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Protesto do movimento Black Lives Matter em Lake Forest, Califórnia, EUA
Protesto do movimento Black Lives Matter em Lake Forest, Califórnia, EUA| Foto: BigStock

Neste nosso verão de desgosto, de protestos seguidos de baderna e destruição – vistos por muitos como uma espécie de acerto de contas racial que se seguiu à morte de George Floyd pelas mãos de policiais –, temos visto ideias radicais como o corte de verbas para a polícia se tornarem a regra.

Não só isso, vimos também instituições progressistas como o The New York Times se curvar perante as mobilizações dos militantes, e cancelar aqueles que não cedem aos caprichos da esquerda radical.

Mais: vimos empresas nos Estados Unidos endossando quase que universalmente o Black Lives Matter, uma organização radical com raízes marxistas.

Mas por quê?

Coisas como estas não surgem do nada.

Dois escritores em particular cresceram em popularidade junto à esquerda, dominando as listas nacionais de livros mais vendidos enquanto garantiam uma atenção cada vez maior da imprensa: Robin DiAngelo, palestrante e autora de “White Fragility: Why It’s So Hard for White People to Talk About Racism” (“Fragilidade Branca: porque é tão difícil para as pessoas brancas falar sobre o racismo”, em tradução livre), e Ibram X. Kendi, diretor do Centro de Pesquisas Antirracistas da Universidade de Boston e autor do livro “How to Be an Antiracist” (“Como ser um antirracista” em tradução livre).

Embora trabalhem em áreas distintas, ambos os escritores promovem uma ideologia chamada por eles de “antirracismo”.

Estes dois autores estão moldando o discurso moderno dos militantes e as ideias que têm se tornado politicamente dominantes nos EUA, pelo menos entre a esquerda.

Ter uma compreensão a respeito das crenças destes autores é crucial.

Por exemplo, por que uma manifestação contrária à supremacia branca ataca estátuas tanto de donos de escravos quanto de abolicionistas?

Seria este apenas um exemplo de destruição irracional e arbitrária? Ou talvez os manifestantes estejam abraçando um conjunto de ideias que criam uma brutal dicotomia entre racistas e antirracistas?

Aqui estão três conceitos chave aos quais os antirracistas têm se atrelado.

1º. O Racismo Redefinido

Tanto para DiAngelo como para Kendi, todas as pessoas precisam escolher qual caminho seguir: racismo ou antirracismo. Há apenas essas duas opções, nenhuma mais. E dizer “não sou racista”, como escreveu Kendi, não é bom o suficiente, nem significa que esta pessoa não é racista de verdade.

DiAngelo define a “fragilidade branca”, o tópico principal de seu livro, como um processo pelo qual pessoas brancas retornam “ao nosso conforto racial e à manutenção de nossa dominância perante a hierarquia racial.”

“Embora a fragilidade branca seja desencadeada pelo desconforto e ansiedade, ela nasce da superioridade e do direito”, escreveu DiAngelo. “A fragilidade branca não é uma fraqueza por si só. De fato, é um meio poderoso de controle racial branco e de proteção às vantagens brancas.”

Basicamente, se uma pessoa branca se sente desconfortável em falar sobre o racismo ou se ela nega a sua “branquitude” fundamental, ela é culpada tanto por ser racista quanto pela sua fragilidade branca.

De acordo com os argumentos de DiAngelo e Kendi, mesmo uma negação ao racismo pode ser considerada como uma evidência de racismo.

Isso já foi descrito por muitos outros autores, inclusive Mark Hemingway em seu livro “O Federalista”, como uma “armadilha de Kafka”. É um artifício retórico “no qual quanto mais você nega algo, mais aquilo prova que você é culpado.”

DiAngelo e Kendi criaram uma variação racial das narrativas “opressor versus oprimido”, vistas em muitas das ideologias de esquerda. As classes, que guiam toda uma ideologia econômica marxista, são substituídas pelas raças em um cenário onde só pode haver vencedores ou perdedores.

Kendi e DiAngelo argumentam que o racismo não é só um ato individual de discriminação ou preconceito contra alguém baseado na cor da pele.

Em vez disso, o racismo é definido como uma condição coletiva que resulta em desigualdades sociais.

Kendi argumenta que aqueles que são vistos por muito americanos como racistas de verdade são até menos perigosos do que a real ameaça representada pela aceitação comum de uma suposta cegueira em relação à cor da pele. Ele escreve:

“O movimento racista mais ameaçador não é a caminhada dos integrantes da alt-right em direção a um ‘etnoestado’ branco. É sim a marcha dos americanos comuns em busca de um estado com ‘raças neutras.’ A construção de uma neutralidade de raças de fato alimenta a vitimização dos nacionalistas brancos por dar-lhes a noção de que qualquer política de proteção ou de equiparação para os americanos não brancos é uma ‘discriminação reversa’.”

