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As elites progressistas estão exigindo aprovação do público para a ideologia profundamente subversiva e niilista da teoria queer
As elites progressistas estão exigindo aprovação do público para a ideologia profundamente subversiva e niilista da teoria queer| Foto: BigStock

O governo Biden anunciou uma série de políticas em apoio a americanos “transgêneros, não-binários e expansivos em gênero de outros tipos”. Entre essas políticas, agora os americanos poderão ter “X” como o gênero listado em seus passaportes — um benefício para aqueles não que se autoidentificam como homens nem mulheres.

Mais de 20 estados e o Distrito de Colúmbia já implementaram medidas similares para documentos emitidos pelo Estado. Em 2019, a Comissão de Direitos Humanos da cidade de Nova York publicou uma diretriz legal que exige que empregadores, proprietários de imóveis e fornecedores de acomodações públicas usem o nome e os pronomes de preferência de cada pessoa, não importa o sexo “atribuído” àquela pessoa ao nascer. Isso inclui não apenas “ela” para homens que se identificam como mulheres e “eles” para mulheres que se identificam como homens, mas também títulos honoríficos como “srx.” [o “neutro” de senhor ou senhora] e pronomes individuais inventados como “elu” e “ile”. [N. do T.: aqui, tive de adaptar para o vocabulário do movimento análogo da linguagem neutra em português. No inglês querem usar o plural “they” (eles) para pessoas individuais, e os pronomes inventados são outros como “ze” e “hir”.]

De acordo com o Instituto Williams, 1,2 milhões de adultos nos Estados Unidos se autoidentificam como não-binários. Para americanos menores de 18 anos o número provavelmente é bem maior, considerando os dados recém-publicados que mostram que mais de 20% da geração Z (nascidos depois de 1997) se identificam como LGBT, comparados a 10% dos millenials e 4% da geração X.

Os progressistas tendem a crer que esse aumento repentino nos números reflete uma sociedade mais receptiva a pessoas “nascidas assim”, mas uma explicação mais plausível é que os jovens estão respondendo a novas sugestões e incentivos sociais. Os adolescentes agora ouvem com frequência que ser “cisgênero” (identificar-se como homem ou mulher como o previsto pelas características reprodutivas do organismo) significa se conformar a expectativas sociais, enquanto que se identificar como qualquer outra coisa significa inconformidade, autenticidade e coragem. Dada essa mensagem — e o fato de que, diferente da homossexualidade, que implica sentimentos e comportamentos sexuais, basta se declarar não-binário para ser não-binário — é de se admirar que apenas 20% dos jovens se considerem parte da coalizão do alfabeto. De qualquer forma, as ações do governo Biden acrescentam mais confusão a uma conversa já marcada pelo pensamento raso e por pesquisa interpretada de forma péssima.

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Comecemos com esse fato: o que faz a maioria das pessoas transgêneros serem transgêneros é precisamente o fato de que elas se conformam às convenções de gênero — embora sejam aquelas do sexo oposto. O Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM) lista a conformidade a “estereótipos” como um critério relevante para diagnosticar a disforia de gênero na infância. Tribunais federais decidiram que meninos transgêneros são de fato meninos, e, portanto, merecem usar o vestiário masculino na escola porque se parecem com meninos típicos e se comportam como eles. Se o gênero é uma “identidade” completamente independente das características reprodutivas (entre as quais só pode haver dois conjuntos complementares), então não há razão lógica para haver somente duas identidades de gênero. De fato, haveria tantas identidades de gênero quanto há pessoas, já que o modo de cada pessoa expressar o gênero é singular e insubstituível. Como concedeu um juiz federal em um momento de franqueza, os banheiros separados por “identidade de gênero” masculina e feminina não se baseiam menos em estereótipos do que a prática convencional.

