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Documento da CIA diz que Geisel autorizou execuções na ditadura

“O documento mais perturbador que já li em 20 anos de pesquisa”, disse Matias Spektor, professor de Relações Internacionais na FGV

  • Paulo Polzonoff, especial para a Gazeta do Povo, com Folhapress
Ernesto Geisel cumprimenta Alfredo Stroessner em maio de 1974 | R. E. Adorno
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Ernesto Geisel cumprimenta Alfredo Stroessner em maio de 1974 R. E. Adorno REUTERS
 
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Um documento secreto de 1974 liberado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos afirma que o ex-presidente Ernesto Geisel (1974-1979) aprovou a continuidade de uma política de “execuções sumárias” de adversários da ditadura militar. 

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Ele teria ainda orientado o então chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações) que viria a substituí-lo na Presidência, João Baptista Figueiredo (1979-1985), a autorizar pessoalmente os assassinatos.

O documento foi tornado público, com exceção de dois parágrafos ainda tarjados, em 2015 pelo governo dos EUA e nesta quinta-feira (10) postado em redes sociais por Matias Spektor, professor de relações internacionais na FGV (Fundação Getulio Vargas). O professor qualificou o papel como "o documento mais perturbador que já leu em 20 anos de pesquisa".

No documento, um memorando do então diretor da CIA W. E. Colby para o Secretário de Estado dos Estados Unidos Henry Kissinger, o informante relata uma reunião ocorrida em 30 de março de 1974 entre o recém-eleito presidente Geisel e os generais Milton Tavares de Souza e Confúcio Danton de Paula Avelino, ambos do Centro de Inteligência do Exército (CIE). À reunião, também estava presente o futuro presidente João Baptista Figueiredo, último presidente militar do Brasil e na época chefe do temido Serviço Nacional de Inteligência. 

Durante o encontro, o general Milton resumiu as ações do CIE contra “alvos subversivos” ao longo dos anos Médici. E disse, de acordo com o informante da CIA presente à reunião, que métodos extralegais deveriam “continuar a ser empregados”. 

O presidente Geisel, então, dizendo que execuções sumárias eram potencialmente prejudiciais ao regime, pediu um tempo para pensar. Em 1º. de abril do mesmo ano, Geisel se reuniu novamente com Figueiredo e determinou que as tais “ações extralegais” continuassem, com uma ressalva: Figueiredo deveria se certificar pessoalmente de que apenas elementos “subversivos perigosos” fossem executados. Os dois concordaram que, quando um subversivo perigoso fosse preso, o próprio Figueiredo deveria aprovar a execução sumária. 

São dois parágrafos, num total de 19,5 linhas. 

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Discrepância 

A Comissão da Verdade foi criada em 18 de novembro de 2011, no governo Dilma Rousseff. Instalada em 2012, a comissão realizou 1121 entrevistas e 80 audiências públicas em 20 estados da Federação para concluir que a Ditadura Militar no Brasil executou 191 pessoas, 180 durante o regime ditatorial e 11 antes do Golpe de 1964. 

O memorando descoberto por Spektor sugere que este número pode estar errado. No terceiro parágrafo, ao resumir durante a reunião as “ações extralegais” contra os inimigos do regime, o general Milton falou em 104 pessoas executadas “no último ano, mais ou menos”. 

O número é bem diferente do apresentado no relatório final da Comissão da Verdade. De acordo com este documento, resultado de dois anos e sete meses de trabalho da comissão, o número de mortos em 1973 foi de 15 pessoas, com 53 desaparecidos. Em 1974, ano do memorando, este número caiu para dois mortos e 53 desaparecidos. 

Mesmo se computarmos os desaparecidos como mortos, a diferença entre o número apontado pela Comissão da Verdade é de 36 pessoas. 

Até a conclusão deste texto, nenhum ex-membro da Comissão da Verdade foi localizado para comentar a diferença nos números.

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