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Como as redes induzem as adolescentes ao OnlyFans

Das redes sociais para o OnlyFans: plataforma adulta tem cooptado adolescentes.
Das redes sociais para o OnlyFans: plataforma adulta tem cooptado adolescentes. (Foto: EFE/EPA/ANDY RAIN)

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“Começou como uma piada e agora está financiando nossas viagens”, lê-se em um vídeo divertido no Instagram que cumpre todos os requisitos premiados pelo algoritmo: música animada e cortes rápidos e alegres. Se você piscar no momento errado, pode perder do que se trata: é propaganda que promove plataformas onde se pode vender fotos e vídeos de pés.
Com a mesma estética que sugere inocência, Anna Malygon, uma influenciadora ucraniana de 22 anos com 2,4 milhões de seguidores no Instagram, grava seus conteúdos.

Neste vídeo, ela simula manter uma conversa com sua versão de dez anos atrás. A criança quer que a adulta conte como a vida correu: “Estudei o curso que eu queria? O papai me comprou o carro? Minha família está a salvo da guerra?”. E acrescenta: “De onde tiramos tanto dinheiro para ter casa própria?”. Diante desta última pergunta, a influenciadora dá de ombros e, sorridente, responde: “Acho que você é pequena demais para saber”. He, he.

Anna Malygon faz upload de vídeos sexuais para o OnlyFans.

A autoexploração sexual normalizada

A mensagem é clara e se repete em muitos vídeos semelhantes, nos quais influenciadoras muito jovens (a maioria das criadoras do OnlyFans tem entre 18 e 24 anos) com uma audiência ainda mais jovem garantem que se explorar sexualmente é o que lhes permite levar uma vida maravilhosa.

A consequência também é cada vez mais evidente: a normalização da autoexploração sexual e a crescente percepção de que a criação deste tipo de conteúdo para consumo de terceiros é uma saída profissional como qualquer outra.

Quase um em cada três jovens na Espanha vê a oferta de conteúdo íntimo como uma forma legítima de gerar renda, segundo o estudo da Save the Children que analisa as novas dinâmicas de exploração sexual na infância.
E isso não acontece por acidente; é o resultado de uma orquestrada “invasão” do feed dos usuários mais jovens nas redes sociais: 62,4% dos meninos e 47,7% das meninas entrevistados no estudo da Save the Children reconhecem que viram links que os redirecionavam para o OnlyFans ou para páginas de “sugar daddies”.

Encontrar publicidade do OnlyFans ou receber convites pessoais para postar conteúdo sexual são fenômenos bastante frequentes nas redes sociais mainstream.

Mais de 70% das meninas não consideravam que a plataforma OnlyFans fosse uma forma de exploração, e quase 40% haviam recebido mensagens de desconhecidos sugerindo que vendessem conteúdo íntimo ou participassem de dinâmicas semelhantes.

“A cultura digital impulsionou um imaginário social que sexualiza cada vez mais a infância e a adolescência. Este ambiente favorece a normalização da autoexposição e do consumo de conteúdo íntimo gerado por meninas e adolescentes, como o que é realizado nestas plataformas e sites”, conclui o relatório.

Outro estudo, para o qual foram entrevistados cerca de 200 adolescentes espanhóis e que foi publicado em 2025 na revista Archives of Sexual Behavior, coincide amplamente com o da Save the Children: uma boa parte dos entrevistados pensa que o OnlyFans é uma forma rápida e legítima de ganhar dinheiro, e a grande maioria indicou ter visto publicidade deste site no TikTok, Instagram ou Telegram. Além disso, tanto meninos quanto meninas relacionavam o sucesso à aparência e popularidade, refletindo mensagens próprias da cultura dos influenciadores que associam a exposição sexual ao empoderamento ou à liberdade financeira.

O que se esconde atrás do “barely legal”

Uma amostra de como funciona essa "ladeira escorregadia" que vai das redes tradicionais ao OnlyFans pode ser vista nos casos de Piper Rockelle e Jacky Dejo. Ambas começaram nas redes como crianças influenciadoras. Seus vídeos promoviam brinquedos, mostravam seu talento criativo nos esportes ou seus planos com amigos.

