Karol Conká: quer haja ou não motivos para isso, ninguém está preparado para ser odiado. E a ciência ajuda a explicar o porquê.
Karol Conká: quer haja ou não motivos para isso, ninguém está preparado para ser odiado. E a ciência ajuda a explicar o porquê.| Foto: Reprodução/ TV Globo

O tombo foi grande - e foi recorde. Na última terça-feira (23), a rapper curitibana Karol Conká foi eliminada do reality show Big Brother Brasil com 99,14% dos votos. Em um mês dentro da casa, a autora do refrão “já que é pra tombar, tombei” (que lhe rendeu um calhamaço de memes) angariou a maior rejeição popular da história do programa.

Motivos não faltaram para tanta reprovação. Militante aguerrida de pautas progressistas como o feminismo e o antirracismo em suas versões mais extremas (a cantora já publicou em seu Instagram que “quase todas as pessoas brancas são racistas, ainda que não queiram”), Conká transpirou crueldade e arrogância durante sua estadia no reality. Humilhou o ator Lucas Penteado (que, diga-se de passagem, é negro), impedindo-o de sentar à mesa, caçoou do sotaque e do tratamento de saúde mental da paraibana Juliette, entre outros episódios dignos de uma vilã de folhetim.

O baque da queda vertiginosa, contudo, doeu no bolso. Calcula-se que a rapper tenha perdido cerca de 5 milhões de reais, em shows cancelados e contratos de publicidades desfeitos. A nova temporada do programa “Prazer Feminino”, do qual Conká participa no canal GNT, foi adiada. Um clipe, que deveria ser lançado ao longo do programa, não foi ao ar.

“No mercado da influência, o produto é ela, não a música. As pessoas tinham um conjunto de expectativas, imaginavam um perfil que entrou em contradição. Nenhum patrocinador quer se associar a polêmicas e quando o influenciador infringe essa a regra de ouro, é como se estivesse quebrando o contrato”, explica o professor de marketing Ricardo Poli.

Pedido de desculpas

No dia seguinte à eliminação, em entrevista à apresentadora Ana Maria Braga, Conká expressou arrependimento: disse que “sabia que estava errada” e que foi “invadida por uma amargura”. “A vilã que vocês viram não é real do lado de fora. (...) Eu surtei dentro da casa, me despertaram demônios, reconheço o meu erro e vou tentar melhorar”, afirmou. Do lado de fora, o pedido de desculpas foi recebido com desconfiança.

“O pedido soou falso porque uma pessoa demora algum tempo para ter consciência completa dos próprios erros, considerando a frequência com que ela os cometeu no programa”, avalia o psicólogo João Paulo Borgonhoni. “É impossível não pensar que ela já tinha esse comportamento. A Karol sabe quais foram suas intenções, mas nós só vemos os atos”, explica.

“Existem dois níveis de arrependimento. O primeiro é aquele no qual se sente algo como: ‘você diz que eu te machuquei, eu acredito e por isso peço desculpas’. O segundo nível é a consciência do tamanho da besteira feita. A impressão é a de que ela está no primeiro nível, o que não significa que não tenha sido sincera. O arrependimento profundo é uma pressão psicológica sufocante, e para saber se ela está realmente arrependida, teremos que acompanhá-la por algum tempo”, completa.

Ninguém está preparado para ser odiado

Quer haja ou não motivos para isso, ninguém está preparado para ser odiado. E a ciência ajuda a explicar o porquê. “Ao longo da história evolutiva, evitar a rejeição social e permanecer socialmente conectado a outras pessoas provavelmente aumentou as chances de sobrevivência, pois fazer parte de um grupo fornecia recursos, proteção e segurança adicionais”, escreveu neurocientista Naomi Eisenberg, da Universidade da Califórnia, líder do estudo considerado um marco de sua área que revelou que a dor da rejeição social, no cérebro, é equiparável à da dor física.

“A pesquisa em neurociência mudou fundamentalmente a maneira como entendemos as experiências de rejeição social, demonstrando que parte da mesma neuroquímica e circuitos neurais que estão por trás da dor física também estão por trás da dor social. Uma das implicações dessas descobertas é que episódios de rejeição ou dissolução de relacionamento podem ser tão prejudiciais e debilitantes para a pessoa que vivencia esses eventos quanto episódios de dor física”, explica a pesquisadora.

