Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
  • Ícone FelizÍcone InspiradoÍcone SurpresoÍcone IndiferenteÍcone TristeÍcone Indignado
Cartaz com dissidentes políticos
Cartaz com dissidentes políticos, 1976| Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo

Dois anos após o começo do regime militar no Brasil, grupos armados de esquerda começaram uma articulação que colocou o país em um estado de guerra civil não-declarada. Entre 1966 e 1974, a esquerda armada roubou 3,8 milhões de dólares — valor que fez da guerrilha brasileira a mais rica do mundo na época. No auge das ações, entre 1968 e 1971, os militantes assaltaram 154 bancos e carros-fortes.

A atuação também envolvia atentados: os grupos realizaram cerca de 40 atentados a bomba, sequestraram oito aviões comerciais e quatro diplomatas (único momento da história em que houve sequestro de embaixadores no Brasil).

Abaixo, os principais grupos da esquerda armada brasileira e suas ações durante o regime militar.

Aliança Libertadora Nacional (ALN)

Umas das principais organizações da esquerda armada, a Aliança Libertadora Nacional (ALN) foi criada em 1968 por Carlos Marighella, Joaquim Câmara Ferreira e Virgílio Gomes da Silva, dissidentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB). O objetivo do grupo era combater o regime militar com luta armada e instaurar um “governo popular revolucionário” no Brasil.

A origem do grupo está na dissidência de Marighella ao PCB. Em 1966, ele publicou um artigo defendendo a luta armada para instaurar um regime de esquerda no Brasil. A ideia era contrária aos objetivos do PCB, que defendia vias pacíficas. No ano seguinte, Marighella foi expulso do PCB e, um ano depois, criou a ANL.

O grupo operava como guerrilha urbana, recorrendo a assaltos a bancos para a obtenção de fundos. A organização também foi responsável por atentados com explosões e sequestro de embaixador norte-americano, Charles Burke Elbrick, e do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, trocado por 44 presos políticos. A ALN aplicava táticas de guerrilha também aos membros internos: militantes considerados traidores ou dissidentes eram executados nos chamados “justiçamentos”.

A ALN começou a enfraquecer após a morte de Marighella, em 1969. O processo de dissolução começou em 1971, com a prisão de Joaquim Câmara Ferreira, último líder da organização. Após o fim da ALN, uma parte dos remanescentes ingressou no PCB e outra parte entrou para a equipe da revista Debates, publicada no exterior. Esta última facção deu origem à União dos Comunistas.

Vanguarda Popular Revolucionária (VPR)

Movimento político-militar, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) era formada majoritariamente por estudantes e ex-militares dissidentes da Política Operária (Polop) e ex-integrantes do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR).

A VPR se organizava em células de três militantes que não tinham comunicação umas com as outras. Um membro de cada célula integrava um escalão superior, também formado por três pessoas. Essa sucessão seguia até o nível mais alto da organização.

Assim como a maioria dos grupos de esquerda armada, a VPR praticava assaltos a bancos para financiar as atividades. O grupo teve participação no sequestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, realizado em 1970, em uma ação conjunta com a ALN.

A organização focava em ações militares. Na mais famosa delas, em 1969, o capitão do Exército Carlos Lamarca passou para a clandestinidade levando 63 fuzis FAL, dez metralhadoras Ina e munição do quartel do 4º Regimento de Infantaria, em Quitaúna, São Paulo. Principal capitão da VPR, Lamarca rompeu com a organização em 1971 e passou a integrar o MR-8.

A VPR sofreu crises internas devido a discordâncias de atuação. O setor militar defendia a luta armada, enquanto o setor intelectual afirmava que era necessário um trabalho inicial de conscientização lenta e gradual das massas. As divergências levaram à fusão, em 1969, da VPR com o Comando de Libertação Nacional (Colina), dando origem à Vanguarda Armada Revolucionária - Palmares (VAR-Palmares).

O grupo encerrou as atividades após 1972, quando José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo, assumiu a liderança. Suspeito de ser policial infiltrado, Anselmo foi o único sobrevivente de uma ação policial que dizimou seis membros da VAR em Recife naquele mesmo ano.

