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Michael Oakeshott, o conservador rebelde

  • PorPedro Henrique Alves, especial para a Gazeta do Povo
  • 19/11/2020 19:19
Michael Oakeshott
Michael Oakeshott: inglês, acadêmico, conservador e apostador de corrida de cavalos| Foto: Reprodução

O conservadorismo é a via política mais pluriforme que existe atualmente, seja pelo vasto universo filosófico que abrange seus pilares e reflexões, seja pelos pontos de vista que seus adeptos abordam diante da existência; além, é claro, pela forma ímpar como aplicam suas ideias na realidade. Michael Oakeshott (1901-1990) é uma prova disso.

As nascentes do pensamento conservador vão do estoicismo romano, teologia judaico-cristã, iluminismo britânico e americano, chegando até à antropologia e psicologia moderna. Resumindo, o conservadorismo surge hoje não mais como um porão de velharias sociais e moralismos tradicionalistas ― ainda que antiguidades e tradições sejam caros ao pensamento conservador, com certeza ―, mas sim como um renovado, e sempre atualizado, modo de pensar e refletir a realidade contemporânea sem medo de ter os pés fincados na história. Oakeshott é o conservador travesso que ousa tentar coisas novas em meio a lordes senhores de bigodes torcidos e sisudos religiosos; começa duvidando da existência de Deus e termina na praia fazendo uma “baguncinha” que lhe custou o prestígio da coroa britânica. Vamos entender:

A vida

Michael Joseph Oakeshott, nascido em 1901, em Chelsfield, região sudoeste de Londres, encarna de maneira quase perfeita aquilo que chamamos de conservador arredio; na juventude estudou na austera Saint George's, uma escola quacre com a fama de nutrir um ensino rigoroso de alta erudição. Após isso, já licenciado em história pela Gonville and Caius College, faculdade pertencente à Universidade de Cambridge ― comum reduto dos liberals (socialistas) ―, fez carreira acadêmica na área da ciência política, filosofia e teoria da história. Sua produção intelectual parece pequena se comparada à produção de outros acadêmicos prolíficos, todavia escreveu o suficiente para ser extremamente relevante em suas análises pontuais ou conjecturais.

Produziu pouco para produzir bem e com profundidade, podemos assim resumir. Ao total, tem 24 obras ― 14 lançadas durante a vida e 10 postumamente. No Brasil encontramos ensaios dispersos e três traduções específicas de obras: uma delas é uma reunião de ensaios, publicada pela Topbooks, Sobre a história e outros ensaios (2003): pela editora Âyiné, Conservadorismo (2016); e o livro A política da fé e a política do ceticismo (2018), lançado pela É realizações.

Sua vida foi um misto de erudição circunscrita e atuação acadêmica. No entanto, num breve período da sua vida, serviu à Força Aérea Britânica no departamento de inteligência; apesar de repudiar envolvimentos de intelectuais em assuntos de Estado, ele mesmo abdicou desse mandamento a fim de abertamente se denominar conservador e partidário do modo ocidental de vida.

Para ele, apenas o Ocidente conseguiu nutrir um modo de vida seguro através de valores históricos, ao mesmo tempo que manteve as liberdades individuais como selo integrante e habilitador da própria dignidade dos indivíduos. Defendia tais ideias quando serviu à Força Aérea Britânica e também quando ministrava aulas em Londres.

Seus seguidores não são tão numerosos como pode sugerir essa introdução, mas fizeram do professor alguém que transpunha a barreira ideológica ― tão marcante no pós-segunda guerra; tão marcante hoje, novamente. Após breve passagem pelo reduto conservador de Oxford como professor convidado, recebeu uma inesperada proposta para assumir uma cadeira na Escola de Economia e Ciência Política de Londres, em 1951, substituindo Harold Laski (1893-1950), um dos mais importantes teorizadores do Partido Trabalhista Britânico. Talvez não imaginasse, quando aceitou o convite, que suas ideias e conduções acadêmicas seriam tão bem-recebidas na referida escola. O espanto se dá pois tal universidade era nacionalmente conhecida como o berço teórico do Socialismo Fabiano na Inglaterra.

As ideias e a realidade

Michael Oakeshott é fruto da mistura exótica de duas tradições filosóficas: de um lado, a ética idealista de Hegel (1770-1831), que plantou fortes convicções, principalmente, em sua análise epistemológica; do outro, o empirismo cético de David Hume (1711-1776), que ocuparia grande parte de sua apreciação política no século XX, o que o levaria a dizer que o pior erro da civilização é acreditar que a política diz respeito a costuras e demandas puramente racionais.

