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O QI do brasileiro está caindo? | Pixabay
O QI do brasileiro está caindo?| Foto: Pixabay

O QI da população brasileira provavelmente não encolheu desde a década de 1930 e, se por acaso isso aconteceu, a culpa não é do flúor na água. As duas alegações – da perda de QI e da suposta culpa da fluoretação, feita para evitar cáries –, vêm se misturando nas redes sociais pelas últimas semanas, mas têm fontes diferentes, uma legítima e uma espúria, confundidas pelo público em meio ao caos peculiar da era digital. 

Quanto à parte legítima: realmente existe um estudo, que tem como principal autor o psicólogo austríaco Jakob Pietschnig, da Universidade de Viena, com dados que indicam uma perda de QI das crianças brasileiras, de cerca de nove pontos, ao longo de um período de quase 80 anos (de 1930 a 2007). 

Mas a interpretação dos números não é tão simples quanto sugere o gráfico que viralizou nas redes sociais brasileiras, mostrando a curva nacional numa triste trajetória descendente, em meio a uma constelação de países que avançaram em seus escores de QI no último século. 

Pietschnig é um estudioso do “Efeito Flynn”, o fenômeno, apontado pela primeira vez pelo cientista político neozelandês James Flynn, de que cada nova geração tende a se sair melhor em testes de inteligência do que as que vieram antes. Em um artigo publicado em 2015, Pietschnig e Martin Voracek compilaram resultados de quase 300 testes de inteligência realizados em 31 países, de 1909 a 2013. 

No caso brasileiro, foram incorporados dados de três estudos, totalizando 13 amostras de crianças testadas. A maioria das amostras, no entanto, envolveu intervalos de tempo relativamente curtos, de 12 a 18 anos. Consultado pela reportagem, o pesquisador disse que, por conta desse fato, “é bem possível que alguns ganhos intermediários não tenham sido registrados”. 

Além disso, o estudo com maior amplitude temporal – que comparou resultados de 1930 a dados de 2004 – e que registrou a maior perda de QI envolveu, numa ponta (1930), crianças de um ambiente urbano e de classes sociais diversas e, na outra (2004) crianças pobres do meio rural, que sofriam com desnutrição crônica e baixo acesso à educação. 

Existem dois grandes grupos de hipóteses que buscam explicar o Efeito Flynn: o “nutricional” (cada geração tende a produzir crianças mais saudáveis, mais bem alimentadas) e o de “estimulação cognitiva” (a cada geração, as crianças têm mais acesso à informação e sofrem mais demandas intelectuais do meio). É provável que nenhum desses fatores estivesse trabalhando a favor da amostra de 2004. 

De qualquer modo, Pietschnig nota que casos de desaceleração, ou mesmo reversão, do Efeito Flynn já foram constatados até mesmo na Europa. Em outro artigo de 2015, escrito em conjunto com Georg Gittler, o pesquisador aponta uma queda nos escores de inteligência espacial entre crianças de países de língua alemã, dos anos 70 a 2014. 

Flúor na água 

Se, realmente, há uma reversão do Efeito Flynn em curso, a culpa não é da adição de flúor na água distribuída pela rede pública brasileira. A fluoretação é uma medida adotada em várias partes do mundo. No Brasil, começou, de modo voluntário, em 1953, e tornou-se obrigatória, via lei federal, em meados da década de 70. Nessa mesma época, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a promover a medida. 

Nada disso aconteceu por acaso: desde a década de 40, diversos estudos mostram que a presença de íons de flúor na água de consumo reduz a incidência de cáries dentárias em crianças e adultos. Um levantamento mais recente, de 2007, estima que o poder da prevenção trazido pelo flúor, apenas em adultos, é da ordem de 30%. Internacionalmente, a concentração de flúor considerada ótima para esse efeito preventivo gira em torno de 0,7 miligrama por litro. 

Desde que a fluoretação passou a ser adotada internacionalmente como política de saúde pública, diversas questões referentes à segurança do procedimento foram levantadas – por exemplo, sobre os efeitos da água fluorada em pessoas com problemas renais, ou seu uso na preparação de mamadeiras. A preponderância da evidência indica que a fluoretação, com a meta de produzir uma concentração de 0,7 mg/L na água que chega à torneira, é segura. 

Há grupos, no entanto, que vão além da precaução científica e se opõem à mistura de flúor na água por razões políticas ou ideológicas. Alguns desses grupos aderem a complexas teorias de conspiração. Há alguns anos, um deles conseguiu fazer com que uma interpretação sensacionalista de um estudo sobre a presença natural de flúor na água, na China, fosse encampada e distribuída por uma agência internacional de notícias, como um alerta contra a fluoretação artificial. O mito de que a água fluorada reduz a inteligência das crianças nasceu aí. 

Flúor e QI 

Em 2012, artigo assinado por pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, e da China e da Dinamarca – comumente citado como “o estudo de Harvard” – apontou um possível risco neurológico para crianças expostas a água com taxas elevadas de flúor. “Taxas elevadas” sendo a expressão chave. 

O artigo é uma meta-análise de uma série de estudos, a maioria chineses, sobre exposição ao flúor e inteligência. Ele conclui que a presença de altos níveis de flúor da água estaria associada a uma perda de QI, na comparação com populações que bebiam água com menos flúor. A perda média constatada foi de 0,45 ponto. 

A questão do flúor é preocupante na China porque várias áreas do país têm a água, extraída de poços, naturalmente rica nesse elemento, e em concentrações muito mais elevadas que as atingidas na fluoretação artificial praticada no Ocidente – o artigo cita níveis de flúor de até 11,5 mg/L, dezesseis vezes superior à concentração da água fluorada para evitar cáries. 

A maior parte das populações consideradas em “alta exposição” nesse estudo contavam com concentrações de flúor na água de 2mg/L a 10 mg/L. Os grupos de controle – onde se constatou QI maior – tinham água com nível de flúor de 0,5 mg/L a 1 mg/L. A concentração usada na água fluorada, 0,7 mg/L, está dentro dessa faixa. 

Dois anos depois, foi publicado um trabalho realizado na Nova Zelândia que testou o QI de pessoas nascidas nos anos 70 na infância, na adolescência e na idade adulta, e comparou os resultados dos testes de QI com a exposição à água fluorada, a pastas de dente com flúor e ao consumo de pílulas de flúor na infância. Nenhum efeito negativo foi detectado. 

Os autores especulam que resultados como os do “estudo de Harvard” podem ter sido causados por “fatores de confusão”, jargão científico que se refere a variáveis que não foi foram controladas – por exemplo, um contaminante diferente, ou fatores socioeconômicos. 

Agora em 2017, foi publicado um estudo, envolvendo gestantes e crianças mexicanas, que encontrou uma associação entre a concentração de flúor na urina da mãe e baixo QI na infância. Interpretações alarmistas desse trabalho também têm feito a ronda das redes sociais. 

Os autores, no entanto, reconhecem que seus resultados são limitados por uma série de fatores, incluindo a “ausência de dados sobre o conteúdo de flúor na água”, já que o governo mexicano não mantém informações a respeito, e a falta de controle para outros possíveis contaminantes que poderiam, também, afetar o QI das crianças. 

“Nossos achados precisam ser confirmados em outras populações, e mais pesquisa é necessária para determinar como as concentrações de flúor na urina, medidas em nossa população de estudo, se relacionam à exposição ao flúor por suplementação intencional ou contaminação ambiental”, escrevem. 

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