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Costumo afirmar que a política não é tão óbvia quanto parece, e quando ela se mostra óbvia demais, devemos, por prudência, desconfiar de suas intenções e discursos. Uma das coisas que parecem óbvias aqui no Brasil — após décadas de criação intelectual à esquerda — é que o capital é sinônimo de opressão e o “capitalista” (empresário, industrial e aristocrata) sempre atua enriquecendo às custas do trabalho agoniante do proletariado; o capitalista faz isso, segundo o marxismo, com o único fim de manter a casta dos burgueses no poder e o proletário como subserviente de suas causas.

Sob essa leitura social, a esquerda se configura como a opositora dos detentores das grandes fortunas que escravizam e causam desigualdades desumanas; fortunas essas que alimentam as demandas burguesas e a direita política. Assim sendo, a esquerda é erigida na sociedade como o messias político que veio combater a frente “conservadora” e “rica”, os baluartes da opressão.

Esta interpretação social tradicional do marxismo, por sua vez, não parece mais satisfazer os olhares mais atentos dos analistas sociais, principalmente porque fica claro, atualmente, que a esquerda mundial é rica e sobrevive de grandes fortunas. E ela não é somente rica, mas em sua maioria é mantida e inflada pelas fortunas dos que anteriormente eram vistos como algozes e opressores da esquerda. Eu sei, paradigmático para aqueles socialistas mais ortodoxos, mas uma realidade crua. 

O socialismo capitalista

Analisando brevemente a história política moderna, vemos que a realidade comunista é bem mais politicamente incorreta do que nossos empolgados professores militantes nos contam. “Karl Marx, que viveu como pobre sustentado pelo amigo Friedrich Engels” — um industrial de origem abastada, um legítimo capitalista —, talvez não conseguisse dar continuidade às suas obras — principalmente O Capital —, se não fosse mantido pelo dinheiro capitalista de seu companheiro.

Se andarmos um pouco mais adiante na história moderna, veremos que muito provavelmente a revolução comunista bolchevique de novembro de 1917 não teria ocorrido sem o financiamento do capital alemão; Lênin recebeu 40 milhões de goldmark a fim de dar o golpe final nas esperanças dos reformistas do império russo e no governo provisório dos revolucionários burgueses. A missão de Lênin também era — além de derrubar o governo provisório — retirar a Rússia da primeira guerra mundial, guerra que estava dilacerando economicamente a Alemanha. 

As grandes fortunas capitalistas movem as revoluções comunistas, eis uma verdade que a história nos mostra de maneira inconteste. Tais revoluções comunistas não acontecem porque o proletário, cansado da opressão dos poderosos, resolve combater os detentores do capital; mas sim porque o capital o sustenta e o manda agir conforme as suas ordens. Não é contra o capital que o comunismo luta, mas através do capital. 

A própria organização comunista, como formatação estatal, não se diferenciou muito daquelas realidades criticadas pelos marxistas nas nações capitalistas e aristocráticas; os luxos considerados economicamente imorais, frente à pobreza dos operários, aconteceram em igual ou maior escala nos países considerados socialistas e “humanitários”.

Osvaldo Peralva, brasileiro que trabalhou no Kominform (serviço de informação soviético), em seu livro autobiográfico “O Retrato” denunciou a existência de palácios soviéticos lotados de revolucionários tidos como homens do povo, que não passavam, todavia, de aristocratas comunistas. Banquetes regados à champanhes e vodcas caríssimas, alimentos gourmets e vestes luxuosas, cercavam as grandes festas comunistas do partido bolchevique.

E, para não me estender muito nos exemplos, vou parar por aqui; não vou falar dos luxos de Cuba em suas cidades modelos em contraste com a pobreza do seu interior, também não falarei da Ilha de particular de Fidel; muito menos vou falar do palácio de Nicolás Maduro e sobre os luxo que cercam o ditador enquanto o seu povo come lixo com os cachorros para sobreviver. Preciso falar da alta cúpula do PT, PSDB, PMDB e afins? A realidade é aquela que os mais espertos já perceberam: “socialismo para eles, capitalismo para nós”. 

Quem financia as ideias da esquerda? 

E parece que essa realidade — preconizada pelos fatos citados acima — não mudou desde então; como apontei em: A revolução que não acabou: os ecos do comunismo na atualidade, a estratégia comunista mudou do campo militar e econômico para o sócio-cultural. O que outrora eram planos de invasões militares e anexações ao Estado único, agora é o plano de mudança de paradigmas morais, tomada de espaços políticos e pedagógicos.