Isso apresenta um problema para a noção de identidade de gênero usada por educadores da diversidade, burocratas acadêmicos, juízes federais, grupos de ativismo LGBT e progressista convencionais, e líderes do Partido Democrata: que o gênero é um aspecto central, imutável e socialmente valioso da pessoa humana. De acordo com a estrela acadêmica e decana da teoria queer Judith Butler, o gênero não é uma propriedade inata, mas um sistema de opressão social que ganha legibilidade através de “performance” repetitiva. A “identidade de gênero” é uma “ficção regulatória”, escreve Butler. Uma garota que busca hormônios e cirurgias para fazer com que seu corpo se conforme às expectativas sociais a respeito do sexo masculino não está sendo uma corajosa inconformista, em vez disso está “sendo subserviente à norma da faca”. Talvez ela seja ainda mais conformista que seus colegas “cisgêneros”, dada a dor que ela está disposta a aguentar para “passar” dentro do “binário de gênero” tradicional. Feministas e defensores de direitos dos gays ecoaram esse tipo de argumento.

Quando o governo Biden afirma o seu apoio às pessoas “transgêneros, não-binárias e com não-conformidade de gênero”, demonstra que é ignorante a respeito dessa tensão. Como explica Rogers Brubaker, sociólogo da Universidade da Califórnia em Los Angeles, em um livro de 2016 simpático à transexualidade, a categoria “transgênero” pode significar um movimento entre categorias supostamente fixas e essenciais de gênero ou um movimento para além do gênero. Esses conceitos não são apenas distintos, mas contraditórios. Acadêmicos da transexualidade reconhecem as “tensões filosóficas” entre o “guarda-chuva transgênero” mais amplo, com a alegação de que a linguagem do movimento e seus conceitos subjacentes ainda estão “evoluindo” e sempre estarão.

Os pós-modernistas podem gostar de incoerência e de se contradizerem, mas devemos esperar coisa melhor dos nossos representantes eleitos e autoridades. Imagine se o governo Biden tivesse dito que está totalmente comprometido tanto com a promoção agressiva quanto com a eliminação completa da religião na vida pública, tudo em nome da “diversidade de fé”. A nossa resposta coletiva seria a confusão.

A teoria queer, lar intelectual dos não-binários, defende que o gênero é um sistema social opressivo que ganha sua força nos iludindo a acreditar que ele vem da natureza e que pode ser conhecido pela ciência objetiva. Se, contudo, concebermos o gênero e suas categorias como “performances” — coisas que só existem por causa de comportamentos dependentes da cultura e, portanto, arbitrários —, então a resistência ao gênero torna-se possível. Ser desamarrado, autêntico e livre é performar o gênero de formas que driblam as expectativas sociais e ofendem as sensibilidades convencionais. Segue-se disso que a maioria das pessoas transgêneros, se são do masculino para o feminino ou do feminino para o masculino, estão na mesma categoria detestável de conformistas em que está o resto de nós: só a vanguarda não-binária vê o gênero como ele realmente é.

Se usar “elu/ile” parece absurdo e até desconfortável, este é o objetivo exato da coisa. O status queer começa a parecer uma postura consciente e deliberadamente antissocial. Dessa forma, quando uma garota adolescente ou uma jovem mulher — o grupo demográfico que parece responsável pela maior parte da autoidentificação não-binária — declara que seus pronomes são “elu/delu” ou “ile/dile”, o que ela realmente está pedindo é que digamos “eu reconheço que você é uma inconformista corajosa e que eu sou não-iluminado demais ou fraco demais para fazer resistência ao sistema de gênero”. (Maia Kobabe, a autora não-binária do livro controverso Gender Queer, usa os pronomes “e/em/eir” [N. do T.: isso é intraduzível, consiste em tirar a primeira letra dos pronomes “he” (ele) e “she” (ela) do inglês]; em sua cobertura da polêmica nacional envolvendo a adoção do livro em bibliotecas escolares, nem o New York Times nem o Washington Post se deram ao trabalho de usar os “pronomes preferidos” de Kobabe nem uma vez.)

