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Ao longo de 500 anos, Maquiavel ensinou os poderosos a usarem o mal para fazer “o bem”.
Ao longo de 500 anos, Maquiavel ensinou os poderosos a usarem o mal para fazer “o bem”.| Foto: Bigstock

Em seu magistral "Roots of American Order" [Raízes da ordem norte-americana], Russell Kirk tentou analisar a Renascença, a Reforma e a Contrarreforma a partir de um contexto histórico mais amplo (talvez gigantesco):

"As reformas protestante e católica do século XVI foram reações contra os excessos da Renascença. Afinal, o movimento intelectual, artístico e social chamado Renascença geralmente se resumia à negação da visão cristã sobre a condição humana. A Renascença exaltava o egoísmo humano, desafiando os ensinamentos cristãos de humildade, caridade e comunidade. A Renascença glorificava os prazeres carnais e aceitava a política de Maquiavel, totalmente diferente das teorias políticas cristãs de justiça, liberdade e ordem que prevaleciam desde o tempo de Gregório, o Grande, até a época de Dante".

O que quer que se pense sobre as opiniões de Kirk sobre Lutero, Calvino ou o Papa Paulo III (e muitos estudiosos contradizem a visão de Kirk, entre eles Michael Bauman e Kevin Gutzman), é possível criticar o pai do conservadorismo contemporâneo por ter pegado leve demais com Maquiavel, ainda que ela tenha feito isso mais por razões artísticas. Na verdade, é possível chegar ao ponto de dizer que Nicolau Maquiavel jogou no lixo quase dois mil anos de tradição socrática, reconhecendo os horrores do pecado e nossa tendência ao crime e à guerra, mas estabelecendo também limites para nossa capacidade de criar esse ambiente de trevas. Maquiavel adorava as trevas.

De Sócrates em diante, é possível reconstruir a linha de raciocínio ético baseado no “não cause danos”. De Sócrates aos estoicos, passando por Cícero, Santo Agostinho, Tomás de Aquino e Dante. O Ocidente sempre reconheceu a existência do pecado, mas sempre fez o máximo para impedir que ele se espalhasse. Maquiavel, por meio de umas poucas obras, justificou o ímpeto do mundo pós-medieval de adorar o poder à custa do sacrifício e do amor.

De várias formas, Maquiavel funcionava como contraponto a São Tomás de Aquino, que argumentava que o único bom líder era o que se sacrificava pelo seu povo, como fez Cristo. Enquanto São Tomás de Aquino escrevia sua maravilhosa carta “Sobre o Reinado”, como presente de coroação ao rei de Chipre, Maquiavel escrevia “O Príncipe” para Lorenzo di Pero de Medici, Duque de Urbino. Não se sabe ao certo se Maquiavel pretendia zombar de São Tomás de Aquino, mas é bem possível.

Sem se desculpar por admirar tanto Maomé por sua violência quanto o Papa Alexandre VI por sua crueldade, Maquiavel defendia abertamente o uso do poder e do utilitarismo no lugar da temperança, caridade, amor e dignidade. O governante eficiente, num contraponto quase perfeito aos ensinamentos de São Tomás de Aquino, usa o bem e o mal para promover um bem maior. Maquiavel calculava quanta força o governante deveria usar, redefinindo habilmente a palavra “prudência”.

“Alguém é considerado generoso, alguém mesquinho; alguém cruel, alguém misericordioso; um deles um infiel, o outro fiel; um afeminado e pusilânime, outro voraz e espirituoso; um humilde, outro orgulhoso; um lascivo, outro casto; um honesto, outro esperto; um duro, outro parcimonioso; um pesado, outro leve; um religioso, outro incrédulo, e assim por diante. E sei que todos confessarão que consideram digna a busca por um príncipe bom com todas as qualidades mencionadas. Mas, como isso é impossível, uma vez que as condições humanas não permitem isso, é necessário que o príncipe seja prudente a fim de evitar a infâmia dos pecados que o tirarão do poder, protegendo-se também dos pecados menores, se possível; mas, se não for possível, é preciso se livrar deles sem hesitação”.

No sentido tradicional de “prudência” como uma das quatro virtudes capitais, a palavra significa “capacidade de discernir o bem do mal”. Pela definição corrompida de Maquiavel, a palavra significa saber quando escolher o bem e quando escolher o mal.

Para o caso de alguém ignorar as ideias defendidas em “O Príncipe”, originalmente escrito em segredo, mas distribuído livremente por meio de correspondências, Maquiavel defendeu exatamente o mesmo argumento, e de uma forma mais clara, em sua diabólica peça “A Mandrágora ”. Numa conversa entre o “protagonista” Ligúrio e um padre católico, Timóteo, a peça explora os limites do cálculo quanto a usar o mal para fazer o bem.

“LIGÚRIO: Há um ano, esse homem foi à França a negócios e, por não ter esposa (que tinha morrido) ele deixou sua única filha solteira aos cuidados de um convento cujo nome não lhe direi agora.
TIMÓTEO: O que aconteceu?
LIGÚRIO: O que aconteceu foi que, seja por descuido das freiras ou por estupidez da moça, ela se viu grávida de quatro meses; assim, se a situação não fosse remediada com prudência, o Dottore, as freiras, a menina, Cammillo e a Casa de Calfucci cairiam em desgraça; e o Dottore considerava a situação tão vergonhosa que ele jurou dar trezentos ducados à obra de Deus se ela fosse mantida em segredo.
NÍCIA: (Que fofoca!)
LIGÚRIO: Silêncio. E ele dará o dinheiro por meio de suas mães, e somente você e a abadessa podem resolver isso.
TIMÓTEO: Como?
LIGÚRIO: Persuadindo a abadessa a dar à menina um remédio para provocar um aborto.
TIMÓTEO: Isso é algo que merece reflexão.
LIGÚRIO: Pense em todas as coisas boas que resultarão disso; você manterá a honra do convento, da menina, dos parentes dela; você devolverá a filha ao pai; você satisfará Messer e a família dele; você fará tanta caridade quanto for possível com esses trezentos ducados; por outro lado, você não fará mal a ninguém, a não ser a um punhado de carne sem noção de nada e que pode ser descartado de mil formas; e acredito que o bem é o que gera o bem e deixa as pessoas felizes.
TIMÓTEO: Assim seja, em nome de Deus. Farei o que você quer, e tudo será feito em nome de Deus e pela caridade. Diga-me qual convento, diga-me qual o remédio; e, se quiser, me dê esse dinheiro com o qual poderei começar a fazer o bem.
LIGÚRIO: Agora você parece o homem religioso que eu acreditava que você fosse. Pegue essa parte do dinheiro”.

Seja qual for a intenção de “O Príncipe”, Maquiavel publicou o trecho acima como uma comédia na Florença de 1518, e assinou com o próprio nome. Se “O Príncipe” é mesmo uma sátira, como alguns estudiosos e apologistas defendem, Maquiavel enganou líderes após líderes nos últimos 500 anos, já que o livro serve, desde que foi publicado, como um manual para os poderosos.

Não à toa, os ingleses se referiam a ele como “o Velho Nick”, usando o mesmo nome atribuído ao príncipe das trevas.

Bradley J. Birzer é cofundador do Imaginative Conservative. 

©2021 The Imaginative Conservative. Publicado com permissão. Original em inglês 
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