“Esse nível de rejeição é um estado muito solitário, porque quase ninguém mais gosta de você. E é muito difícil que alguém esteja preparado para esse tipo de rejeição brutal”, explica Borgonhoni.Uma pessoa rejeitada por um erro grave será muito observada. Em princípio, ela terá que aguentar o tranco pedir desculpas e ouvir ‘eu não confio’ em você sem reagir. Também é preciso ter um plano de ação: o cara que traía a esposa dizendo que estava no happy hour não pode mais ir ao happy hour. Tem que dar uma garantia”.

Do ponto de vista do mercado, a estratégia para lidar com a rejeição pode ser o silêncio. “O caso dela é complicado porque a condenação pública veio por meio de fatos, não de suspeitas”, diz Ricardo Poli, que compara o caso com o do golfista Tiger Woods, protagonista de inúmeras traições conjugais que renderam centenas de manchetes. “Ninguém viu o Tiger Woods trair a mulher ao vivo, em rede nacional, várias vezes. Ela não foi treinada para o Big Brother. O mais inteligente seria recolher o time, dar um tempo e, se assim quiser, voltar com uma nova proposta”.

Outros participantes com fama pregressa, como o rapper Projota e o ator Fiuk, também patinam na opinião pública. Para Borgonhoni, a diferença do cotidiano de um artista para a vida privada sob câmeras ajuda a explicar algumas das polêmicas. “O artista tem uma equipe controlando sua imagem, tem comida pronta, seguranças, todo mundo quer autógrafo, tudo está no lugar quando ele precisa. Eles deveriam ter entrado no jogo cientes de que seriam vistos como pessoas privadas. E de perto ninguém é normal”.

Linchamento versus perdão

O peso da reprovação do público já afetou a vida de outros participantes do programa. Antes de Karol Conká e Nego Di, o comediante que deteve o recorde de rejeição (98,6%) por uma semana, o posto de sister mais odiada do reality pertencia à carioca Aline Cristina. Eliminada em um paredão com a modelo e atriz Grazi Massafera na edição de 2005, durante sua estadia na casa, Aline ganhou fama de fofoqueira e falsa. Saiu com 95% dos votos. Até aí, parte do jogo.

Ocorre que a ex-BBB passou a ser alvo de xingamentos nas ruas e teve a casa pichada. Ela precisou se mudar para São Paulo, onde prestou concurso público para trabalhar como carteira. Em 2018, venceu um processo contra o extinto portal Ego, alegando “direito ao esquecimento”.

Ainda que a responsabilidade pela fama conquistada nas telas recaia sobre a ex-sister, o dano pessoal e psicológico de todo o processo é imensurável. Só que, ao contrário de Conká, que tem recursos para contratar um belo time de terapeutas e gestores de crise, Aline, do subúrbio carioca, teve que lidar com o “cancelamento” sozinha. O que não significa que a nova recordista não seja alvo de ações injustificáveis: na entrevista à TV Globo, a cantora relatou também que sua mãe e seu filho sofreram ameaças, já reportadas à polícia.

Para além de estratégias de reposicionamento, a última via que pode unir Karol Conká e seu séquito de militantes grosseiros ao espectador do Big Brother Brasil é o perdão - que deveria ser exercitado mesmo por quem apertou o botão de voto pela saída da cantora. “A verdade é que nós não conseguimos praticar o pedido de desculpas que exigimos da Karol. Não estamos dispostos a escutar vítimas de nossas ações sem reagir. Falta à Karol um brother que seja capaz de sentar num bar e dizer ‘que m* você fez, hein?’. E ainda assim, ficar ao lado dela”, completa Borgonhoni.

Do ator Lucas Penteado, vítima dos “surtos” da rapper, Conká recebeu apoio virtual. "O BBB é um jogo. Tudo é diferente, é em outra dimensão. Não desejo a ninguém o ódio e a violência. Quem repudia o que eu vivi, deve agir diferente. Desejo a Karol acolhimento, da família e de quem a ama, e desejo ainda mais aprendizado e recomeço! Todo mundo merece recomeçar", escreveu o ex-participante.

Quer o tuíte tenha sido mais uma das jogadas de marketing ou não, não deixa de ser um passo virtuoso em tempos em que há paladinos da moral ditando as regras da rede sem reconhecer as próprias falsas. Por todos os tombos aos quais estamos cotidianamente expostos, cabe a frase do comentarista político Douglas Murray: “você não quer viver em um mundo onde não se pode ser perdoado”.

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