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Temos mais micro-organismos em nosso corpo do que células. E apenas uma parcela ínfima deles nos faz mal.
Temos mais micro-organismos em nosso corpo do que células. E apenas uma parcela ínfima deles nos faz mal.| Foto: Pixabay

De todas as espécies de micro-organismos conhecidas pelo homem, uma parcela minúscula, cerca de 1.500 deles, causa doenças aos seres humanos. Para se ter uma ideia, um ser humano tem dez vezes mais micro-organismos em seu corpo do que células. Como são menores do que uma célula humana, contudo, esses micro-organismos correspondem a no máximo 3% da nossa massa. Um homem de 100kg, portanto, carrega consigo até 3kg de bactérias.

A intenção dos poucos micro-organismos nocivos, obviamente, não é nos causar essas doenças. Os sintomas que sofremos são apenas um efeito colateral do ciclo de vida deles dentro de nossos organismos. Causar a morte imediata do hospedeiro seria péssimo para o próprio micro-organismo e dificilmente teria feito com que ele sobrevivesse à impiedosa lógica da evolução natural das espécies. A maior parte desses micro-organismos que habitam nossos corpos não só é benéfica como necessária para a nossa existência.

A Terra tem cerca de 4,5 bilhões de anos. E os fósseis mais antigos já encontrados são de bactérias primitivas. Esses fósseis foram descobertos perto de fontes hidrotermais e respiradouros vulcânicos no fundo de antigos oceanos. O parasitismo já começou nesses seres primevos. No início do século XX, biólogos já formularam a teoria de que alguns dos componentes das próprias células, como os cloroplastos e mitocôndrias, tiveram sua origem como parasitas invasores, remanescentes de antigas infecções.

As mitocôndrias, por exemplo, têm seu próprio DNA, diferente do DNA do núcleo das células que as hospedam. Biólogos as definem como invasores que evitaram serem digeridos pelas células, se integrando a elas numa espécie de simbiose. Outra teoria seria a de que os vírus nada mais seriam do que uma forma de bactéria que, numa espécie de evolução inversa, viraram organismos mais simples, capazes de uma existência semi-independente. Alguns biólogos não consideram vírus organismos vivos, por não serem celulares e dependerem justamente dos organismos celulares para suas funções vitais mais básicas, como reprodução e metabolismo. Outros consideravam os vírus organismos vivos por usarem as mesmas formas de armazenamento e transmissão de informação genética, sofrerem mutações, evoluírem e interagirem com outros organismos como qualquer forma de vida. Eles também são abundantes em todo tipo de ambiente. Em alguns ecossistemas aquáticos, podem existir até 10 milhões de vírus por milímetro de água.

Uma história do desconhecimento

Durante boa parte da nossa história, no entanto, o homem nunca teve a menor noção da existência desses micro-organismos. A Revolução Neolítica, que trouxe consigo talvez os dois maiores avanços da história humana – a agricultura e a vida em cidades – gerou também, além da prosperidade material e dos avanços socioculturais, uma série de doenças. A vida ao lado de animais domésticos e outros seres humanos propiciou o contágio e a propagação dessas doenças de maneira muitas vezes devastadora.

Os ossos encontrados desse período mostram que os humanos eram, em média, menores que os caçadores-coletores que os antecederam. A quantidade de esqueletos de crianças indica que a mortalidade infantil também aumentou nesse período. De acordo com uma estatística compilada pelo biólogo russo Evgeny Pavlovsky na década de 1960, enquanto o ser humano compartilha cerca de 300 doenças com animais domésticos, pouco mais de 100 têm sua origem em animais selvagens.

Os avanços científicos desde então e a descoberta de novas zoonoses devem ter aumentado essas cifras.

Castigo divino e falta de higiene

Para o homem primitivo, no entanto, nenhuma doença era culpa dos animais, domésticos ou não, parasitas ou não, macro ou microscópicos. Doenças e epidemias eram resultado de forças invisíveis: a ira infligida sobre o homem por espíritos ou divindades descontentes.

Como resultado disso, dificilmente os hábitos que causavam doenças eram sanados. Milhões morreram por conta desse desconhecimento e outros milhões graças à expansão do ser humano ao redor do globo e do contato entre povos que viviam em realidades e ecossistemas totalmente diferentes. A medicina primitiva não ajudava e, muitas vezes, a maior esperança era depositada nas autoridades religiosas, e não médicas.

