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Fotografia de 1995 mostra os restos mortais de algumas vítimas do Khmer Vermelho em um memorial no noroeste do Camboja | DOUG NIVENAFP
Fotografia de 1995 mostra os restos mortais de algumas vítimas do Khmer Vermelho em um memorial no noroeste do Camboja| Foto: DOUG NIVENAFP

Há 20 anos, no dia 15 de abril de 1998, Pol Pot, o líder do governo que promoveu o genocídio no Camboja durante os anos 1970, morreu enquanto dormia aos 73 anos de idade. Pol Pot, cujo nome real era Saloth Sar, nunca foi responsabilizado pelos crimes que cometeu durante os três anos, oito meses e 20 dias durante os quais o partido revolucionário comunista Khmer Vermelho submeteu a população cambojana a um reino do terror. Quase dois milhões de pessoas, ou um quarto da população do país, morreu de fome, doenças e execuções nesse período. 

Em busca de verdade e justiça, muitos sobreviventes depositaram confiança nos julgamentos assessorados pelas Nações Unidas na capital do país, Phnom Penh. Convocado em 2006, o tribunal sentenciou o diretor do maior centro de tortura do período, Kaing Guek Eav, conhecido como o Duch, à prisão perpétua.  

A segunda decisão do tribunal está próxima e a expectativa é que outros dois líderes do partido também recebam sentenças de prisão perpétua. Depois disso é possível que o tribunal seja fechado e que os juízes e advogados das Nações Unidas voltem para casa. É um exemplo clássico de “justiça atrasada é justiça negada”. 

Pelos últimos 30 anos, estudei as respostas legais, políticas e literárias para o genocídio do Camboja. A literatura – com relatos escritos pelos próprios sobreviventes – mostra como quebrar o silêncio e falar em nome daqueles que morreram foi uma forma que muitos encontraram na busca por justiça e cura.

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 Os campos de morte  

Dois textos importantes, “A Cambodian Odyssey” (Uma Odisseia Cambojana), de Haing Ngor, e “A Cambodian Prison Portrait” (O retrato de uma prisão no Camboja), de Vann Nath, revelam os eventos extraordinários que levaram à sua escrita e publicação, assim como as razões dos autores para registrar seus testemunhos literários. 

Antes do Khmer Vermelho tomar o poder em 17 de abril de 1975, Haing Ngor era um ginecologista de sucesso em uma clínica médica em Phnom Penh. Durante o genocídio, Ngor foi preso e torturado pelo Khmer Vermelho em três ocasiões diferentes. Em cada uma delas, a esposa de Ngor, Huoy, cuidou dele até que se recuperasse do estado que o havia deixado à beira da morte. Ironicamente, Huoy morreu no parto, porque Ngor não tinha equipamentos médicos básicos para salvar a vida dela e do primeiro filho que eles teriam. 

Ngor conseguiu sobreviver ao genocídio. Ele foi para os Estados Unidos como refugiado e se restabeleceu em Long Beach, na Califórnia, que abriga a maior parcela de população cambojana nos EUA. Porém, ele continuou a se culpar por não conseguir salvar a vida de Huoy. 

No começo dos anos 80, o primeiro filme sobre o genocídio cambojano, "Os gritos do silêncio", foi feito com base em um livro escrito pelo correspondente de guerra do jornal New York Times, Sydney Schanberg, que cobriu a Guerra do Vietnã de Phnom Penh. Na seleção de elenco, o papel de Dith Pran, o tradutor de Schanberg, foi dado para Ngor, escolhido entre vários homens presentes em um casamento cambojano em Los Angeles.

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Apesar de não ter uma experiência em atuação, Ngor ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 1985. A fama conquistada com o prêmio fez com que ele deixasse de ser um sobrevivente anônimo para se tornar a testemunha mais proeminente do genocídio do Camboja. 

Dois anos depois, a Warner Books publicou seu testemunho literário de 500 páginas, onde ele descreve as condições extremas do governo do Khmer Vermelho e relata especialmente sua relação com Huoy, do momento que eles se conheceram até o fim trágico que tiveram durante o genocídio. 

Escrever sobre a morte sem sentido de Huoy foi essencial para o processo de cura de Ngor. O novo status dele como um ator vencedor do Oscar deu a ele a plataforma que precisava para contar a verdade sobre os crimes do governo do Khmer Vermelho. Ao identificar as vítimas e os perpetradores do genocídio, ele tentou cumprir a responsabilidade que tinha com Huoy e outros membros da sua família que foram mortos. Na introdução do livro, ele afirma:  

"Eu já fui muitas coisas na vida: um médico… um ator de Hollywood. Mas nada moldou tanto minha vida como sobreviver ao regime de Pol Pot. Eu sou um sobrevivente do holocausto cambojano. É isso que eu sou". 

Retrato da Prisão 

O segundo livro que quero enfatizar é “O Retrato de uma Prisão no Camboja”, escrito por Vann Nath, que era pintor até o Khmer Vermelho tomar o poder em 1975. Durante o genocídio, Nath foi preso e levado para a prisão Tuol Sleng, onde aproximadamente 15 mil pessoas foram forçadas a confessar crimes que não cometeram e, posteriormente, executadas. Nath foi poupado no último instante para que pintasse retratos de Pol Pot. 

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Quando o regime do Khmer Vermelho foi retirado do poder por forças vietnamitas, a prisão Toul Sleng foi transformada em um museu para mostrar para o mundo as atrocidades que ocorreram ali durante o genocídio. Como um dos sete prisioneiros que se sabe terem sobrevivido a Toul Sleng, Nath foi convidado a pintar cenas de tortura e execução que ele testemunhou para serem expostas no museu. 

Profundamente traumatizado pelo ano que passou na cadeia, Nath tentou mais tarde reconstruir sua vida destroçada e abriu um pequeno café no centro de Phnom Penh. Dois trabalhadores de ajuda humanitária que frequentavam o café ficaram amigos de Nath e o convenceram a contar sua história: o resultado foi o livro “O Retrato de uma Prisão no Camboja”, publicado em 1998. 

Em 2009, Nath também testemunhou no julgamento de Duch, o diretor da prisão Toul Sleng. Da mesma forma que Ngor, relatar o período de horror que viveu serviu para cumprir uma responsabilidade profunda que Nath sentia de falar como representante daqueles que sofreram e morreram durante o regime de Khmer Vermelho. 

Descobri em minha pesquisa que, ao publicar seus relatos pessoais, sobreviventes tentam preencher um sentimento profundo de responsabilidade de falar por aqueles que morreram. Ao fazer isso, eles começam a firmar algum controle sobre as memórias traumáticas que assombram suas vidas. Esses escritores agem contra o esquecimento, na esperança que o mundo nunca permita que outro Pol Pot tente silenciar a voz das pessoas.

*George Chigas é professor sênior em Estudos do Camboja na Universidade de Massachusetts Lowell.

Traduzido por Gisele Eberspächer
©2018 The Conversation. Publicado com permissão. Original em inglês.

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