O governo Biden agora está fazendo pressão para que os americanos sejam obrigados — se não diretamente pelo governo, então indiretamente por empregadores, distritos escolares e organizações que são legalmente avessas a riscos ou atraídas por verbas federais — a fazer confissões autodepreciativas de inautenticidade. O exemplo mais importante disso é a intenção do governo de ressuscitar diretrizes da era Obama sob o Estatuto IX [Title IX, legislação de igualdade de gênero]. Através de um raciocínio legal convoluto, essas diretrizes instruíam as escolas a evitar a aceitação do “estereótipo” de que o sexo é um binário biológico. O governo Biden tem interesse de manter uma vagueza estratégica a respeito do que exatamente as escolas devem fazer para obedecer ao Estatuto IX: instruídos a manter ambientes “seguros e acolhedores” livres de “discriminação” e “assédio”, distritos escolares com aversão a riscos preferirão errar do lado da cautela e adotarão políticas que superam em muito o que o Departamento da Educação gostaria de fazer impunemente. Talvez em antecipação aos novos-velhos regulamentos, os distritos escolares país afora já estão implementando a educação em não-binariedade e “neopronomes” na primeira infância.

Como a maior parte da elite progressista, o governo Biden passou a pensar nessas questões através da lente da cultura terapêutica em vez da teoria queer. De acordo com o etos terapêutico, todas as formas de “identidade de gênero” não convencionais são expressões de um ego profundo, emotivo e saudável. O papel das instituições sociais — na verdade, a condição para que elas sejam justas e dignas do respeito dos cidadãos — é facilitar a autoexpressão “autêntica” do ego. A repressão (isto é, o autocontrole) significa injustiça. Somos convidados a aceitar essas ideias e atitudes não porque são verdadeiras, mas porque se deixarmos de fazê-lo levaremos as crianças a querer o suicídio. A verdade é assim subordinada à terapia, e o pensamento crítico à compaixão desancorada da razão.

Mas na prática as elites progressistas estão exigindo aprovação do público para a ideologia profundamente subversiva e niilista da teoria queer. Devemos tratar as exigências em torno de “pronomes preferidos”, quando se afastam das convenções da língua inglesa (sem falar da ciência e do senso comum), de forma idêntica à que tratamos as profissões públicas de fé religiosa. Se uma facção de cristãos zelosos começasse a fazer lobby junto ao governo para exigir que todos os americanos se apresentem com “eu aceito Jesus Cristo como meu Senhor e Salvador”, a esquerda progressista ficaria possessa, com razão. Se a seita cristã em questão reclamasse que a recusa a aderir à sua exigência aumentaria a depressão e os suicídios entre os seus membros, a resposta apropriada seria que algo mais deve estar perturbando a essas almas infelizes além da recusa do público de “afirmar” as crenças religiosas delas. O policiamento de pronomes não-binários acarreta a mesma violação da tolerância liberal e civilidade, porém é endossado sob a fachada enganosa de “saúde mental” e “diversidade de gênero”.

Ninguém deve ser obrigado a expressar fidelidade à teoria queer acadêmica. Aqueles de nós que nos importamos com o pluralismo verdadeiro devemos resistir a essa forma de teatro político alimentado pelo narcisismo. Se pronomes não-convencionais têm algum espaço na nossa sociedade, devem ser pronunciados no contexto da amizade cívica baseada na confiança, autocontrole e respeito mútuo. Acima de tudo, os pronomes não-binários devem ser estritamente voluntários, e não deve haver punições — sociais ou legais — para aqueles que discordam da ideologia que lhes subjaz. Claro, a própria teoria queer nos diz que os próprios princípios liberais da tolerância e civilidade são máscaras para o poder e a opressão, então não devemos ter muita esperança de convergência nessa questão.

Por enquanto, o melhor conselho é simples: rejeite a linguagem neutra.

[N. do T.: O título original, “Don’t Say ‘They’” (algo como “Não diga ‘elu’”) é uma referência a um nome difamatório dado por progressistas identitários a uma lei da Flórida que proíbe o ensino de ideias de ‘identidade de gênero’ antes dos oito anos de idade nas escolas. O nome difamatório é “Don’t Say Gay Bill”, ou seja, “projeto de lei ‘não diga gay’”. Não há menção a gays em nenhuma parte da redação da lei. O ataque da Disney à lei motivou uma retaliação dos legisladores que podem causar a perda dos privilégios fiscais da empresa no estado.]

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Leor Sapir é membro adjunto do Instituto Manhattan.

©2022 City Journal. Publicado com permissão. Original em inglês.
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