Apesar do total desconhecimento científico do que causava uma epidemia e o mecanismo de propagação dela, os antigos tinham alguma compreensão do papel desempenhado pela geografia e pelo comércio na disseminação de doenças No século VI, a chamada Praga de Justiniano dizimou milhares de pessoas. O historiador Procópio de Cesareia, principal fonte sobre a epidemia, conseguiu identificar as origens da doença (causada pela bactéria Yersinia pestis, a mesma que causou a Peste Negra) nas rotas comerciais da China e da Índia. Procópio, no entanto, não imaginava que a bactéria fosse transmitida pelas pulgas dos ratos que habitavam os navios que faziam essas rotas comerciais. Para ele, a culpa era do próprio imperador Justiniano, que atuava ora como representante do diabo, ora como responsável por algum tipo de punição divina.

A origem da quarentena

O conceito de quarentena surgiu justamente desse conhecimento de que navios traziam consigo, de alguma maneira, doenças mortais. No século XIV, todo navio que chegava de Veneza vindo de algum lugar onde se sabia existir algum tipo de epidemia era obrigado a ficar “quaranta giorni” ancorado diante do porto, antes de poder atracar.

O ambiente altamente insalubre das cidades antigas era extremamente propício a qualquer tipo de contaminação. As pessoas, muitas delas crianças – mais suscetíveis a qualquer tipo de contágio – viviam apinhadas em recintos fechados e sem ventilação, muitas vezes junto de animais. Na Europa medieval, quase todo mundo carregava consigo algum tipo de parasita, desde pulgas e piolhos até tênias e lombrigas. Na falta de qualquer tipo de saneamento, excrementos eram jogados no meio das ruas, muitas vezes das janelas, atingindo o infeliz que estivesse passando no momento. Diz-se que o termo britânico “loo”, que designa banheiro ou privada, teria sua origem na expressão francesa gritada por quem arremessava os excrementos na rua: “prenez garde a l’eau!” (cuidado com a aguá!).

A água disponível dificilmente era potável, a tal ponto que era mais comum que as pessoas, inclusive crianças, saciassem sua sede bebendo algum tipo de cerveja ou vinho mais fracos, uma vez que o álcool tinha a capacidade de eliminar parte dos micro-organismos nocivos. Soldados, peregrinos e comerciantes vindos de locais distantes estavam constantemente trazendo consigo novos vírus e bactérias, contra os quais seus compatriotas não tinham desenvolvido qualquer tipo de imunidade. Além das grandes pestes que assolaram a humanidade, pequenas epidemias de cólera, varíola e disenteria eram corriqueiras.

Animáculos

No século XVI, um médico de Verona, Girolamo Fracastoro, desenvolveu a teoria de que pequenas partículas invisíveis, propagadas pelo ar e destruídas pelo fogo, seriam as responsáveis por causar doenças. Mas foi só no século XVII que o ser humano conseguiu realmente adquirir algum tipo de conhecimento sobre o que causava essas aflições.

Em 1665, um cientista inglês chamado Robert Hooke, de cuja vida pouco se sabe (e de quem não se tem sequer um retrato), publicou um livro chamado Micrographia, no qual ele utilizava de seus dotes artísticos e de seu conhecimento do funcionamento da luz e dos fenômenos naturais para descrever o que vinha observando na versão primitiva dos microscópios. O político e escritor inglês Samuel Pepys comprou uma cópia de Micrographia e, depois de passar uma noite lendo compulsivamente, descreveu a obra como “o livro mais engenhoso que já li em toda minha vida”.

Hooke utilizou seu aparato para estudar diversas superfícies, entre as quais a de uma rolha. Ele encontrou pequenos compartimentos, semelhantes, em suas palavras, aos de uma colmeia, e as batizou com o nome de célula – pequenas celas – por achá-las parecidas com as celas onde os monges dormiam nos mosteiros. Hooke identificou estruturas semelhantes na madeira. A tecnologia da época, no entanto, não permitia a identificação de qualquer parte de uma célula, como seu núcleo.

Em 1654, o holandês Antony van Leeuwenhoek, um indivíduo de 32 anos sem qualquer treinamento científico que tinha trabalhado como contador em diversas tecelagens de Amsterdam, resolveu abrir seu próprio negócio em Delft. Ele adquiriu lentes usadas para examinar detalhes em tecidos e resolveu desenvolvê-las, tornando-se um exímio fabricante de instrumentos óticos. Sua curiosidade fez com que Leeuwenhoek utilizasse essas lentes para observar todo tipo de substância: seu próprio sangue, no qual identificou células vermelhas, pedaços de pele, cabelo, e até mesmo as bactérias que habitavam as placas em suas gengivas e dentes.

