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O filósofo conservador Roger Scruton
O filósofo conservador Roger Scruton: vida de trabalho de sacrifício| Foto: Divulgação

Morreu o pensador conservador mais importante de sua geração, o filósofo Sir Roger Scruton. Ele tinha 75 anos e sofria de câncer. Publicou vários livros sobre um número estonteante de assuntos, variando entre política, arte, música, a filosofia de Emmanuel Kant, religião e caça às raposas. Ele também escreveu ficção, incluindo os romances ‘As Memórias de Underground” (Editora É Realizações) e 'The Disappeared' e a coleção 'Souls in the Twilight'. Ele compôs uma ópera e um punhado de canções. Ele deixa a esposa Sophie, historiadora, e dois filhos, Sam e Lucy.

Há três histórias que Roger Scruton frequentemente compartilhava sobre sua vida. A primeira envolvia falar sobre o caráter de seu pai, homem da classe operária e conservador ávido, que não gostava da ideia de seu filho ir para uma Royal Grammar School (uma escola pública de elite, que necessita de um teste admissional) e se transformar em um esnobe. De seu pai, ele escreveu carinhosamente:

Ele acreditava que o país era governado por uma conspiração desses esnobes de escolas públicas e que não haveria justiça social na Grã-Bretanha até que os privilégios que permitiam o avanço de personagens tão tristes e indignos fossem abolidos. Ele achava que a Câmara dos Lordes, a Igreja estabelecida e a Monarquia eram ramos dessa conspiração de longa data e entendeu toda a nossa história em termos dela — como um confisco interminável da Inglaterra de seus legítimos proprietários por um classe de usurpadores privilegiados.

O pai de Scruton escapou de uma vida difícil e muito pobre por meio do serviço militar e se tornou professor. Em contraste, a história de Roger é a de como sua Royal Grammar School e a Universidade de Cambridge permitiram a ele sair da sombra da classe trabalhadora de seu pai, mostrando que mesmo em uma sociedade tão preocupada com a classe quanto a da Inglaterra ainda havia mobilidade e avanço social.

Scruton também contava outra história sobre seu despertar político, apropriadamente na primavera de 1968 em Paris. Do seu apartamento, ele observava estudantes, muitos deles da sua idade, capotando carros e quebrando vitrines de lojas enquanto construíam barricadas nas ruas. Ele ficou enojado. Então um amigo dele voltou das barricadas, cheio de fervor revolucionário. Ele escreveu sobre como se descobriu um conservador para a revista americana The New Criterion, em uma passagem que vale a pena citar extensivamente:

O argumento que se segue é aquele ao qual volto com frequência em meus pensamentos.

O que, perguntei, você propõe colocar no lugar dessa "burguesia" que você menospreza e à qual você deve a liberdade e a prosperidade que lhe permitem brincar com suas barricadas de brinquedos? Que visão da França e de sua cultura o compele? E você está preparado para morrer por suas crenças, ou simplesmente colocar outras pessoas em risco para exibi-las? Eu era irritantemente pomposo: mas, pela primeira vez na minha vida, senti uma onda de raiva política, encontrando-me do outro lado das barricadas de todas as pessoas que conhecia.

Ela respondeu com um livro: ‘As Palavras e as Coisas’, de Foucault, a Bíblia dos soixante-huitards [os manifestantes de 1968], o texto que parecia justificar toda forma de transgressão, mostrando que obediência é apenas derrota. É um livro ardiloso, escrito com uma mendacidade satânica, apropriando-se seletivamente de fatos para mostrar que cultura e conhecimento nada mais são do que "discursos" de poder. O livro não é uma obra de filosofia, mas um exercício de retórica. Seu objetivo é a subversão, não a verdade, e argumenta — pelo velho truque nominalista que certamente foi inventado pelo Pai das Mentiras — que "a verdade" requer vírgulas invertidas, que muda de época para época, e é ligada à forma de consciência, a "episteme", imposta pela classe que lucra com sua propagação. O espírito revolucionário, que busca coisas no mundo para odiar, encontrou em Foucault uma nova fórmula literária. Procure poder em todos os lugares, ele diz a seus leitores, e você o encontrará. Onde há poder, há opressão. E onde há opressão há o direito de destruir. Na rua abaixo da minha janela estava a tradução dessa mensagem em ações.

Além disso, quanto mais as coisas mudam, mais continuam na mesma…

Nos anos seguintes, os herdeiros da revolução tentariam destruir Scruton. Ele foi o fundador da Salisbury Review, um periódico conservador sério. Em 1985, ele também publicou ‘Pensadores da Nova Esquerda’, um livro que expôs pensadores da esquerda a críticas sérias. O trabalho foi tratado como um crime intelectual, e a editora cedeu desesperadamente às exigências de suspender a venda do livro. Felizmente, o livro foi reeditado e expandido 30 anos depois, como “Tolos, Fraudes e Militantes - Pensadores da Nova Esquerda’.

