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Dono de uma inteligência privilegiada e uma pena elegante e violenta, Gustavo Corção era contra tudo o que cheirasse a progressismo.
Dono de uma inteligência privilegiada e uma pena elegante e violenta, Gustavo Corção era contra tudo o que cheirasse a progressismo.| Foto: Reprodução

O fenômeno intelectual mais relevante dos últimos anos no país talvez tenha sido a retomada da influência das ideias conservadoras, que haviam praticamente desaparecido do debate público por três décadas. Mas, antes desse hiato, havia pensadores de direita proeminentes na arena intelectual. Gustavo Corção foi um dos mais relevantes – e controversos – deles.

Embora possa ser classificado como conservador, Gustavo Corção não costumava usar o rótulo para definir a si próprio. Ele foi sobretudo um escritor católico. Era sob a lente da Igreja e suas tradições que ele interpretava os acontecimentos políticos e culturais do país.

Gustavo Corção sempre teve uma inteligência privilegiada e irrequieta. O fato de ter sido criado literalmente dentro de um colégio (uma pequena escola criada pela mãe e onde a família Corção morava) certamente o ajudou em sua formação intelectual. Ele estudou engenharia por três anos na atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, cidade onde nasceu, mas abandonou o curso para trabalhar em uma empresa de topografia. Depois, sempre no campo da engenharia, construiria uma carreira bem-sucedida, até chegar ao posto de professor do atual Instituto Militar de Engenharia.

Só com a morte de sua primeira mulher, Diva, em 1936, é que Gustavo Corção passaria a se voltar para a Igreja Católica, depois de um flerte com as ideias comunistas. Em 1944, ele lançou o seu primeiro livro, 'A descoberta do outro', que trazia um relato de seu processo de conversão. No mesmo ano, ele seria convidado a colaborar com o Diário de Notícias, então um dos principais jornais do país. Dali surgiria uma profícua carreira, que inclui colaborações para a Gazeta do Povo na década de 1960.

Crítica dos movimentos progressistas

Um tradicionalista crítico dos movimentos progressistas na Igreja e das ideias socialistas em geral, Corção testemunhou, nos anos 1960, um mundo em rápida transformação. O Concílio Vaticano II praticamente aboliu a missa em latim e modernizou, não sem algumas cicatrizes, a Igreja Católica. Movimentos radicais de esquerda ganharam espaço e ameaçaram a estabilidade política do Brasil pré-1964. A revolução sexual provocou uma mudança profunda nos costumes e a cultura clássica foi rapidamente substituída por inovações como o rock’n’roll. Na Europa, jovens incendiários iriam às ruas em protestos sem pauta definida.

É possível compreender melhor a mente do escritor por meio de um dos 14 livros que trazem o nome do escritor: 'A Tempo e Contratempo', que reúne artigos publicados no ano de 1968. Naquele período, não faltavam temas nos quais Corção podia exercitar sua verve ao mesmo tempo elegante e agressiva. E, passados mais de 40 anos, é possível atestar que parte de suas posições sobreviveu ao teste do tempo.

“Não consigo, sinceramente, descobrir nenhum predicado que convenha a todos os jovens, a não ser a própria juventude (...). Lembro-me por exemplo dos moços da extinta UNE, ou entidade máxima estudantil: quase todos os dirigentes que conheci eram canalhas e demonstraram uma virtuosidade capaz de causar inveja a um velho crápula aposentado", escreveu ele, em um artigo crítico à celebração da juventude.

Corção não poupava as autoridades da Igreja Católica no Brasil, muitas das quais vinham se aproximando de movimentos à esquerda. "O movimento modernista que aflige a Igreja e perde as almas se compõe, como é regra nestes casos, de uma pequena parte de perversos e uma multidão de idiotas. Seja como for, o resultado bruto é uma monstruosidade que me leva a clamar, a gritar, aos ouvidos dos bispos do Brasil", escreveu.

Corção também protestava contra o que se transformaria em um dos principais pontos de fricção entre progressistas e conservadores: a educação sexual para crianças nas escolas. “Há colégios religiosos em que as madres, que ainda anteontem se confessavam tremendo quando viam um mosquito nu no banheiro, mostram bondosamente, a meninas de seis anos, com figuras e bonecos plásticos, como é que fazem o papai e a mamãe. Há neste fenômeno um aspecto que me intriga profundamente. Os comunistas conseguiram animalizar o pobre povo russo, a ponto de usarem alegremente latrinas coletivas e em anfiteatro. Mas nunca tiveram a ideia de ensinar a função sexual a meninas de cinco e seis anos: esta tarefa estava reservada aos progressistas que ainda se dizem católicos, para nossa infinita vergonha", criticou, em 1968.

Nas páginas de O Globo, onde foi colunista nos anos finais de sua vida, Corção manteve a intensidade com que se envolvia em controvérsias. Em um de seus artigos, ele articulou uma crítica aos defensores dos direitos humanos. “Todo esse movimento de 'direitos humanos' erguido contra os governos do Brasil, desde 1964, mal disfarça o objetivo principalmente visado: o de levar aos homens comuns, que acaso ainda rejeitem o comunismo, a ideia de que esta rejeição é uma intolerância retrógrada e incompatível com todas as distensões e aberturas do mundo moderno".

Em outra coluna no jornal carioca, ele argumentou que o comunismo é mais perigoso do que o nazismo. "Hitler era, no fundo, mais inofensivo que os comunistas. Ele só matou 6 milhões de judeus. Os comunistas mataram 80 milhões de russos", comparou.

Intransigência e amizades

A fama de intransigente não impediu que Corção se tornasse amigo de algumas figuras proeminentes de seu tempo, como os escritores Ariano Suassuna, Raquel de Queiroz e Manuel Bandeira. Bandeira, aliás, classificou o livro O Desconcerto do Mundo como “um dos livros mais belos e mais fortes de nossas letras”. Nelson Rodrigues também publicou elogios a Corção: definiu-o como “uma das inteligências mais sérias do Brasil”.

Ao morrer, em 1978, Corção preparava um livro sobre o legado de São Tomás de Aquino. Dois anos antes, havia sido ameaçado de excomunhão por suas críticas duras a algumas posições da Igreja sob o Papa Paulo VI.

Desde 1964 até sua morte, Gustavo Corção apoiou o regime militar, que, em certos momentos, criticou por ser tolerante demais com a esquerda e ansioso demais por retomar a legalidade. “Ele defendeu posições cada vez mais duras contra aqueles que considerava comunistas. Suas críticas a Alceu Amoroso Lima, a Sobral Pinto e a Carlos Lacerda o afastaram, inclusive, desses aliados ideológicos na segunda metade da década de 1960 e primeiros anos de 1970”, diz Christiane Jalles de Paula, professora da Universidade Federal de Juiz de Fora e autora de uma tese de doutorado sobre a obra do escritor. “Os últimos anos de Corção foram marcados por um antiliberalismo radical”, complementa ela.

A ligação intensa com o regime militar talvez ajude a explicar por que a obra do escritor perdeu popularidade no período pós-redemocratização, mesmo entre grupos mais à direita.

Conteúdo editado por:Paulo Polzonoff Junior
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