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Na chegada do ano 2000, eu havia conseguido passar sete anos sem um episódio de mania. Eu me formei na Universidade da Califórnia em Davis com graduação em Inglês e Artes. Mudei para Nova York e vivia o que parecia ser uma vida normal, escrevendo sobre música para o jornal “The Village Voice” e pintando. Ia para o trabalho todos os dias e pagava o aluguel. Se você me visse na rua, aposto que pensaria: essa é uma pessoa normal, com problemas normais e que vê o mundo de um jeito normal.

Foi quando decidi, junto com meu psiquiatra de alguns anos, Henry Schwartz, diminuir a dosagem de lítio. Talvez o diagnóstico que me foi dado quando adolescente estivesse equivocado. Talvez eu tivesse passado do ponto de ter episódios de mania.

“Difícil saber se aquela sensação era apenas a mania assumindo o controle ou se era uma ressaca do medicamento.”

Após alguns meses sem lítio, eu me sentia cheia de energia, empenhada e até elétrica. Difícil saber se aquela sensação era apenas a mania assumindo o controle ou se era uma ressaca do medicamento. Mas foi isso que acabou acontecendo: recusei empregos – e queimei cada uma das pontes profissionais que havia construído – com e-mails irracionais e afiados, muitos deles fazendo menção ao rapper Eminem; mantinha continuamente uma porção de granola nos bolsos e estava disposta a dar um pouco para qualquer um que aceitasse granola suja de uma estranha; desenvolvi um alter ego, uma rapper chamada Jamya; pintava meu rosto com sombra reluzente verde e dourada; fui expulsa de um bar sem ter tomado um único drinque; plantava bananeira todas as manhãs, religiosamente; meu apartamento pegou fogo; fui a única testemunha no casamento de dois estranhos no topo do World Trade Center; usava cerca de 800 colares por vez e falava ou em grunhidos ou em gritos estridentes; impedi que um cachorro fosse atropelado por um táxi na Central Park West; falava com estranhos com a mesma intensidade de um vendedor de carros preso num monólogo de Mamet; pregava a palavra do senhor onde quer que fosse, algo no mínimo incomum para uma judia, e gastei mais ou menos 700 dólares com meu consumo de abóboras. Minhas roupas cheiravam a fogo devido ao incêndio no meu apartamento. Eu era aquela que assustava as pessoas que geralmente assustam os outros no metrô. Isso tudo no espaço de duas semanas, talvez três, durante idas e vindas de Nova York para Los Angeles.

Como era época da fruta citrus japonica, eu queria voltar pra Nova York para ficar com Mike, um flerte que eu havia conhecido há um mês. Ele trabalhava em uma start-up no andar debaixo do meu apartamento. Nas semanas que se seguiram ao incêndio no meu apartamento, ele me seguia com uma câmera gravando tudo que eu fazia, simplesmente porque eu havia mandado e ele obedeceu.

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Há alguns anos, ele me enviou algumas daquelas cenas compiladas em uma fita VHS que ele havia guardado na casa dos pais. Assisti às gravações recentemente. Eu parecia bastante jovem e bonita, com uma aura magnética e ensandecida. Meu rosto era menos marcado por preocupações e meu cabelo penteado num estilo afro tingido de vermelho que combinava perfeitamente com minhas sobrancelhas assimétricas. Eu exibia meu estilo maníaco característico – cem colares cintilantes, cerca de 14 camadas de roupas em todos os estilos contrastantes possíveis, maquiagem pesada e uma caixa de cigarros da marca Fantasia que eu fumava só porque pareciam lápis de cor. Minha voz era rouca e arrastada, como se eu fosse uma cantora de cabaré dos anos 40.

“Morro de medo que, sem o lítio, eu venha a perder meu emprego, meu parceiro, minha casa, minha sanidade…”

No começo do vídeo, nós dois estamos sentados na varanda de Mike na Sexta Avenida e depois em Garfield Place, em Park Slope, conversando com um bando de adolescentes bochechudos. Acho que eu já estava na minha campanha “case com a Jaime” porque consegui fazer cada um daqueles pirralhos gritar: “Você deveria casar com a Jamie”.

Então começo a recitar frases tiradas de “Romeu e Julieta” num estilo hip-hop com minha voz arrastada e a garotada não demora para me acompanhar em coro: “Aquilo que chamamos de rosa, mesmo com outro nome teria o mesmo doce aroma”.

Dá para notar que eles estão tão hipnotizados quanto confusos com essa pseudoadulta, ensandecida, vestida numa saia de balé. Para me despedir deles, digo: “A criançada tá de boas!”. E do nada engato com versos intermináveis de Eminem.

Na próxima cena da fita, falo para a câmera e seguro diversos discos enquanto canto uma música de cada um deles. Estou vestindo um chapéu de caubói, calças douradas, uma saia florida florescente e todos os colares do mundo. Paro em “Sweeney Todd” e digo: “Ah, essa daqui fala sobre canibalismo, então está valendo”. Mike, atrás da câmera, demonstra interesse fazendo ainda mais perguntas enquanto me manda erguer os discos, mais para a esquerda ou mais para a direita.