Apesar de os campos de ações serem diferentes, a necessidade de capital é a mesma; não se faz revolução sem dinheiro. A partir disso começamos a perceber, então, que há grandes fundações bilionárias por trás das ideias socialistas, grandes fortunas que alimentam os seus teóricos e revolucionários profissionais. Fundações bilionárias como Open Society, Ford, MacArthur, Rockefeller, entre outras, são as grandes financiadoras da esquerda mundial atualmente. 

George Soros (dono da Open Society), é conhecido como o bilionário das causas socialistas. Foi ele, aliás, o grande financiador da campanha de Hillary Clinton; somente ele injetou por volta de 26 milhões de dólares na campanha da democrata.

As ONGs que apoiam causas como aborto, ideologia de gênero, cotas, causas feministas e militâncias análogas, sobrevivem dos financiamentos dessas fundações aristocráticas bilionárias; sem elas, muito provavelmente, tais instituições e movimentos sequer existiriam.

Documentos vazados em 2016 revelam a influência de George Soros nesse ramo, e como ele milita ativamente através de sua fortuna para mudar os paradigmas morais e políticos do Ocidente. Recomenda-se a leitura do ótimo texto de Bruno Garshagen sobre o assunto

Para derrubarmos esta estrutura capitalista opressora precisamos de capital

Bom, você poderá se questionar o porquê disso tudo: para qual fim esses bilionários iriam querer investir tanto dinheiro nas ideias revolucionárias esquerdistas. Ora, não é de hoje que a esquerda mundial percebeu que quem controla a cultura e monopoliza os princípios morais sobre o que é certo e errado, controla também a mentalidade social e pode fazer dela o que bem entender.

Esta é a causa do globalismo.

É mais fácil fazer revolução numa sociedade dúctil aos princípios previamente implantados — por mais tolos que sejam —, do que fazer uma revolução armada e tentar imputar tais ideias com a força do despotismo. 

Até Marx já havia percebido isso ao fim de sua vida e deixou indicações de que a cultura era o foco da revolução; a escola de Frankfurt assimilou tais indicações e teorizou as estruturas do socialismo moderno; Antonio Gramsci e Gyögy Lukács dedicaram seus estudos para desenvolver e explicar tais apontamentos para os socialistas racionais; Herbert Marcuse e Saul Alinsky fizeram dessas ideias expostas verdadeiros manuais práticos de ações de massas.

Por fim, vários setores, oficiais e paralelos, institucionais ou não, aplicaram — e ainda aplicam — tal modelo ideológico na prática, a fim de que o socialismo não seja uma mera oposição política, mas sim o éter ideológico que permeia a realidade de maneira total e uniforme, ou seja, a cultura oficial. A ideia é que muitos sejam ferrenhos socialistas sem sequer darem conta disso; quando isso ocorre, o globalismo já deu certo. Por isso, para muitos, o globalismo é um conto de conspiração, ele é uma realidade que permeia a cultura como um todo, para percebê-lo é preciso antes dissecar as suas raízes; olhar o pote do lado de fora. 

Pois bem, mas voltemos aos socialistas e seus romances proibidos com os capitalistas. O que muitos analistas políticos e marxistas doutrinais não entendem é que o dinheiro, em si, é um artigo amoral; isto é: ele pode ser usado tanto para causas boas como para causas más.

O dinheiro que hoje se investe no tráfico de drogas poderia ser bem investido em educação. O dinheiro dado pelo BNDES para construções e formações de carteis de empreiteiras em Angola, República Dominicana, Venezuela, Moçambique, entre outros países, poderia ser usado para o SUS.

Somente com financiamentos de obras em outros países, os governos petistas de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff gastaram 14,5 bilhões de dólares dos fundos nacionais do BNDES, fundos esses que são tirados dos salários dos cidadãos brasileiros; algo em torno de 47,9 bilhões de reais é o real gasto do BNDES com esses fins parvos desde 2002.

O governo petista, hoje bem sabemos, fez isso tão somente a fim de expandir os negócios das empreiteiras amigas e financiar ditaduras. Para termos uma ideia mais crua, somente da Venezuela o BNDES tem a receber 4,9 bilhões de reais, da Angola temo 6,5 bilhões de reais, dinheiro que obviamente não vamos receber de volta e ainda teremos que arcar com as dívidas. O governo gasta em suas tramas e depois nos manda a conta; é sempre assim. 