VAR-Palmares

A Vanguarda Armada Revolucionária - Palmares (VAR-Palmares) foi uma organização político-militar surgida a partir da fusão entre o Comando da Libertação Nacional (Colina), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e outros grupos revolucionários do Sul do país e da Bahia.

A ação mais famosa do VAR-Palmares foi o roubo ao cofre do ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros, que rendeu ao grupo pelo menos 2,5 milhões de dólares. O também grupo planejou o sequestro do Ministro da Fazenda, Delfim Neto, mas membros foram presos antes da ação.

O grupo surgiu durante o ápice do embate entre o regime militar e a esquerda armada, em 1969. Mas a organização teve vida curta: foi desmantelada pelo recém-criado órgão de inteligência do exército, Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI).

Ao mesmo tempo, divergências quanto à estratégia militar levaram ao êxodo da maioria de seus integrantes, que retornaram à VPR. Desestruturada e impossibilitada de desenvolver ações armadas, com seus líderes presos ou mortos pela polícia, a VAR-Palmares chegou ao fim em 1971.

MR-8

Batizado em homenagem à data da morte de Ernesto “Che” Guevara, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) foi a denominação de dois movimentos de guerrilha. O primeiro era formado por dissidentes do PCB no estado do Rio de Janeiro e foi dizimado pela polícia em agosto de 1969. O segundo, também formado por dissidentes do PCB, permanece até hoje.

De forma similar à ALN, o MR-8 foi criado porque membros do PCB não concordavam com a abordagem pacífica do partido. A operação da organização também era similar à outra: se valiam de assaltos a bancos para obter recursos financeiros. O MR-8 participou também do sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, juntamente com o ALN, em troca da libertação de prisioneiros militantes.

A permanência do nome MR-8, após a derrota do grupo original, foi uma tentativa de desmoralizar a polícia — objetivo central da organização. Isso se refletia em uma das ações do grupo: assaltos a quartéis.

O MR-8 começou a mudar em 1971, com a morte de Carlos Lamarca, que havia tentado instaurar núcleos de guerrilha no interior da Bahia. A partir disso, o movimento passou a defender a as liberdades democráticas, bem como a formação de uma frente popular pela redemocratização do país. Uma das ações neste sentido foi a entrada no Movimento Democrático Brasileiro (MDB), após a extinção do bipartidarismo, em 1979.

Agora, os dias de esquerda armada do MR-8 ficaram para trás. Com o alinhamento ao MDB, o grupo passou a adotar o pacifismo e se afastar dos ideias comunistas, o que lhe rendeu acusações de dissidentes de ter virado à direita. O objetivo passou a ser aproximar da juventude, promovendo um encontro nacional de jovens e apoiando o Rock in Rio. No campo político, a organização segue apoiando o MDB e seus candidatos. Uma parte do grupo ajudou o Partido Pátria Livre (PPL), que lançou João Goulart Filho nas eleições presidenciais de 2018, mas depois foi incorporado ao PCdoB.

Partido Comunista Brasileiro (PCB)

Fundado em 1922, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) tinha como objetivo promover a revolução proletária no Brasil e conquistar o poder político para instaurar o sistema socialista. Considerado o partido mais antigo do Brasil, teve a maior parte da sua existência na ilegalidade.

Durante os primeiros anos do regime militar, o PCB passou por uma crise interior devido à estratégia de embate aos militares. Um grupo de dissidentes, liderado por Carlos Marighella, acusava o partido e o líder Luis Carlos Prestes de não terem se preparado para dar início à luta armada. Após a polícia apreender cadernos de Prestes contendo os contatos que ele estabelecia com personalidades políticas de outros partidos, sua liderança enfraqueceu e o partido descentralizou.

Em 1968, o PCB participou da articulação da Passeata dos Cem Mil, manifestação realizada no Rio de Janeiro que contou com a participação de cerca de cem mil pessoas. O objetivo era protestar contra uma ação da polícia alguns dias antes no Centro da cidade, que havia atingido estudantes e populares. A passeata foi promovida pelo movimento estudantil e reivindicava o restabelecimento das liberdades democráticas, a suspensão da censura à imprensa e a concessão de mais verbas para a educação.

