Monumento a Lênin, em Moscou
Monumento a Lênin, em Moscou| Foto: Pixabay

A deputada federal Talíria Petrone, que também se diz historiadora, publicou no Twitter uma homenagem a Vladimir Ilyich Ulyanov, mais conhecido como Lênin, o líder da Revolução Bolchevique, que deu origem a um dos regimes mais assassinos do século XX — e olha que a concorrência é grande, já que foi um século profícuo em regimes assassinos.

“Há 96 anos perdíamos Lênin, o principal líder da revolução russa de outubro de 1917. O cara que ousou substituir o poder do Czar, o Rei, pelo de Conselhos de Operários, Soldados e Camponeses - os Soviets. A revolução foi traída, mas Lênin, pelo exemplo e pelos escritos, é eterno”, escreveu ela. Quando questionada sobre o caráter totalitário e assassino do homem que liderou o Terror Vermelho, Petrone dobrou a aposta: “Compararam, absurdamente, Lênin a Hitler, lembro: liberais, sociais-democratas e conservadores estavam do lado da guerra mundial, com 10 milhões de mortos, enquanto Lênin defendia: paz, pão, terra. Após a vitória da REVOLUÇÃO assinou Tratado de Paz para o povo. Hitler era guerra!”.

Petrone faz parte do minúsculo e estridente Psol, o partido das contradições, aquele que defende socialismo e liberdade, que defende a democracia e presta rapapés a ditadores, que é pela liberdade de expressão, desde que ela não atinja os que considera oprimidos, e que é contra o capitalismo, mas vende camisetas politicamente conscientes na Internet. E, antes que o PSol venha dizer que a homenagem a Lênin foi uma iniciativa individual e isolada de Petrone, vale dizer que o perfil oficial do partido no Twitter também celebrou os 96 anos do monstro bolchevique com um vergonhoso, mas revelador, “viva os comunistas!”.

Falência do ensino

Tudo no episódio é revoltante e assustador, mas também digno de pena. Porque as manifestações da deputada e do partido do qual ela faz parte revelam como os professores de história das últimas décadas fracassaram em seu intento de transmitir o conhecimento com base em fatos, por um lado, e foram bem-sucedidos em seu intento de criar uma massa de manobra que viesse até a ocupar cargos no Legislativo, por outro.

É preciso usar a imaginação para refletir a respeito de como Talíria Petrone, que se formou em história pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), isto é, com dinheiro público, foi capaz de chegar aos 34 anos de idade defendendo desavergonhadamente um facínora como Lênin.

Que ela tenha ignorado a queda do Muro de Berlim e o colapso do regime soviético é compreensível. Afinal, Petrone era uma menina de cinco anos quando manifestantes jovens, sedentos de capitalismo e liberdade, foram às ruas e, a marretadas, demoliram a fortaleza que mantinha os alemães orientais confinados ao “paraíso”. Dois anos mais tarde, Petrone ainda brincava com a opressora Barbie quando a União Soviética revelava a podridão, miséria e tristeza de 74 anos de comunismo.

Ao longo da década de 1990, contudo, à medida que avançava pelos anos escolares, Petrone foi, conscientemente ou não, sucessivamente traída por professores de história incapazes de falar honestamente sobre Lênin, o Terror Vermelho, o assassinato do Czar e de toda a sua família, inclusive crianças, a ascensão de Stálin, os gulags, o pacto Ribbentrop-Molotov, a falsa prosperidade, o medo, enfim, sobre todas as coisas que caracterizam a grande experiência comunista da União Soviética.

O ensino de história básica foi tão falho que a jovem Petrone, ignorando todas as provas documentais de que Lênin foi um dos seres mais abjetos a caminhar por este planeta, comparável, sim, a Hitler, prestou vestibular para o concorrido curso de... história na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lá, novamente falharam com a estudante que obteve o seu diploma com a tese “Perspectivas educacionais no pensamento dos intelectuais eugenistas”, sob orientação de Sônia Câmara.

O telegrama

Vale perguntar como uma pessoa obtém um diploma e estufa o peito para se dizer historiadora, afinal de contas é isso o que diz o carimbo do MEC, sem jamais ter se deparado, por exemplo, com o famoso telegrama que Lênin enviou aos seus camaradas em Penza, ordenando o enforcamento público de pelo menos 100 kulaks (camponeses bem-sucedidos), a publicação extensiva de seus nomes e o confisco da colheita. “Use os mais valentes para isso”, conclui Lênin.

O telegrama assusta por ter sido escrito naquele tom burocrático que tão bem caracteriza essa gente que se acha capaz de melhorar a sociedade, melhoramento esse que necessariamente passa pelo assassinato dos “inimigos”. Suas poucas linhas revelam a brutalidade racional de Lênin e de seu ideário — por sinal o mesmo do PSol. Sob o comando dele, estima-se que 28 mil pessoas tenham sido executadas por ano entre 1917 e 1922.

Outro episódio marcante que passou despercebido pela historiadora Petrone, bem como por seus orientadores durante os 4 anos do curso de bacharelado e licenciatura em história pela UFRJ, foi massacre de Kronstadt. Em 1921, camponeses, operários e soldados, isto é, os “oprimidos” que os bolcheviques juravam exaltar e defender, se revoltaram contra as políticas do governo. Lênin ordenou que a rebelião fosse esmagada com toda a força do mundo. Em dez dias, cerca de 10 mil pessoas morreram por se opor ao paraíso prometido por Lênin e seus camaradas.

Por sorte, um já debilitado Lênin sofreu um derrame. Com dificuldades para falar e se locomover, a besta ainda sobreviveu por quase um ano, até finalmente morrer no dia 21 de janeiro de 1924. Venerado por milhões de soviéticos (forçados a idolatrá-lo), o corpo de Lênin foi embalsamado e até hoje permanece aberto à visitação pública na Praça Vermelha. Alguns veem aquele corpo macabramente exposto como um exemplo dos horrores que o ser humano é capaz de perpetrar em nome de uma ideologia nascida do ressentimento e da inveja.

Outros, como Petrone e seus companheiros de Psol, insistem em vê-lo como líder de um projeto eugenista que usa ideais nobres como “paz, pão e terra” para impor uma ideologia mentirosa de guerra e fome.

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