Entretanto, como vemos acima, o dinheiro não é o problema, o problema está na moralidade de quem o usa para fins infames. E parece que até Adam Smith teve essa impressão sobre o capital (HIMMELFARB, 2011, p. 79-80), afirma a historiadora Gertrude Himmelfarb. O comunismo deixou de lutar contra o grande capital e passou a servir-se dele. 

Os socialistas de mansões 

A esquerda brasileira é altamente aristocrática; os militantes bolcheviques muito provavelmente sentiriam vergonha em olhar para essa classe incrustada de ricos que, apesar de usarem broches de martelos e foices entrecruzadas, dormem em camas mais caras que muitas casas de operários.

Socialistas que compram vinhos mais caros que o salário mínimo do pobre trabalhador; que fumam charutos que custaram mais que um mês de aluguel em muitas cidades. A verdade é que a esquerda se banha nas riquezas dos grandes capitalistas, os criticam apenas para parecerem virtuosos seguidores do catecismo revolucionário tradicional; mas, no fim do dia, porcos e humanos estarão rindo e ceando no mesmo cômodo, como George Orwell bem previu em “A revolução dos bichos”. 

Em nada me incomoda a riqueza alheia, me incomodo apenas com a hipocrisia política dos ideólogos que de manhã criticam as grandes fortunas e a noite vão receber suas propinas nas casas dos aristocratas. Enquanto os ideólogos se conchavam com os capitalistas sem honras, muitos indivíduos, hipnotizados pelas palavras fortes e convincentes de seus líderes revolucionários, se entregam à turba das massas de maneira servil; tornam-se gados de uma causa falsa que nada mais compartilha com a sociedade a não ser o asco fétido da burla. Aos militantes pedem obediência para combater o capital, aos capitalistas pedem dinheiro para controlar a obediência dos militantes. Esse o ciclo eterno da política socialista! 

Hoje os grandes salões, os iates e restaurantes de luxo estão tomados por socialistas; enquanto que os conservadores, os pobres, aqueles que não têm tempo para mudar a moral do vizinho ou se preocupar se o Ricardo se sente como Ana, estão trabalhando 12 horas por dia para colocar pão e leite na mesa. Para a maioria dos estudantes das universidades federais, o burguês é esse que ganha R$ 900 por mês e diz que quer votar no Bolsonaro, e não o que recebe R$ 33.763,00/mês e faz campanha para o Lula — “pai dos pobres”. 

Os conservadores das periferias

O pobre é conservador porque ele aprendeu a valorizar aquilo que foi conquistado com suor e trabalho; é o pobre que aprende a remendar com retalhos, o rico compra roupas novas. O rico não precisa conservar, ele sempre compra fresco, sejam ideias novas ou novos carros.

Os socialistas de mansões são esses que, por se mancomunar com as grandes fortunas, acusam aqueles que guardam princípios morais de serem fascistas, pois para eles a moral é como artigos de vestuário, depois que sai de moda, o que resta é desvencilhar-se delas. Agora é possível compreender por que a Marilena Chauí odeia a classe média, não é mesmo? 

Um paradigma interessante: os ricos são socialistas e fazem suas fortunas dizendo que estão a lutar pelos pobres, no entanto os pobres são conservadores e pouco se importam com as mudanças morais, culturais e sexuais propostas pelos ideólogos de esquerda.

O pobre quer menos Estado e mais liberdade para evoluir e crescer, enquanto os porta-vozes autointitulados da esquerda dizem que a solução é mais Estado e menos liberdade. Talvez a resposta seja que o pobre sabe o que é digno, moral e honroso na prática; enquanto eu os socialistas de mansões divagam sobre as teorias de uma nova moral; o pobre precisa pagar suas contas, o socialista de mansão manda os boletos para seus financiadores. 

Por fim, a diferença está entre aqueles que vivem a política e a sociedade real e aqueles que vivem a política através das universidades, internet e televisão. Os que vivem a vida na prática sabem o que é a violência, pois eles vivem com medo todos os dias sem ter seguranças particulares para defendê-los; eles sabem o que é economia, pois têm que sustentar 5 pessoas com 900 reais; sabem o que é moral, pois têm que educar 4 crianças para serem cidadãos honrados. Enfim, o povo vive a realidade crua, sem filtros marxistas, discursos universitários, e prévias interpretações jornalísticas de especialistas da TV a cabo; enquanto que os socialistas de mansões vivem a política por trás de seus notebooks; comentam aquilo que eles ouviram durante 4 anos nas universidades, ou aquilo que eles viram das janelas de seus apartamentos no Leblon ou no Morumbi.

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