A retórica que vincula a exibição sexual ao empoderamento, aliada à precariedade econômica, cria um caminho muito perigoso entre publicar conteúdo 'sensual' no TikTok e acabar abrindo um OnlyFans

À medida que elas crescia, a pressão e a hipersexualização nos comentários tornaram-se cada vez mais evidentes. Uma onda de homens sinalizava que pagaria para ver mais. As fotografias que publicavam em suas redes iam subindo de tom gradualmente. Aos 18 anos, elas fizeram o que se conhece como “drop the link” (soltar o link). Ou seja, abriram uma conta no OnlyFans e começaram a postar conteúdo explicitamente sexual, o que no mundo da pornografia é conhecido como “barely legal” (mal atingiu a maioridade), já que as criadoras acabaram de completar 18 anos.

Rockelle faturou 2,9 milhões de dólares em um dia e compartilhou com seus seguidores: “Meu primeiro dia! Grata”. E é assim que, de maneira consciente ou inconsciente, as redes tradicionais podem fomentar uma contagem regressiva para as adolescentes prestes a completar 18 anos. Este limite de idade marca também uma mudança surpreendente em boa parte do discurso público: passa-se de falar em proteger menores para celebrar os “sucessos” de uma mulher adulta empoderada.

Porque a verdade é que, para as criadoras de conteúdo no OnlyFans — 97% mulheres, a maioria de 18 a 24 anos —, com frequência a plataforma foi vendida como uma espécie de sonho americano virtual desde a adolescência.
Em sua entrevista à Rolling Stone, Rockelle descreve sua decisão de abrir uma conta no OnlyFans como algo “inevitável” e que vinha pensando há muito tempo.

O fato é que a demanda por conteúdo “barely legal” faz com que nas redes sociais mais convencionais — Instagram, TikTok, Snapchat —, onde há muita audiência adolescente, se utilize o poder aspiracional dos influenciadores para promover o OnlyFans e captar menores, tanto futuros consumidores quanto futuras criadoras.

Vulnerabilidade, recompensa e dissociação: um aliciamento por várias frentes

Mas, como mostram os casos de Rockelle e Dejo, a hipersexualização nas redes sociais começa muito antes de se ver um vídeo explicitamente publicitário do OnlyFans. Começa com o algoritmo que inunda o feed dos adolescentes com mulheres de estética muito específica e pornificada. Começa com o sistema de recompensa das redes, que viraliza conteúdos onde adolescentes mostram cada vez mais e as premia com mais curtidas e comentários.

“As redes sociais como Instagram, TikTok, etc., onde as mulheres postam fotos de seus corpos, tornam-se espaços de validação social a partir das curtidas recebidas e, portanto, ferramentas do patriarcado para valorizar o atrativo sexual. As redes sociais e certas plataformas tornaram-se assim uma arma valiosa para as jovens, que as usam como um barômetro de sua popularidade e ferramenta de autoestima”, explica o relatório da Federação Mulheres Jovens sobre a plataforma.

“O OnlyFans representa mais um espaço onde seus corpos são reconhecidos pelo olhar masculino como válidos a partir do número de fãs, construindo-se como objetos de desejo neste contexto pornográfico e prostituinte”, aponta o documento.

Andy Burrows, diretor de políticas para a segurança infantil online da NSPCC no Reino Unido, afirma que o comportamento sexualizado nas redes tradicionais desfaz a fronteira entre a cultura dos influenciadores e o OnlyFans.

No final, o algoritmo sussurra para as adolescentes que a vida aspiracional que faz sucesso nas redes (casas de luxo, viagens constantes e um grupo de amigas deslumbrantes) é uma porta que pode ser aberta com uma chave mágica: monetizar o próprio corpo.

Essa promessa de aproveitar o “capital erótico” é especialmente tentadora em um contexto de precariedade: “Para que você vai estudar se dá na mesma estudar ou não, porque a vida é uma merda e você vai acabar trabalhando no McDonald’s? Estão dizendo a elas que o caminho é o capital sexual”, explica no relatório a socióloga Carmen Ruiz Repullo.

Na Espanha, 30% dos jovens acreditam que se ganha muito dinheiro no OnlyFans. Um mito falso que ignora que 1% dos criadores mais populares leva um terço de todo o dinheiro da plataforma, mas que leva muitas meninas a tentarem a sorte em um ecossistema onde o preço a pagar pode não ser evidente no início.