Kendi rebaixa os “assimilacionistas” a um nível tão baixo quanto o dos “segregacionistas.”

Assimilação é o processo pelo qual as diferenças entre grupos são reduzidas ou até eliminadas em uma determinada sociedade como forma de criar uma cultura comum.

Kendi se opõe aos assimilacionistas, assim definidos por ele, porque segundo ele estes atribuem um caráter comportamental aos resultados desiguais oriundos dos diferentes grupos étnicos.

Assim, o simples fato de questionar o porquê de grupos diferentes terem resultados estatisticamente diferentes em uma sociedade, qualquer que seja o quesito analisado, pode ser construído como um argumento racista.

DiAngelo concorda com a construção de racismo feita por Kendi, e escreve que “se nós acreditarmos de verdade que todos os humanos são iguais, então qualquer disparidade de condições só pode ser resultado de uma discriminação sistêmica.”

Tal argumento essencialmente quer dizer que quaisquer discrepâncias raciais na sociedade são exemplos de racismo.

Dessa forma, se uma sociedade tem um número desproporcional de pessoas ricas e brancas comparadas às ricas e negras, isso é racismo. Se algum desses lados tem uma taxa de mortalidade maior em relação à determinada doença, mais uma vez o culpado é o racismo.

É claro que Kendi é altamente seletivo em relação às estatísticas citadas por ele para demonstrar que “pode não haver privilégio branco mais perceptível do que a própria vida.”

Como escreveu Coleman Hughes, no City Journal: “Ao pinçar seletivamente os dados para mostrar que os negros sofrem mais que os brancos, Kendi transforma aquela que deveria ser uma batalha unificada, neutra em relação à raça – mais especificamente, a luta dos seres humanos contra as doenças que matam – em uma espécie de batalha ‘por procuração’ na luta contra o racismo.”

Hughes, assim como Kendi, é negro.

2º. O “Daltonismo Racial” é um problema, e é racismo

O conceito de oportunidades iguais é fundamentalmente rejeitado pelas doutrinas de DiAngelo e Kendi. Eles argumentam que em uma sociedade profundamente racista condicionada à supremacia branca, garantir a igualdade de oportunidades por meio das leis é perpetuar a desigualdade.

Tanto DiAngelo quanto Kendi criticam a ideia de um suposto “daltonismo racial”, quando não se enxerga a diferença entre brancos e negros. DiAngelo o faz não só em caráter cultural. Ela afirma que essa cegueira seletiva é essencialmente um sinal de um privilégio branco, uma manipulação da mensagem de Martin Luther King Jr. para perpetuar mais e mais racismo.

“A ideologia desse ‘daltonismo racial’ torna a abordagem a certas crenças inconscientes mais difícil para nós”, escreveu DiAngelo. “Enquanto a ideia de uma cegueira seletiva em relação à cor da pele tenha começado de forma até bem intencionada, uma estratégia para interromper o racismo, na prática ela serve apenas como uma negação do racismo como algo real e, assim, mantê-lo em seu lugar.”

As pessoas brancas precisam desenvolver uma “energia racial”, argumenta DiAngelo, para sobrepujar sua fragilidade branca.

O caminho para se chegar a esse resultado começa em reconhecer, adotar e examinar criticamente a “identidade branca” como um antídoto contra a “fragilidade branca”. DiAngelo escreve que “como é uma pessoa que está inserida neste contexto” ela pode falar de sua experiência como pessoa branca, mas que ela usa sua identidade branca como uma forma de “desafiar o racismo.”

DiAngelo deixa para as pessoas brancas a responsabilidade – para alguns, o fardo – de atacar e derrotar o racismo e a “branquitude.”

3º. O Racismo é derrotado por meio da discriminação

Kendi se inclina mais fortemente para outro caminho, o de criar leis que especificamente promovam o antirracismo. Para serem efetivas, ele diz, precisam ser discriminatórias.

Kendi aponta que uma das formas de promover a igualdade é por meio de leis discriminatórias, e que estas podem ser até mesmo desejáveis e necessárias:

“Se a discriminação está criando igualdade, então ela é antirracista. Se a discriminação está criando desigualdades, então ela é racista. Ajudar permanentemente um grupo racial super-representado a atingir bons níveis de riqueza e poder por meio da reprodução da desigualdade é totalmente diferente do que alguém desafiar essa desigualdade ajudando temporariamente um grupo racial sub-representado a atingir um nível relativo de riqueza e poder até que essa igualdade seja alcançada. O único remédio para a discriminação racista é a discriminação antirracista. O único remédio para a discriminação feita no passado é a discriminação feita no presente.”

