque “elas estão mais conectadas a seus espíritos e almas do que os adultos”. Isso expressa a crença – manifestada em slogans como “mulheres trans são mulheres” – de que a transição física só adequa o corpo a uma realidade mais elevada e verdadeira. Nesse sentido, as modificações corporais da transição são apenas manifestações externas de verdades íntimas quanto à identidade de gênero acessíveis até as crianças. Por isso importantes grupos LGBT afirmam que é possível haver bebês trans.

Mas os perigos da ideologia de gênero eram visíveis antes mesmo que surgissem crianças trans de 3 anos. O dogma trans denigre nosso corpo físico tratando-o como mero material a ser esculpido de acordo com anseios subjetivos. Ele requer a mudança do mundo exterior, a começar com o corpo e se expandindo pela sociedade, a fim de que ele se adeque a desejos subjetivos. O suicídio, que subjetivamente destrói esse mundo, é a alternativa proposta. Em outros contextos, ameaçar cometer suicídio a fim de manipular os outros é reconhecidamente um ato de violência. Por que encorajar a transição em crianças com base na possibilidade de suicídio deveria ser diferente?

O autossequestro dos ativistas trans revela mais do que eles gostariam. Ele mostra que o transgenderismo é uma compulsão que exige uma transformação impossível do mundo. A resposta misericordiosa dos homens e mulheres de boa vontade deve ser a criação de terapias para mitigar essas paixões autodestrutivas, e não o estímulo delas.

Nathanael Blake é doutorando no Ethics and Public Policy Center.

©2021 National Review. Publicado com permissão. Original em inglês
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