Por exemplo, quem vende fotos de seus pés no Snapchat pode não perceber, mas já assumiu uma dissociação entre seu corpo e sua pessoa. Uma utopia cujo espelhismo se mantém apenas pela virtualidade: as adolescentes acabam acreditando que aquelas fotos que comercializam não são elas. Uma vez assimilado isso, dar o salto para o OnlyFans é mais simples.

E em todo este fenômeno, as mais afetadas são sempre as mais vulneráveis. O relatório adverte sobre o aumento de menores de idade sob tutela do sistema de proteção e “residentes em centros de acolhimento que estão usando o OnlyFans para vender conteúdo sexualmente explícito em troca de dinheiro”. Algo que, naturalmente, as torna presas fáceis para redes de aliciamento e tráfico.

Elas, empoderadas; eles, seus agentes


O OnlyFans precisa de criadoras de conteúdo, mas também de consumidores. Assim, a publicidade chega tanto a meninos quanto a meninas, mas com um discurso diferente.

Para elas, promessas de autonomia, empoderamento e muito dinheiro. Para eles, a possibilidade de se tornarem agentes, dirigir um exército de modelos do OnlyFans e lucrar com isso.

Assim, elas não são mais prostitutas, mas criadoras. E eles não são clientes ou cafetões, mas empresários.

Em diversas plataformas, como podcasts ou YouTube, elas explicam como trabalhar no OnlyFans lhes permite conciliar a vida pessoal, viajar, ser sua própria chefe e não se preocupar com dinheiro ou horários. Eles oferecem conselhos sobre como fazer crescer a agência de OnlyFans e aumentar os rendimentos.

Não há uma palavra sobre como se troca as exigências de um chefe tradicional pelas de uma audiência de homens que vão aumentando a aposta sobre o próprio corpo. Não se explica que um trabalho você pode deixar, mas que a pegada digital do OnlyFans não desaparece. Não se adverte sobre a pressão física e emocional de se submeter a este tipo de conteúdo.

“Respondemos ao que o sistema quer, e muitas vezes o que deve ser observado é se você é dona da sua própria rede social ou se a rede social se apossa de você. Ela se apossa de você dizendo o que tem que postar, o que tem que fazer, o que tem que comentar”, observa Carmen Ruiz Repullo.

O mito da livre escolha

“O mais importante é identificar bem o sistema de crenças que define positivamente para as meninas o ato de entrar para se vender e/ou se exibir, e para os meninos o de nunca entrar para se vender ou exibir, salvo em casos excepcionais. Como sempre, encontramos a dupla verdade, e que há definições positivas para fazer uma coisa para as meninas e outras para os meninos”, explica no relatório a filósofa Ana de Miguel, autora de Neoliberalismo sexual: o mito da livre escolha.

Durante uma conferência em Londres em 2022, Lulu, uma estudante universitária de 20 anos, fez um discurso para alertar, com base em sua própria experiência, contra “o aliciamento e o processo de manipulação de mulheres jovens e estudantes universitárias para a indústria sexual em suas formas mais recentes, especificamente plataformas como OnlyFans e o chamado ‘sugar dating’”.

A jovem destacou que, em 2020, cerca de 4% dos estudantes universitários recorreram a alguma forma de “trabalho sexual” para complementar a renda, o dobro de 2017. Nas redes sociais, a hashtag #sugarbaby acumula mais de um bilhão de visualizações no TikTok, mostrando estilos de vida luxuosos financiados por “sugar daddies”, embora raramente essas relações sejam apenas virtuais. Além disso, a normalização dessas plataformas na cultura popular — como ocorreu após a menção ao OnlyFans no remix de “Savage”, da Beyoncé — provocou picos significativos de tráfego, evidenciando a influência midiática.

“Na minha opinião”, explicava Lulu, “até que o aliciamento e o processo de manipulação de meninas e mulheres jovens para a pornografia e a prostituição não sejam considerados como um processo de erosão da autoestima e dos limites pessoais através da socialização feminina, não seremos capazes de abordar o problema”.

©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: La cuenta atrás hacia los 18: cómo las redes empujan a las adolescentes hacia OnlyFans.

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