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Morgan Freeman e Tim Robbins em cena do filme "Um Sonho de Liberdade"
Morgan Freeman e Tim Robbins em cena do filme “Um Sonho de Liberdade”| Foto: Divulgação

Ano passado – com menos de 10 milhões de espectadores – o Oscar teve a menor audiência da história. À consideração de que já houve mais de 57 milhões — é oportuno relembrar as antigas cerimônias quando os prêmios eram notáveis. Em 1995, “Um Sonho de Liberdade” foi indicado a sete Oscars.

Narrativamente, o protagonista é condenado pelo assassinato de sua esposa. Andy é inocente, mas a sentença é de prisão perpétua. Será que a indicação ao Oscar ainda existiria hoje? Poderíamos dizer que sim especialmente se o personagem convertesse a injustiça sofrida em lágrimas de vitimização, maledicência ao sistema, denúncia dos oprimidos. A propensão política encanta os críticos, vide a indicação de “Não Olhe Para Cima”. Mas naquele ano havia ainda vestígios do antifrágil — o que se beneficia com o caos — de que fala o escritor Nassim Taleb; em vez de lágrimas, Andy mostra fortaleza. Ele ensina que a liberdade mora na constância das emoções e a segurança reside na conquista da personalidade.

Analiticamente, o tema central do filme, que poderia ser a opressão contra o inocente, antes é o dilema de permanecer íntegro mesmo quando as circunstâncias induzem à sua destruição. As cenas delineiam a prisão literal, mas estas podem ser expandidas às prisões mentais. Aquelas que escravizam a personalidade humana: a desesperança, a cólera, a insensatez, a compulsão. Cada uma tira o domínio da consciência de si e afunda o espírito nas utopias dos ideólogos ou no desalento dos céticos.

Enquanto nas circunstâncias adversas poucos conseguem amar a vida como ela é. Pelo contrário, muitos seguram as suas cruzes e bradam aos Céus diante dos triunfos, porém atuam como Jó em face dos destroços. Esquecem-se de que o homem não é produto do meio; este influencia, não determina. A vida, como diz Ortega y Gasset, é “um processo que vai de dentro para fora, em que invadimos o entorno com atos, obras, costumes, maneiras, produções segundo estilo originário que está previsto em nossa sensibilidade.”

As cenas delineiam a prisão literal, mas estas podem ser expandidas às prisões mentais. Aquelas que escravizam a personalidade humana: a desesperança, a cólera, a insensatez, a compulsão.

Assim, a disposição a que deveríamos pender é bem traduzida pela expressão latina amor fati: amor ao fado. Trata-se da aceitação integral do destino humano, mesmo em seus aspectos mais hediondos, sendo esta a fórmula para a grandeza do homem. Os filósofos estoicos e Nietzsche a traduzem assim: “Não querer nada de diferente do que é, nem no futuro, nem no passado, nem por toda a eternidade. Não só suportar o que é necessário, mas amá-lo.” Ela está longe, portanto, do vulgar “fique zen”; compreende a necessidade da ação, mas apenas no que está em nosso poder.

Andy encarna este princípio ativo, em oposição a outro prisioneiro, que clama a sua liberdade, alegando a sua inocência; no entanto, “chora como uma garotinha”, e é morto pelos carcerários. O seu assassinato é símbolo de que o mundo jamais se compadece dos fracos, senão que os ataca a fim de angariar poder. Nos versos de Gonçalves Dias: “A vida é luta renhida, que aos fracos abate…” Nas palavras de Jordan Peterson: “Os vitimistas não sabem viver.” Já Andy tem sabedoria, nunca cede às circunstâncias.

A representação mais sublime dessa valentia é delineada pela cena em que um grupo de presidiários vai estuprá-lo. Os malvadões pedem a Andy que se entregue, sob o argumento de que seria impossível a vitória de apenas um contra muitos, mas a vítima continua a lutar. A lição é de que, mesmo quando pressentimos a derrota numa batalha, não devemos perder a dignidade na vida. Em sua conflagração, mais do que a vitória, importa a iniciativa.

O mundo jamais se compadece dos fracos, senão que os ataca a fim de angariar poder

O espírito de Andy é tão ativo que mostra vigor até ao diretor da prisão; dá-lhe conselhos eficazes, levanta as finanças dos policiais, conquista a simpatia dos demais. Assim, passa a ser protegido dos abusadores, consegue um cargo na biblioteca e transfigura o universo da penitenciária.

É uma mostra de que o personagem tem inteligência dupla: discursiva e prática. Esta Aristóteles chama de prudência, a mais esquecida pelos intelectuais pós-modernos, e a mais necessária para a vida. Não é verdade que muitos estudiosos contemporâneos usam os seus dons como negação da realidade cotidiana? Eles leem livros belos e não suportam a realidade às vezes dura, então fingem estar acima do mundo; mas estão abaixo. “Entender”, no entanto, afirma Jordan Peterson, “é lidar e enfrentar; não apenas representar objetivamente.” Portanto, enquanto acreditam estar se elevando à beatitude do conhecimento, eles estão cultivando – com a sua fuga – apenas um coeficiente de alienação.

Já a vida cotidiana, sempre modesta e às vezes infame, deveria ser valiosa pelo simples fato de acontecer. A boa disposição significa jamais negar a realidade em nome de ideias, senão fazer o que diz Novalis: “Dar ao comum um sentido elevado, ao costumeiro um aspecto misterioso, ao conhecido a dignidade do desconhecido, ao finito um brilho infinito.”

Andy aprende a cultivar esta disposição dentro da prisão. O seu exemplo, recente no cinema glorioso, mostra que a liberdade não é uma qualidade concedida pelo mundo, mas conquistada pela personalidade. Esta deve ser forte e traduzir a seguinte realidade: “Quem tem vida interior não é escravo dos arredores.”

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