Por último, das três histórias que Scruton contava sobre sua vida e seu trabalho, é sobre a criação de uma universidade meio clandestina com Julius Tomin, na Tchecoslováquia, nos anos 80. Lá, ele deu palestras sobre filosofia, história e literatura — meditações sobre toda a herança da civilização ocidental — proibidas pelas autoridades comunistas. Scruton foi detido pela polícia secreta e seu nome colocado no Índice de Pessoas Indesejáveis. No livro “Como ser um conservador”, ele descreveu o apartamento em que ele e Tomin se conheceram:

Naquela sala havia os remanescentes da intelligentsia de Praga — velhos professores com as roupas gastas; poetas de cabelos compridos; jovens estudantes aos quais foi negada a admissão na universidade por "crimes" políticos de seus pais; padres e religiosos à paisana; romancistas e teólogos; um possível rabino; e até um psicanalista. E em todos eles vi as mesmas marcas de sofrimento, temperadas pela esperança; e o mesmo desejo ansioso pelo sinal de que alguém se importava o suficiente para ajudá-los.

Este foi o meu primeiro encontro com "dissidentes": as pessoas que, para meu espanto posterior, seriam os primeiros líderes democraticamente eleitos da Checoslováquia pós-comunista. E senti em relação a essas pessoas uma afinidade imediata. Nada era tão importante para eles como a sobrevivência de sua cultura nacional. Privados de progresso material e profissional, seus dias eram preenchidos com uma meditação forçada sobre seu país e seu passado. Eles foram proibidos de publicar; as autoridades ocultaram sua existência do mundo e resolveram remover seus vestígios do livro da história. Portanto, os dissidentes estavam profundamente conscientes do valor da memória. Suas vidas foram um exercício do que Platão chamou de anamnese: trazer à consciência coisas esquecidas. Algo em mim respondeu imediatamente a essa ambição pungente, e eu estava ao mesmo tempo ansioso para me juntar a eles e tornar sua situação conhecida em todo o mundo. E reconheci que a anamnese também descrevia o significado da minha vida.

Scruton se envolveu em dezenas de grandes controvérsias até os últimos dias de sua vida. Ele assumiu as causas da arquitetura tradicional e da alta cultura. Ele defendeu a Igreja Anglicana, embora seu próprio relacionamento com a fé cristã fosse complexo. Seu livro ‘O Rosto de Deus’ é uma surpreendente reflexão filosófica cristã sobre o significado da personalidade, do amor e do divino. Ele tocava o órgão de sua igreja. Mas, talvez sem o dom da fé na ressurreição, ele também parecia acreditar que o horizonte da vida terminava como na grande obra de Wagner, ‘Tristão e Isolda’, que Scruton descreveu como não contendo vida após a morte, “mas apenas as grandes trevas nas quais você se torna o que você realmente é, o que é nada.”

Tive o prazer de encontrar Sir Roger Scruton algumas vezes nesta vida e tive uma breve correspondência com ele. Mas tive a alegria de lê-lo e aprender com ele por toda a minha vida adulta. O mais formativo foi seu livro ‘O que é Conservadorismo’, que tentou preservar os aspectos sociais, culturais e institucionais do conservadorismo durante os anos de Margaret Thatcher como primeira-ministra; Scruton entendeu suas limitações muito antes de outros apreciarem suas virtudes. Eu particularmente recomendo “As vantagens do pessimismo”; ‘O Ocidente e o Resto’; ‘Tolos, fraudes e militantes’; ‘Beleza’; ‘O Rosto de Deus’; e ‘A Alma do Mundo’ (todos possuem edições no Brasil).

A partir dele, acima de tudo, formei minha própria ideia sobre o que é o conservadorismo, a tentativa de preservar ou recuperar um lar neste mundo — um lugar de consolação, um lugar santificado que nos conecta com os mortos, os nascituros e nossos vizinhos através do amor, memória e sacrifício. Um lugar que nos pertence e nos implanta um anseio pelo verdadeiro lar que nunca pode ser destruído por tempestades, guerras, negligências ou invasões de especuladores que querem substituir nossas casas por estacionamentos ou empreendimentos vulgares. Direcionamos nossos esforços para preservar a liberdade, decência e cultura, para que nossos filhos recebam isso em algum lugar da mesma forma que este lugar foi preparado para mim por meu pai.

Scruton pode ser o único conservador desta geração cujo trabalho será lido daqui a cem anos. E enquanto oramos pelo repouso de sua alma e pelo conforto de sua família e amigos íntimos, devemos também orar para que, ao contrário de agora, seu trabalho e sua coragem recebam o reconhecimento que merecem. Scruton trabalhou e se sacrificou. Ele é o cavaleiro gentil, doce e corajoso que salvou sua casa dos bárbaros.

©2020 National Review. Publicado com permissão. Original em inglês 
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