Na manhã seguinte, posiciono a câmera de modo que ela capture o que eu havia preparado para o café – salada de laranja e abacate, cubos de barras de cereal e uma taça de vinho. Gravo Mike acordando. Ele negocia mais cinco minutos de sono. Eu havia passado a noite em claro e agora exibia um figurino de sutiã vermelho com manchas prateadas e uma saia dourada. Ele finalmente se manifesta e come alguns cubinhos de barra de cereal. Eu digo “Baruch atah, Adonai” enquanto levanto a taça de vinho, emprestando algumas palavras da prece hebraica. Eu a sussurro como se minha voz fosse uma linha direta com Deus. Mike me pergunta como será meu dia.

“Hoje vou entrar em contato com a MTV para propor um debate sobre Gore, Bush ou Tipper Gore. Espero que seja Tipper. Meu dia está uma loucura hoje.” Pausa. “Tenho que mudar o mundo.”

Mike me pergunta por que estou segurando um caroço de abacate na mão. “Salvei o caroço para que a gente pudesse plantá-lo”, respondo. Então começo a discorrer sobre uma privada que canta, parte de uma das cenas de um musical que eu havia escrito.

O último fragmento da fita captura aquele mesmo dia ao entardecer. A câmera está apontada para o chão e estou tentando convencer Mike a ir comigo para o telhado. Dá para ouvir o cansaço em sua voz e a já crescente irritação. Ele resiste enquanto tento guiá-lo. “Por que estamos indo lá pra cima?”, ele pergunta.

Porque sim, eu insisto. Ele ameaça desligar a câmera. Peço que ele me filme e, ajoelhada, pergunto se ele quer casar comigo. “Já está tudo preparado”, digo. A imagem vai escurecendo lentamente.

Após assistir à fita no ano passado, conversei com Mike (ainda somos bem próximos). “Sempre senti um pouco de ciúmes daquela sua fase”, ele me confessou. “Você teve uma experiência que pouquíssimas pessoas tiveram. Digo, você enlouqueceu completamente. Era quase como se tivesse virado outra pessoa.”

Quem eu vi naquela fita parecia vagamente comigo, como um parente distante, alguém que fui um dia. Era eu sem o lítio.

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Após aquele episódio, voltei a tomar lítio e continuei tomando, apesar dos efeitos colaterais, que incluem sede excessiva, aumento de peso, perda de memória e, mais raramente, deterioração da tiroide, disfunção renal e a mesma letargia e apatia das cobaias de Cade.

“Antes de embarcar nesse inquietante território desconhecido – trocar o lítio por um medicamento que poupe meus rins –, entretanto, decidi viajar para um dos maiores e mais alucinantes lugares de que já ouvi falar, a maior reserva de lítio do mundo, na Bolívia. Eu faria uma peregrinação simbólica até a fonte da minha sanidade.”

Fiquei assustada com o que havia acontecido comigo durante o período em que parei com a medicação. Algumas pessoas reclamam que o tratamento com lítio rouba suas personalidades, mas, para mim, em determinado ponto quando a mania assume o controle, minhas ações tornam-se insuportáveis tanto para mim quanto para os outros ao meu redor.

Já perto do fim do meu último episódio, eu havia me tornado uma ameaça tão grande que minha mãe teve de contratar uma enfermeira para cuidar de mim, uma caribenha chamada Alma que fazia tranças no meu cabelo e me levava para passear em lojas de 1,99.

Eu almejava uma vida mais tranquila. Portanto, nos 13 anos seguintes, tomei minhas três cápsulas rosa e tudo correu bem. Escrevi um livro, aprendi a cozinhar com um italiano, tive alguns relacionamentos que duraram mais que um mês, lutei boxe, viajei, pintei e tomei meus remédios. Eu estava bem.

No outono de 2014, tive uma consulta com meu médico e ele me encaminhou imediatamente para o pronto socorro. Meus altos níveis de creatina, meus rins danificados e a pressão arterial digna de pacientes prestes a terem um ataque cardíaco (18 por 13) o assustaram.

No hospital Mount Sinai, seus temores se confirmaram em questão de dias: meus rins estavam irreparavelmente afetados, um efeito colateral “incomum mas não exatamente raro” devido ao longo consumo de lítio.

Fui aconselhada a largar a medicação aos poucos e procurar outro tratamento, ou então encarar hemodiálise e entrar na fila para conseguir um transplante.

Não me parece exatamente uma escolha óbvia; na verdade, está mais para duas alternativas péssimas.

Trocar minha medicação pode significar o retorno da Jamya de trancinhas, obcecada pelo Eminem e se entupindo de abóboras. Contudo, me encher de tubos e limpar meu sangue até conseguir que o rim de algum estranho seja costurado nas minhas entranhas também não soa como uma bela opção.

“A definição genérica não abrange exatamente os extremos da doença e seus sintomas, que incluem autoestima inflada, insônia, verborragia, pensamentos agitados e tendência a certas atitudes que, segundo a conceituada Mayo Clinic, ‘tem um potencial elevado para acarretar consequências desastrosas como impulsos de compra desenfreados, leviandades sexuais e investimentos completamente furados’.”

