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O novo mapa político está sendo redesenhado em torno dessa nova divisão entre o socialismo cultural e o liberalismo cultural.
O novo mapa político está sendo redesenhado em torno dessa nova divisão entre o socialismo cultural e o liberalismo cultural.| Foto: Bigstock

A disputa entre as economias socialistas e liberais foi algo que definiu o século passado. Este século tem uma versão própria dessa luta. A guerra cultural de hoje coloca os defensores dos resultados iguais e da proteção especial a grupos identitários contra os defensores do devido processos legal, tratamento igualitário, razão científica e liberdade de expressão. Nosso mapa político está sendo redesenhado em torno dessa nova divisão entre o que chamo de socialismo cultural e liberalismo cultural.

O socialismo cultural, que valoriza resultados iguais e privilegia a proteção a grupos identitários, e não os direitos individuais, prevê o uso de uma pedagogia racial e castigos duros para discursos controversos. Baseada na ideia de que grupos historicamente marginalizados são sagrados, essa corrente não é uma moda passageira. Apesar da existência de cartas abertas, associações, universidades e da imprensa defendendo a liberdade de expressão, os jovens seguidores do socialismo cultural aos poucos estão fazendo estragos no ethos liberal do mundo adulto.

Dados presentes no meu mais recente relatório para o Manhattan Institute, intitulado “A Política da Guerra Cultural nos EUA Contemporâneos”, mostram o tamanho do problema. Enquanto os norte-americanos em geral apoiam o liberalismo cultural numa proporção de dois para um, a maioria dos norte-americanos com menos de 30 anos tende ao socialismo cultural.

Um exemplo: enquanto 65% dos norte-americanos com mais de 55 anos se opõem à decisão do Google de demitir James Damore por ter questionado o programa de treinamento em igualdade de gênero da empresa, os norte-americanos com menos de 30 anos apoiam a demissão por uma margem de 59%-41%.

Disparidades semelhantes aparecem entre os jovens e os mais velhos em casos marcantes da cultura do cancelamento, como o ostracismo imposto a Gina Carano (atriz demitida da série Star Wars por publicações nas redes sociais) e Brendan Eich (ex-CEO da Mozilla demitido em 2014 por se opor ao casamento gay em 2008). Somente uma parte dessa disparidade está relacionada ao fato de os jovens tenderem à esquerda. Jovens centristas, por exemplo, apoiam a decisão do Google por uma margem de 61%-39%, enquanto centristas com mais de 55 anos reprovam o Google por uma margem de 58%–42%.

Quanto ao uso da teoria racialista nas escolas, a disparidade é parecida. Oito em cada dez pessoas com mais de 55 anos se opõem à ideia de ensinar as crianças que os Estados Unidos foram fundados com base no racismo e permanecem sistematicamente racista ou que o país foi construído numa terra roubada. Já a maioria dos jovens apoia o ensino disso.

A oposição à aplicação da teoria racialista nas escolas soa como algo antiliberal e, de fato, o ensino compulsório dela viola dois princípios liberais: primeiro, o de que os alunos ou funcionários sob treinamento não devem ser obrigados a concordar com ideias nas quais não acreditam; em segundo lugar, o de que as pessoas não devem ser tratadas de forma diferente por causa de sua raça. Tentativas recentes de se limitar o acesso dos brancos aos medicamentos anti-Covid-19 por parte de alguns estados são outro exemplo dessa tendência.

Outro front na guerra cultural é a censura, geralmente justificada com base no argumento de que certos discursos causam danos psicológicos a minorias e também na ideia de que o poder desse ver redistribuído para “grupos marginalizados”. Os ativistas que defendem esse tipo de censura organizam manifestações nas redes sociais e fazem campanhas de linchamento virtual, acusando seus opositores de racismo, homofobia e transfobia a fim de arruinar a reputações deles e fazer com que sejam demitidos. O problema é grave sobretudo no ensino superior: a quantidade de acadêmicos que sofreram uma campanha de cancelamento aumentou exponencialmente nos últimos anos.