Leeuwenhoek chegou a investigar até seu próprio sêmen, identificando os espermatozoides, uma descoberta que tentou manter em segredo. Em suas anotações, ele deixou claro que a amostra foi conseguida “não profando pecaminosamente a mim mesmo, mas como um subproduto natural de coito conjugal”. Examinando as células de uma gota de água, ele identificou pequenos organismos unicelulares, aos quais deu o nome de “animáculos”. Ele enviou descrições e desenhos de suas descobertas para a Royal Society de Londres, onde seus relatos foram lidos por Robert Hooke. Ao longo de sua vida, Leeuwenhoek criou mais de 500 lentes e 400 tipos diferentes de microscópios.

A partir de então, o caminho para a descoberta da influência desses seres microscópios em nossas vidas foi aberto para inúmeros cientistas. Em 1831, o botânico escocês Robert Brown usou as descobertas de Leeuwenhoek para identificar o que batizou de “núcleo” nas células de plantas. No ano seguinte, o barão belga Barthélemy Dumortier observou a reprodução das células. Em 1838, dois cientistas alemães, Theodor Schwann e Matthias Schleiden, conversando enquanto tomavam café depois de uma refeição quando tiveram seu momento “eureca”. Comparando suas descobertas recentes, eles chegaram à conclusão de que as células de vegetais tinham uma estrutura praticamente equivalente à das células animais e estabeleceram dois dos preceitos do que viriam mais tarde a ser chamados de Teoria Celular: a célula é a unidade básica da estrutura, fisiologia e organização de todos os seres vivos e a toda célula é tanto uma entidade distinta quanto um elemento da formação dos organismos vivos.

O terceiro postulado feito por eles, o de que as células seriam criadas por meio da geração espontânea, como a formação de cristais, foi desmentida algumas décadas mais tarde, primeiro pelo cientista polonês Robert Remak e, depois, pelo alemão Rudolf Virchow, que a substituiu por um dito em latim: omnis cellula e celulla (“toda célula vem de uma célula”). Remak acusou Virchow de plágio e de ter se recusado a dar crédito a ele por antissemitismo.

Pasteur

A ideia de que os micro-organismos surgem a partir de “geração espontânea” só foi sepultada de vez por um cientista francês, Louis Pasteur, que tinha sido recusado por duas vezes na Academia Francesa de Ciências. Em 1860, a Academia ofereceu um prêmio a quem provasse de vez a questão, depois que um experimento do seu compatriota, Félix Pouchet, teria feito o mofo aparecer numa amostra de feno esterilizado depois de ser fervido e resfriado com mercúrio líquido.

Pasteur percebeu que o mercúrio utilizado por Pouchet tinha uma camada de poeira, o que teria provocado o aparecimento do mofo. Após recriar o experimento utilizando frascos diferentes, ele ganhou o prêmio da Academia de Ciências e seu nome ficou para sempre associado a uma nova ciência: a epidemiologia.

Embora o uso de alguns tipos de vacina já fosse conhecido por cientistas chineses desde pelo menos o século X, o uso delas foi aprimorado e sofisticado por Pasteur, depois de seu estudo sobre a interação entre parasitas e hospedeiros. Em 1885, Pasteur vacinou com sucesso um menino de nove anos que tinha sido mordido por um cão raivoso e desenvolveu vacinas contra a cólera aviária e o antraz, além de ter deixado estudos importantes sobre o estudo da difusão de epidemias.

Bactérias

Durante a grande epidemia de cólera que atingiu Londres em 1854, outro grande nome deixou sua marca indelével na identificação do funcionamento e de como evitar a propagação de epidemias: John Snow.

O médico comparou os casos de cólera ocorridos entre pessoas que consumiam água de um trecho poluído do rio Tâmisa com os casos entre pessoas que bebiam água que vinha de trechos mais limpos do rio. Snow logo concluiu que, ao contrário do que se imaginava até então, a cólera não era difundida pelo ar. Ela tinha sua origem em micro-organismos presente em matéria orgânica em decomposição, como cadáveres e fezes – os germes.