Oakeshott acredita que a realidade e a ideia têm o mesmo peso na concepção do entendimento humano. A ideia, sem o mundo, é pura abstração e engodo; o mundo, sem a ideia, é um dado bruto incognoscível. Da mesma forma que sem um Cubo Mágico não dá para resolver um Cubo Mágico, , um Cubo Mágico, diante de alguém que não tem a mínima noção do que seja um Cubo Mágico, pouco ou quase nada trará de cognição ao debate humano. Desta forma, ideia e mundo, consciência e realidade, se completam e dão sentido às nossas percepções mais elementares.

A política, por sua via, pondera o inglês, é um dado da vontade humana, e como tal carrega dois frondosos estandartes inalienáveis em sua condição: a aleatoriedade (devido ao livre-arbítrio) das escolhas e interações de cada indivíduo nos grupos onde atua; e a fatalidade limitadora da razão humana, a falência como pré-requisito natural da carne. Dadas essas formas, a única atitude racional diante da realidade política é o ceticismo ante às muitas teorias que prometem planificar de forma perfeita a atitude humana e social a partir de um aspecto ideológico centralizado.

A epistemológica de Oakeshott gerou a obra Experience and Its Modes (1933); escrita com impressionante profundeza filosófica, mostrando como o homem atua e pensa de maneira multiforme e como a interação com a realidade não se dá apenas com um foco, mas com vários focos que se entrelaçam e montam uma compreensão multidisciplinar para uma realidade também multiforme.

Conclusão muito semelhante à qual chegou Ludwig von Mises (1881-1973) em sua monumental obra Ação Humana (1949), onde expôs de maneira brilhante como a ação humana é simplesmente incalculável e imprevisível, fazendo de quaisquer planificações e previsões político-sociais meros embustes. Vemos claramente a influência cética de Hume e sua Teoria do Conhecimento nas conclusões de Oakeshott sobre as ações humanas.

Entretanto, na obra The Voice of Liberal Learning (1989) consiste em um conjunto de ensaios sobre a educação liberal. Nesse texto, o autor enfatiza a necessidade de uma real amplitude de horizonte epistemológico e existencial na educação, não mais focando nas necessidades atômicas e imediatistas da sociedade, mas no aprofundamento erudito dos indivíduos. Aqui, por sua via, a influência do idealismo de Hegel é evidente.

Tal compreensão arejada e paradoxal da existência proposta por Michael Oakeshott, no entanto, não advém somente de Hume e Hegel, mas de outro pensador que o influenciou profundamente: Thomas Hobbes (1588-1679). Contrariando larga herança liberal que tinha em Hobbes o início do crescimento ditatorial do Estado e da infantilização do imaginário popular, Oakeshott identifica no pensamento do referido filósofo ― mais especificamente na obra Leviatã (1651) ― o encontro entre a incapacidade humana e a necessidade do império da lei, do envergamento da soberba individualista ante às boas experiências históricas do homem.

Outra certeza elementar é que o conhecimento, para Oakeshott, é esparso e não redutível ― aquilo que seus comentadores chamarão de “teoria das modalidades”. O filósofo inglês compreendia que há modalidades de conhecimento, e que cada uma delas representava um prisma de compreensão da realidade.

Nesse sentido, o historiador tem a missão de compreender a realidade a partir dos fatos históricos e suas interferências na atualidade, assim como o cientista deve analisar os parâmetros que lhe cabem, sem tentar sobrepor as responsabilidade do historiador ou do filósofo. Ao mesmo tempo, o filósofo deve investigar os conceitos-chaves da existência e construir um conhecimento coeso, sem querer subtrair a responsabilidade do cientista e do psicólogo ― por exemplo. Assim por diante.

O conservador secular

Essa compreensão humana do indivíduo e sua função civilizacional, tal como as estruturas sociais mais complementares a essa compreensão, Oakeshott trabalhou em seu livro mais profundo e maduro, On Human Conduct (1975).

O autor se insere, por dois motivos básicos, num grupo de conservadores aparte daqueles que geralmente são citados: ele abdica da religião como fator unitivo ou classificativo e não apela para nenhum jusnaturalismo. O conhecimento ― elo entre o mundo e o indivíduo ― depende da disposição e do empreendimento individual, além dos costumes que cada geração constrói e relega como riqueza para cada geração que se sucede.

Oakeshott pode ser denominado conservador por um motivo básico: no centro de sua reflexão, jaz a certeza da imperfeição da razão humana e da impossibilidade de planificação social e econômica, assim como a certeza de que o norte da Civilização jaz na tradição, e não num jusnaturalismo social, numa Lei Natural à São Tomás de Aquino (1225-1274) e Leo Strauss (1899-1973).

Na realidade, Oakeshott poderia ser considerado o conservador antítese, ele rompe com qualquer simplificação do termo ‘conservador’ em uma casta de puros e moralmente intocados, rasga todas as esperanças de uniformização de “lordes”, desses que se denominam conservadores mais pela pungência religiosa, do que pelas convicções intelectuais sobre a organização do cosmo político.