Se o dedo da discriminação estiver apertando o botão da “igualdade”, quaisquer que sejam as definições dadas por Kendi e outros antirracistas, então tudo bem.

Christopher Caldwell, autor de “The Age of Entitlement: America Since the Sixties”, em artigo para o National Review escreveu que Kendi rejeita a noção – que deriva de muitos dos defensores dos direitos civis – “de que tudo vai bem quando continuamos tratando as pessoas com igualdade, neutralidade e respeito.”

“Isto não é legítimo. É uma obstrução ‘racista’”, pontuou Caldwell.

Kendi propôs uma emenda antirracista à Constituição Americana, sobre a qual ele escreveu um pequeno artigo no site Politico. Vale a pena trazê-lo aqui na íntegra:

“Para reparar o pecado original do racismo, os americanos precisam aprovar uma emenda antirracista na Constituição dos Estados Unidos que consagrem dois princípios-guia antirracistas: A desigualdade racial é evidência de políticas racistas, e diferentes grupos raciais devem ser tratados como iguais.

“Tal emenda determinaria limites sobre os quais certas desigualdades raciais devem ser tratadas como inconstitucionais, assim como inconstitucionais seriam também as ideias racistas de agentes públicos (com uma clara definição a respeito de ‘ideias racistas’ e ‘agentes públicos’). Ela estabeleceria e criaria a dotação orçamentária para o Departamento Antirracista [DOA, na sigla em inglês], órgão comprometido a oferecer treinamento formal a especialistas em antirracismo sem nenhum viés político.

“O DOA seria responsável por fazer uma checagem prévia em todas as políticas públicas, municipais, estaduais e federais, para garantir que em nenhuma delas haja qualquer tipo de desigualdade racial. Essa responsabilidade se ampliaria no sentido de monitorar essas políticas públicas, investigar outros pontos que possam trazer desigualdades raciais e monitorar agentes públicos em busca de expressões de ideias racistas. O DOA pode ser incumbido de ferramentas disciplinares para executar seu trabalho sobre e contra os criadores de políticas públicas que não mudarem voluntariamente suas políticas e ideias racistas.”

Esta proposta feita por Kendi efetivamente acabaria com a autonomia das pessoas e tornaria nula a Carta de Direitos. Um quadro de intelectuais abrigado no Departamento de Antirracismo teria o poder de decidir quem pode ou não se candidatar e quais leis podem ou não ser aprovadas com base em sua interpretação do que é racista.

De novo, o racista, segundo Kendi, é aquele que “apoia atitudes racistas por meio de suas ações ou omissões, ou por expressar ideais racistas.”

Quais ideais se enquadrariam sob a rubrica de racista ou antirracista?

Todos eles.

“Qualquer atitude em qualquer instituição, em qualquer comunidade de qualquer nação está produzindo ou sustentando tanto a igualdade quanto a desigualdade racial”, escreveu Kendi.

Para aqueles que acreditam que podem escapar das terríveis implicações da guerra cultural por trás dessas ideias e se concentrar nas políticas econômicas ou fiscais, é importante perceber que abraçar o socialismo e lutar contra o capitalismo é um elemento crucial na promoção do antirracismo.

Então, ou você combate o capitalismo, ou senão…

Um exemplo de políticas racistas, segundo Kendi, é baixar os impostos sobre ganho de capital.

Desta forma, um apoiador da ideia de impostos mais baixos sobre o ganho de capital – ou até mesmo alguém que não está ativamente em oposição à queda nas taxas sobre o ganho de capital – pode ser impedido de concorrer a um cargo público por um time de burocratas irresponsáveis de uma agência federal com financiamento permanente.

A cereja do bolo, neste caso, seria o fato de essa agência ter o poder de evitar a votação de uma redução dos impostos sobre ganho de capital no Congresso.

Assim se esvaem as noções dos direitos individuais ou da autonomia dos cidadãos. Assim se vão as proteções constitucionais aos direitos de liberdade de associação e liberdade de expressão.

Assim se desmancham os alicerces do sistema criado pelos Pais Fundadores da Nação, a Constituição, que guiou todo o sistema americano, antes falho, no caminho da liberdade e da justiça.

A isso nós damos um nome: tirania.

Jarrett Stepman é colaborador do The Daily Signal e co-apresentador do podcast The Right Side of History. Ele também é o autor do livro "The War on History: The Conspiracy to Rewrite America's Past".

©2020 Daily Signal. Publicado com permissão. Original em inglês
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