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Seis erros do pensamento moderno apontados por C. S. Lewis

  • PorSteven Jonathan Rummelsburg
  • The Imaginative Conservative
  • 30/09/2020 20:05
Em seu ensaio “Homem moderno e suas categorias de pensamento”, publicado em 1946, C. S. Lewis identificou várias tendências que tornaram a comunicação da Verdade muito difícil na era moderna. Imagem ilustrativa.
Em seu ensaio “Homem moderno e suas categorias de pensamento”, publicado em 1946, C. S. Lewis identificou várias tendências que tornaram a comunicação da Verdade muito difícil na era moderna. Imagem ilustrativa.| Foto: Peter K Burian/Wikimedia Commons

Nós ainda temos espírito no Ocidente, mas o espírito moderno, que é baseado na ambição egoísta e no subjetivismo autorreferenciado. Hoje, um espírito de relativismo leva-nos ao deserto da autodeterminação, onde somos encorajados a construir nossos próprios castelos na areia movediça.

Nossa compreensão da verdade revelada sobre as realidade ontológicas de Deus Pai afrouxou até o ponto de desprendimento, e abandonamos coletivamente o Pai da Criação, enquanto voltamos nosso olhar quase exclusivamente para a própria Criação. Perdemos nossa compreensão do Logos e vivemos hoje separados da Verdade Divina e da Razão Divina.

A educação é a causa formal de uma nação. A educação é a própria alma de nossa terra, e o que a pólis manifesta é um reflexo de sua causa formal. Nosso sistema moderno de educação é o símbolo da doença da alma que assola a Grande Tradição Ocidental. Saber que perdemos nosso caminho é evidente, mas ver as causas subjacentes é mais difícil.

Podemos, contudo, recorrer a um vidente moderno em busca de alguma ajuda para compreender o que deu tão errado nos últimos sete séculos e por que é improvável que o Ocidente se recupere desse mal-estar intratável.

Em seu ensaio Homem moderno e suas categorias de pensamento, publicado pela primeira vez em 1946, C. S. Lewis identificou várias tendências que tornaram a comunicação da Verdade muito difícil na era moderna.

Lewis começa explicando que embora “devamos sempre imitar o procedimento de Cristo e de Seus santos, esse padrão deve ser adaptado às condições mutáveis da história.” O que se segue é uma elucidação das categorias modernas de pensamento que se tornaram pedras de tropeço para os fiéis que desejam transmitir a Verdade a um público moderno.

Lewis destaca que na Igreja primitiva os apóstolos pregavam aos judeus, aos gentios e aos pagãos. Todos os três grupos sustentavam pressupostos que o homem moderno não sustenta mais.

Por exemplo, “todos os três grupos acreditavam no sobrenatural… Todos estavam conscientes do pecado e temiam o julgamento divino… Todos os três acreditavam que o mundo já tinha sido melhor do que é agora”. Havia a doutrina judaica da Queda, os gregos tinham a sua Idade de Ouro e os pagãos tinham a “reverência pelos heróis, ancestrais e legisladores antigos”.

Todas essas predisposições intelectuais e morais eram um chão firme para uma base intelectual e moral comum sobre a qual um diálogo significativo poderia ocorrer. Hoje não existe esse território comum e o hiato de comunicação aumenta sem parar a cada sucessiva geração.

C. S. Lewis expõe seis causas a serem consideradas, se queremos entender esta mentalidade pública “radicalmente alterada” e a dificuldade dos professores para educar os cidadãos modernos neste admirável mundo novo.

Uma revolução na educação

Lewis lamenta o desdém moderno pelos antigos mestres como Platão, Aristóteles e Virgílio. Homens educados do passado podiam encontrar verdades valiosas nos livros antigos escritos por grandes homens: “Era natural para eles reverenciar a tradição”.

Lewis observa que nos níveis mais altos de educação tem havido um movimento para “isolar a mente em sua própria época; dar-lhe, em relação ao tempo, aquela doença que em relação ao espaço chamamos de provincianismo ”.

Em termos educacionais reais, isso é serrar o galho em que nos sentamos. Lewis simplesmente afirma que é um plano do inimigo dividir e conquistar.

Se o homem moderno não tem vínculo com as antigas verdades forjadas com sangue, suor e lágrimas de nossos mais ilustres ancestrais, então ele não tem defesa contra as ideologias incoerentes que estão inundando o mercado de idéias na universidade moderna.

Essa atitude levou a um subjetivismo que torna as discussões sobre a realidade objetiva quase impossíveis.

Feminismo

As ideias de Lewis sobre a "emancipação feminina" em 1946, vistas através das lentes cada vez mais obscuras da modernidade, podem parecer patriarcais e chauvinistas, mas não são.