O professor inglês, conta-nos o conservador português João Pereira Coutinho, perdeu seu título de Lord após ser flagrado em ato sexual na praia com uma dama. Casou-se, provavelmente, mais de quatro vezes, e não nutriu a concepção de sacralidade matrimonial como sendo um valor eterno. Em visita ao cemitério onde foi enterrado o conservador desviado, Coutinho relata ter se encontrado com três das viúvas do acadêmico inglês.

A chave para romper com os julgamentos moralistas que podem estar recaindo neste instante sobre o filósofo inglês é entender que, para ele, o ser conservador está atrelado à compreensão da realidade, mais do que a qualquer aceitação de credos morais ou religiosos. Ser conservador é uma atitude consciente a afirmativa rumo à experiência conservada pela história e testada mil vezes pelo senso comum dos homens. Michael Oakeshott foi autor de uma das definições mais louvadas no meio conservador sobre o que é conservadorismo, é também onde ele deixa explícita a sua escolha por um pensamento conservador baseado na história, e não em valores naturais. Eis a conceituação:

"Ser conservador é, pois, preferir o familiar ao estranho, preferir o que já foi tentado a experimentar, o fato ao mistério, o concreto ao possível, o limitado ao infinito, o que está perto ao distante, o suficiente ao abundante, o conveniente ao perfeito, a risada momentânea à felicidade eterna. Relações familiares e lealdade têm preferência sobre o fascínio pelas alianças de momento; comprar e aumentar é menos importante do que manter, cultivar e aproveitar; a tristeza da perda é mais aguda do que a empolgação pela novidade e pela promessa. Significa viver dentro dos limites do patrimônio, usufruir dos meios possíveis à riqueza, contentar-se com a necessidade de maior perfeição que é exigida a cada um em dada circunstância."

Oakeshott rompe os paradigmas e estica o teto do conservadorismo até a ponta dos céticos agnósticos, dos quase niilistas e possíveis relativistas. Segundo João Pereira Coutinho, há um problema real na teoria social conservadora de Michael Oakeshott: caso sua ética social esteja afirmada somente no parâmetro histórico-tradicional, então a consequência óbvia é um relativismo; afinal, cada país e região possui sua cultura, e nem todas reafirmam os mesmos valores. Os acadêmicos que estudam Oakeshott estão tentando solver esta problemática até os dias atuais, dado que seu idealismo de vertente hegeliana, obviamente não tende a crer num relativismo ético como via possível de compreensão da existência.

Oposição dentro da situação

Com certeza o inglês, acadêmico, conservador e apostador de corrida de cavalos Michael Oakeshott destoa de quaisquer simplificações e enrijecimento da compreensão do “homoconservador”. Na minha opinião, o inglês trouxe uma sadia variação do pensamento conservador para bailar com os clássicos homens de terno que amam falar sobre whiskey e como Hegel, Nietzsche (1844-1900) e Foucault (1926-1984) iniciaram a queda da civilização ocidental.

Mas o inglês não foi só perversão e traquinagem, foi também um intelectual de primeiro calibre, talvez o conservador moderno mais profundo e mais negligenciado daquelas bandas da Rainha. Sendo fiel à postura de romper paradigmas filosóficos, ao mesmo tempo que reafirmava a indispensabilidade das retas tradições da Civilização, conseguiu o impensável: unir Hegel e Hume numa mesa ecumênica do bar da humanidade, extraindo de ambos o sulco das vias epistemológicas necessárias para compreender as difíceis nuances da realidade e da história da Civilização Ocidental.

Por fim, muito além de “mais um conservador” britânico, Michael Oakeshott foi uma das lâmpadas mais brilhantes do farol do conservadorismo moderno, a argamassa que uniu crentes e agnósticos dentro da mesma taverna conservadora, a louvável e madura oposição dentro da situação.

Sim, Oakeshott foi tudo isso, o contraponto necessário, a crítica indispensável ao pensamento que, graças à maturidade de receber novas ponderações sem se fechar ao debate construtivo, está se transformando na via da sanidade acadêmica e epistemológica, da real “pluralidade” sadia e consciente. Isto é: para além dos arco-íris histéricos, das remendas fascistóides do neossocialismo, e do identitarismo amorfo.

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Comentários [ 3 ]

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  • F

    Felipe de Souza Marques

    ± 0 minutos

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      Maurício Caliguere

      05/12/2020 11:27:12

      Excelente texto. Parabéns ao autor! Li os textos sobre Leo Strauss e sobre Christopher Dawson antes e todos são excelentes. Engrandece a Gazeta do Povo.

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      • S

        Saber é poder

        20/11/2020 18:27:52

        Vou deixá-lo por último na minha lista de conservadores. Prefiro os certinhos. Chegas de caras "erradões". O mundo carece de pessoas certas e boas. Malandrões desviantes há de sobra - e é isso que torna o mundo intelectual uma chatice.

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