Defensor de vias pacíficas para a instauração do socialismo no Brasil, o PCB se posicionou contra ações da esquerda armada, como o sequestro do embaixador norte-americano, Charles Burke Elbrick, praticado pela ALN e o MR-8.

Após o fim do bloco soviético no contexto mundial, o PCB passou por uma reformulação ideológica e partidária. Em congresso realizado em 1992, foi abolido o modelo partidário marxista-leninista, junto com a foice e o martelo, símbolos tradicionais do comunismo, assim como o nome e a sigla do partido. De acordo com eles, o partido não estaria sendo extinto, mas se transformando, dando origem ao Partido Popular Socialista (PPS).

Muitos membros, entre eles Paulo Cavalcanti e Oscar Niemeyer, não aceitaram a decisão e recorreram à Justiça. No mesmo dia da extinção, o grupo organizou um novo congresso, decidido a manter o nome, a sigla e o mesmo símbolo do partido.

Nas eleições de 1998, o PCB integrou a coligação de partidos de esquerda que apoiou a candidatura de Luís Inácio Lula da Silva (PT). Após apoiar a reeleição de Lula para a presidência, o PCB rompeu com o governo sob o argumento de que ele estaria dando continuidade à política neoliberal.

Organização Revolucionária Marxista - Política Operária (Polop)

Formada em 1961 principalmente ex-militantes trotskistas e ex-militantes comunistas, a Organização Revolucionária Marxista - Política Operária (Polop) era constituída majoritariamente por intelectuais e estudantes de São Paulo, Minas Gerias e Rio de Janeiro. O objetivo do grupo era criar condições para o surgimento de um partido revolucionário da classe operária.

Sua atuação era de base intelectual, buscando promover a propaganda e a agitação das massas. Nesse sentido, a Polop destacou-se pela influência que exerceu sobre outros grupos marxistas. O grupo procurava contestar a hegemonia político-ideológica do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

No pós-1964, o núcleo da Polop no Rio de Janeiro foi desarticulado após o Centro de Informações da Marinha (Cenimar) infiltrar agentes em suas reuniões. Em 1965, a Polop entrou em crise quando um grupo da Polop de Minas Gerais passou a contestar as diretrizes da organização.

Em 1967, nova crise interna surgiu entre o grupo de São Paulo, que acusava a direção da Polop de inércia e de inabilidade para capitalizar a crise deflagrada no PCB com a expulsão de Carlos Marighella e outros. Esse grupo defendia a luta armada e tornou-se dissidente, posteriormente dando origem à VPR.

Comando de Libertação Nacional (COLINA)

Criado em 1967, em Minas Gerais, por dissidentes mineiros da Polop, o Comando de Libertação Nacional (COLINA) era integrada majoritariamente por jovens estudantes universitários.

Como as demais organizações da esquerda armada, defendia a ação armada para libertar o Brasil da “opressão e ditadura” e, posteriormente, criar o partido revolucionário da classe operária. A organização defendia a atuação em duas frentes: articulação urbana a partir da classe estudantil e operária e, no campo, a partir da tática de guerrilha. O objetivo dessas articulações era formar um exército popular.

Em março de 1969, o COLINA realizou sua primeira ação, um atentado sindicato dos bancários, que encontrava-se sob intervenção devido a uma greve da categoria. O grupo explodiu bombas nas casas do delegado e do interventor em apoio aos grevistas. No mesmo ano, assaltou uma agência do Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais e o Banco do Brasil, em Contagem, Minas Gerais.

O COLINA teve a participação de nomes de destaque, como o sociólogo mineiro Juarez Guimarães de Brito e a ex-presidente Dilma Rousseff, que participou da organização sob o nome de Wanda. Aos 22 anos, Dilma foi presa no DOI, depois transferida para o DOPS e, posteriormente, para o presídio Tiradentes.

Em 1969, o grupo uniu-se à VPR com o objetivo de fortalecer a esquerda, mas a aliança acabou em discordâncias sobre a sua atuação. Divergências internas levaram à fusão com outros grupos do sul do país e da Bahia, dando origem à VAR-Palmares.

107 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Máximo de 700 caracteres [0]