Uma reflexão sóbria sobre suas palavras demonstra que um homem de princípios morais como Lewis, e com uma mente bem cultivada como a dele, é freqüentemente muito preciso e presciente.

Ele conclui que, em comparação com a revolução na educação que nos isola do passado, o feminismo “nos isola do eterno”, devido a seu desdém pela realidade metafísica.

Os homens, quando sozinhos apenas com outros homens, não se comportam da mesma forma que homens e mulheres fazem juntos.

Um dos pontos de Lewis é que os homens naturalmente tendem a se envolver em bravatas perto das mulheres; assim, discussões sérias sobre coisas eternas são postas de lado, e há "uma diminuição de entusiasmo pela metafísica", em parte porque as realidades metafísicas de homens e mulheres são negadas para fazer falsas alegações de igualdade.

O feminismo fundamentado na dialética material marxista tem causado estragos em todo o mundo e o comentário perspicaz de Lewis quase setenta anos atrás foi uma descrição exata do nariz de camelo sob a tenda [expressão proverbial árabe que indica que se um camelo colocar o nariz dentro da tenda, nada o impedirá de entrar nela], quando comparado com a realidade de hoje.

Historicismo

Lewis corretamente se refere ao historicismo como uma “pseudo-filosofia fatal” cuja causa raiz é o darwinismo. Como teorema biológico, e quando limitada a uma representação honesta de um registro fóssil disperso, não precisa haver muita discussão sobre o darwinismo.

No entanto, o que Lewis nomeia "desenvolvimentismo" tornou-se "a extensão da ideia evolucionária para muito além do reino biológico" e, de fato, tornou-se o "princípio-chave da realidade".

Este erro letal condicionou o homem moderno a assumir erroneamente "que um cosmos ordenado deveria emergir do caos, que a vida deveria surgir do inanimado, a razão do instinto, a civilização da selvageria, a virtude do animalismo".

Lewis explica que o homem moderno mantém várias analogias falsas que confirmam essa posição absurda do desenvolvimentismo: como “o carvalho vindo da bolota, o homem do espermatozoide, o navio a vapor moderno do bote primitivo”

Em uma época em que usamos a Navalha de Ockham para extirpar realidades importantes, Lewis observa que essas falsas analogias ignoram a realidade de que a bolota foi largada em primeiro lugar "pelo carvalho, cada espermatozoide foi derivado de um homem e o primeiro barco por algo muito mais complexo do que ele mesmo, um homem de gênio".

Lewis continua a desmascarar o historicismo e o desenvolvimentismo, apontando que "a seleção escassa e aleatória de fatos que conhecemos sobre a história" é considerada "uma revelação quase mística da realidade".

É claro que isso é confundir as folhas de uma árvore com a floresta e, ao fazer isso, o homem se arroga o papel de árbitro da verdade.

Proletarianismo

Desde o advento do marxismo, tem havido uma ênfase crescente nos direitos e na grandeza do proletariado como classe vitimizada. Culpar a aristocracia por seus problemas condicionou o proletariado a estar “satisfeito consigo mesmo em um grau talvez além da autossatisfação de qualquer aristocracia registrada. Eles estão convencidos de que tudo o que pode estar errado com a palavra não pode ser eles mesmos. Alguém mais deve ser culpado de todo mal.”

Nesse novo movimento, tal poder e importância são apropriados ao eu que, mesmo nas discussões em que Deus é levantado, não há reconhecimento de que Deus os julga: “Pelo contrário, eles são Seu juiz”.

O proletariado não tem mais "sentimentos de medo, culpa ou temor". Eles pensam no que Deus e o vizinho devem a eles, não no que devem a Deus e ao próximo. Todas as preocupações religiosas e intelectuais são reduzidas à eficácia material, o que leva ao próximo ponto causal de Lewis: a praticidade.

Praticidade

“O homem está se tornando tão estreitamente ‘prático’ quanto os animais irracionais.” Lewis observa que, quando ao dar palestras para os jovens, eles não estão mais interessados em saber se as coisas são objetivamente verdadeiras ou falsas, mas "eles simplesmente querem saber se são reconfortantes, inspiradores ou socialmente úteis".

Lewis observa ainda que "acreditar em" algo também foi reduzido a considerações práticas e não se refere mais à crença obrigatória, mas a algo como: "Eu aprovo isso".

Lewis afirma que "intimamente ligado a esta praticidade inumana é uma indiferença e um desprezo pelo dogma." A falsa conclusão é a adoção de uma noção sincrética de que "todas as religiões realmente significam a mesma coisa."

O homem, quando reduzido a considerações puramente práticas, ignora seus deveres intelectuais e morais de buscar a verdade, a bondade e a beleza e se rebaixa ao nível dos animais.