No mesmo ano, a descoberta da bactéria Vibrio cholerae pelo médico e cientista alemão Robert Koch acabou por lhe dar razão. Estudioso de diversos tipos de epidemia, Koch deixou quatro critérios básicos, conhecidos hoje como seus “postulados”: toda doença está associada a algum tipo de micro-organismo; todo micro-organismo pode ser isolado de um animal doente e cultivado em laboratório; esse micro-organismo causará a doença se transferido para um animal saudável; e o mesmo tipo de micro-organismo poderá ser encontrado no animal recém-infectado.

Em 1882, Koch anunciou para a Sociedade Fisiológica de Berlim que havia conseguido isolar e cultivar o bacilo causador de todas as formas de tuberculose. Em 1905, ele recebeu o prêmio Nobel por seu trabalho envolvendo a doença.

A descoberta do vírus

Faltava ainda a descobrir a outra grande ameaça microscópica à nossa saúde: os vírus. Desde que o primeiro vírus nocivo ao ser humano foi identificado, o que causa a febre amarela, em 1901, até hoje, pouco mais de 200 vírus foram descobertos e cerca de três ou quatro espécies novas são descobertas todos os anos. Desses vírus que nos afetam, cerca de dois terços também podem infectar outros animais, entre mamíferos e aves.

Em 1884, o microbiólogo francês Charles Chamberland conseguiu inventar um filtro revolucionário, que hoje em dia recebe o seu nome, com poros menores que as bactérias e que, por esse motivo, conseguia eliminá-las de uma solução infectada. Anos mais tarde, o botânico russo Dmitri Ivanovsky estava estudando uma doença que vinha devastando as plantações de tabaco na Ucrânia e na Criméia e, imaginando que a doença era causada por bactérias, tentou isolá-las passando o extrato de folhas amassadas pelo filtro de Chamberland.

Para sua surpresa, o líquido resultante continuava infectando plantas saudáveis. De alguma maneira, o micro-organismo que causava a doença havia passado pelo filtro. Ivanovsky se perguntou se a doença poderia ser resultado de algum tipo de toxina expelida pela bactéria. Em 1895, outro botânico, o holandês Martinus Beijerinck, deu sequência aos estudos de Ivanovsky e, ao perceber que as plantas submetidas ao processo de infecção com o líquido contaminado mesmo depois de filtrado continuavam doentes, concluiu que havia ali algum agente infeccioso – em suas palavras, um contagium vivum fluidum, um “fluido vivo contagioso – que ele batizou com o nome de virus, que em latim designa tanto “veneno” quanto alguma substância viscosa, um termo que já tinha sido utilizado na Idade Média.

Em 1898, ano em que Beijerinck publicou suas descobertas, outros cientistas conseguiram isolar vírus que infectavam células animais, como o responsável pela febre aftosa no gado bovino. Enquanto isso, uma epidemia de febre amarela assolava a capital de Cuba, Havana, e o médico americano William Gorgas foi apontado por seu governo para administrar a questão da saúde naquele país após a vitória dos Estados Unidos na Guerra Hispano-Americana. Mesmo depois de transformar Havana na cidade mais limpa do Caribe, e, talvez, do mundo, Gorgas continuava incapaz de erradicar a doença.

Desesperado, ele apelou para uma teoria levantada décadas antes pelo cientista cubano Carlos Finlay e até então ignorada, a de que a febre era transmitida para humanos pela picada de mosquitos. Ele decidiu erradicar os focos de mosquitos da ilha e, assim, reduziu drasticamente o número de casos. Depois de agradecer publicamente a Finlay, Gorgas implementou a mesma política na construção do Canal do Panamá.

A natureza do vírus, no entanto, ainda era um mistério. Somente no fim da década de 1930, com a invenção do microscópio eletrônico, é que justamente o vírus que atacava o tabaco pôde ser observado. Constatou-se que se tratava realmente de uma agente patogênico submicroscópico que, embora não seja considerado propriamente um ser vivo, por ter uma existência totalmente dependente do ser que ele está infectando, é capaz de atacar não só células de organismos mais complexos, mas também bactérias.

Ao longo do século XX, as descobertas a respeito de micro-organismos e suas relações com as doenças e epidemias que sempre nos afligiram cresceu de maneira exponencial. Hoje em dia, o desenvolvimento de vacinas e remédios ocorre num intervalo de tempo que deixaria todos os cientistas aqui citados boquiabertos.

Mas a natureza sempre consegue ter uma mão melhor do que a nossa e, a cada cartada certeira dada pelo ser humano, nos lança um novo desafio – como estamos sentindo na pele agora com o novo coronavírus. Só nos resta torcer pela engenhosidade humana.

Conteúdo editado por:Paulo Polzonoff Jr.
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