Exames indicaram que meus rins trabalham com cerca da metade de sua capacidade. Maria DeVita, uma nefrologista no hospital Lenox Hill, me disse que, se eu realmente decidir trocar minha medicação para preservar o que ainda resta dos meus rins, “a hora é agora”.

Quando eu começar a diminuir a dosagem de lítio dentro de um mês, meu médico irá me receitar Depakote, um medicamento usado no tratamento do transtorno bipolar e também em pacientes que sofrem de convulsões e enxaquecas. A única maneira de saber se ele será ou não eficaz é aguardar um novo episódio de mania. E a ideia de esperar isso acontecer me aterroriza.

Meu namorado de três anos e meio não faz ideia de como sou quando maníaca. Não há nada que eu possa dizer que irá prepará-lo para isso. Caso aconteça novamente, tenho medo de sair correndo pelos trilhos do metrô ou de cometer um ato de infidelidade acidental ou de insistir em usar leggings metálicas e máscaras de luta livre mexicanas ou, pior de tudo, tenho medo de não ser mais eu mesma, e que ele não consiga se lembrar de quem eu sou, embora esteja escondida lá dentro dessa pessoa em algum lugar.

Morro de medo que, sem o lítio, eu venha a perder meu emprego, meu parceiro, minha casa, minha sanidade… porque já passei por tudo isso. Não acredito em Deus, mas acredito em lítio.

Antes de embarcar nesse inquietante território desconhecido, entretanto, decidi viajar para um dos maiores e mais alucinantes lugares de que já ouvi falar, a maior reserva de lítio do mundo, o Salar de Uyuni, na Bolívia, de onde sai quase metade do lítio consumido no mundo. Eu faria uma peregrinação simbólica até a fonte da minha sanidade.

A imensidão do Salar de Uyuni é intensificada por sua altitude aflitiva e atordoante. As salinas se espalham por quase 4 mil metros acima do nível do mar e lembram os maiores e mais perfeitos lagos de patinação no gelo que você pode imaginar. Essa parte ao sul da Bolívia consiste de 4 mil hectares do que já foi uma região de lagos pré-históricos, hoje completamente secos.

Cientistas alegam que não levou mais do que três minutos após o Big Bang, 13,7 bilhões de anos atrás, para que os três primeiros elementos surgissem – hélio, hidrogênio e então traços de lítio, do tipo atômico número 3. Contemplar o horizonte aqui em Salar de Uyuni é como voltar no tempo naqueles primeiros momentos do universo. Não muito distante pode-se avistar as termas de água quente e o Sol de Mañana, uma área geotérmica esburacada com crateras que jorram lama em ebulição. O lugar mais parece uma alucinação; há uma ilha povoada por cactos com mais de cem anos, uma lagoa com água vermelho-sangue, bandos de flamingos rosa-choque e pilhas de substâncias tão cristalinas que você mal consegue olhar.

Havia marcas de pneus nas salinas de pick-ups quatro-por-quatro. Perdida no horizonte, podemos avistar uma fábrica de processamento, inaugurada pelo presidente da Bolívia, Evo Morales, em 2013. Lagos evaporados desenham um tabuleiro de xadrez na imensidão branca.

Caminho pela superfície encrostada como um mosaico. Queria sentir e experimentar sua granulosidade e gosto salgado. Os longínquos picos dos Andes flutuam magicamente, como se não tivessem fundamento visível.

Enquanto corria entre as minas de sal, rachaduras acompanhavam cada passo. Minhas botas de escalada estavam cobertas de água salgada leitosa. Eu estava tão ofegante, com tanta sede e tão emocionada que, se existe um cenário perfeito para uma desilusão grandiosa, esse lugar é o Salar de Uyuni.

Todo o lítio que temos no planeta agora – parte poeira de estrelas, parte poeira primitiva e parte poeira terrestre – é uma parcela constitutiva do nosso mundo, uma que por vezes molda nossas personalidades.

Pensei que meu consumo de lítio profetizou um futuro dependente dele, me reconciliando com um passado em que nosso planeta veio a existir em incandescentes explosões de lítio.

Talvez aquela cápsula cheia de um determinado tipo de sal, aquela que me fazia funcionar normalmente, tenha amarrado nosso passado, presente e futuro. Mas, convenhamos, profecias extravagantes construídas a partir de poderes milagrosos de um elemento pré-histórico parecem coisa de alguém que está começando a ter outro episódio de mania.

Depois de alguns dias de caminhadas longas, parei em um acampamento e durmi em uma construção feita de tijolos de sal – um iglu de lítio.

Entrei nas termas de água quente carregadas com lítio em altas concentrações e assisti ao vapor desaparecer sob a luz da lua.

Imagino que, se me banhar nessas águas por tempo suficiente, talvez não seja assim tão difícil deixar de tomar meu remédio.

Jaime Lowe é escritora.
Tradução de Miguel Nicolau.
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