Os jovens são os que mais temem a cultura cancelamento. Dentre os empregados com menos de 30 anos, 45% temem perder o emprego “porque alguém interpretou mal algo que você disse ou fez, tirou isso do contexto ou publicou algo do seu passado nas redes sociais”. Somente 29% das pessoas com mais de 55 anos compartilham desse temor.

Esse medo, contudo, não parece fazer com que os jovens se oponham à cultura do cancelamento. A maioria dos millennials e da chamada Geração Z não é de liberais culturais com medo de expressar suas crenças. Ao contrário, muito preferem a igualdade cultural à liberdade. Por uma margem de 48%–27%, as pessoas com menos de 30 anos concordam que “meu medo de perder meu emprego ou reputação por causa de algo que eu disse ou publiquei online é o preço a se pagar para proteger grupos historicamente marginalizados”. Já o grupo com mais de 55 discorda dessa afirmação por uma margem de 51%–17%. Sim, os jovens têm ao mesmo tempo mais medo e apoiam mais a cultura do cancelamento do que os grupos mais velhos.

O abismo geracional se estende a questões mais gerais. Diante da pergunta “Pensando no politicamente correto, você costuma concordar (o politicamente correto protege as pessoas da discriminação) ou discorda (o politicamente correto limita a liberdade de expressão)?”, os pesquisados com menos de 30 anos apoiam o politicamente correto por uma margem de 50%–29%. Os pesquisados com mais de 55 anos se opõem por uma margem de 47%–30%.

Esses números refletem o que acontece nos campi universitários, de onde surgiram essas tendências. Num relatório de 2021 do Center for the Study of Partisanship and Ideology, descobri que os acadêmicos norte-americanos, canadenses e britânicos com menos de 35 anos têm duas vezes mais chance do que os com mais de 55 anos de denunciar descobertas que possam ofender as minorias. Um estudo recente descobriu que sete em cada dez alunos dizem que os professores devem ser denunciados se disserem algo ofensivo. Uma pesquisa da Foundation for Individual Rights in Education com 57 mil universitários descobriu que quase oito em cada dez deles se opõem à ideia de a universidade onde estudam permitir a presença de um professor que diga, por exemplo, que o Black Lives Matter é um grupo de ódio ou que o transgenderismo é um transtorno mental.

Se você acha que esse autoritarismo progressista entre os jovens é só uma fase, está enganado. Analisando tendências no apoio à liberdade de expressão na General Social Survey, cujo levantamento é feito anualmente desde 1972, os cientistas políticos Dennis Chong, Jack Citrin e Morris Levy descobriram que os jovens de hoje são muito menos tolerantes aos discursos que afetam grupos identitários. “Num retrocesso impressionante”, escrevem eles, os esquerdistas “agora são consistentemente menos tolerantes do que os conservadores quando se trata de vários temas controversos, sobretudo os que envolvem raça, gênero e religião”.

Os Estados Unidos ainda têm dois liberais culturais para cada socialista cultural. Questões como a teoria racialista e a cultura do cancelamento dividem os Democratas e unem os Republicanos, pressionando os partidos a resistirem ao socialismo cultural. Vinte por cento dos Democratas, um terço dos independentes e quase metade dos Republicanos hoje dizem que a guerra cultural é um assunto de suma importância, de acordo com minha pesquisa. A herança liberal clássica em que se baseia nosso sistema jurídico não comove os jovens porque ela não foi reafirmada por meio de histórias, filmes ou por meio da educação formal. Precisamos ressuscitar urgentemente essa tradição perdida – antes que seja tarde demais.

Eric Kaufmann é membro adjunto do Manhattan Institute e professor de ciência política na Universidade de Londres, além de membro do Center for the Study of Partisanship and Ideology.

©2022 City Journal. Publicado com permissão. Original em inglês 
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