Se admitirmos essa posição rebaixada, focada exclusivamente na praticidade, então a educação será inútil. Não é exagero apontar que nossa situação educacional atual ilustra o ponto de Lewis.

Ceticismo sobre a razão

Lewis explica que "a praticidade, combinada com noções vagas do que Freud ou Einstein disseram, produziu uma crença geral, e demasiado tranquila, de que o raciocínio nada prova e todo pensamento é condicionado por processos irracionais".

A maioria das pessoas hoje tem proposições que se contradizem ou invalidam suas posições primárias. Lembre-se do acadêmico que diz: “Tenho a mente tão aberta que estou até mesmo aberto à falsidade”. Uma das marcas da moderna erudição é sentar-se confortavelmente com dissonância cognitiva.

O homem moderno está apto a aceitar "sem desânimo a conclusão de que todos os nossos pensamentos são inválidos".

O ceticismo a que Lewis aludiu setenta anos atrás proliferou e, como resultado, a razão bem ordenada é ainda menos provável de causar uma impressão na mente moderna.

Não há mais nenhuma imposição interna para garantir que nossa linguagem corresponda ao nosso pensamento e que nosso pensamento corresponda ao mundo como ele realmente é.

Mesmo assim, saia e ensine!

As considerações acima são algumas das questões intelectuais mais importantes que devemos enfrentar se quisermos ensinar a verdade e ressuscitar a alma da Grande Tradição Ocidental.Esses são obstáculos não enfrentados pelos professores em épocas anteriores.

Antes do advento do nominalismo, sempre houve batalhas sobre o intelecto. Mas geralmente havia um terreno comum com relação ao sobrenatural, o julgamento divino, a doutrina da Queda e uma reverência pelo passado. Havia um consenso geral a respeito de uma compreensão da aprendizagem humana baseada na virtude de acordo com o padrão objetivo da verdade.

Homens e mulheres estavam cientes de sua complementaridade, desigualdade e das realidades metafísicas de seu sexo. Houve um respeito pela verdadeira natureza da história como o registro dos hábitos de caráter das grandes almas que navegaram nos mares tempestuosos de tempos e eventos.

Por um período de vários milênios, o homem não se considerou a medida de todas as coisas e sabia que no final seria julgado por Deus. A vida nunca foi considerada puramente material, e o uso correto do intelecto sempre foi valorizado, em certa medida até mesmo pelos não instruídos.

Hoje, entretanto, o humanismo desenfreado, isolado da verdade revelada e da razão bem ordenada, levou à falência nossa alma e nosso sistema educacional.

Precisamos retornar à tradição educacional que edificou a Grande Tradição Ocidental. Bons professores como C. S. Lewis podem fornecer uma lâmpada para iluminar nosso caminho para o retorno ao estreito caminho da verdade; vamos aceitar sua oferta.

Steven Jonathan Rummelsburg é graduado em História pela Universitária da Califórnia, Santa Barbara. É professor, escritor e palestrante sobre questões religiosas, culturais e educacionais. Membro do Conselho Consultivo e redator do currículo do Sophia Institute para professores.

© 2020 Imaginative Conservative. Publicado com permissão. Original em inglês.
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Comentários [ 9 ]

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  • P

    Paulo Fernando Vianna da Silva

    ± 12 dias

    Um Grande texto! Excelente!

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    • F

      Fernando Galucci

      ± 12 dias

      Excelente texto! Parabéns à Gazeta do Povo! Por mais traduções e divulgações de artigos do Imaginative Conservative.

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      • A

        Ana Luiza

        ± 12 dias

        Enriquecedor!

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        • C

          cassio sachet

          ± 12 dias

          Gazeta, está espécie de valor faz de vocês distribuidores de conteúdo. E isso é fundamental.

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          • I

            Irani Maciel

            ± 12 dias

            Pessoas... que RIQUEZA de texto!!! C. S. Lewis é um clássico que todos deveriam ler, e esse artigo faz justiça à mente daquele mestre, ao vincular o que Lewis postulara à realidade em que vivemos... UM SHOW! Obrigado, Gazeta, pelo presente que ofereceram a seus leitores!

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            • I

              Ivan S Ruppell Jr

              ± 12 dias

              Texto excelente, pois coerente a partir da validade de seu conteúdo fundamentado.

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              • L

                LSB

                ± 12 dias

                Excelente ensaio!

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                • R

                  Rafael Lopes

                  ± 12 dias

                  O melhor autor do Séc XX.

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                  • M

                    Marçal

                    ± 12 dias

                    Acabei de ler este txt é lembrei-me da primeira televisão q minha Avó teve. Uma GE, pesada, sem cores e a válvula. É só pegava 3 canais.

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