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Um resquício da arquitetura neocolonial em Curitiba

Anexo ao hotel Pestana, Espaço Cultural David Carneiro preserva figura do intelectual que contribuiu para o resgate e divulgação da história do Paraná

  • PorSharon Abdalla
  • 11/04/2015 16:00
Fachada  em estilo  neocolonial  da casa de David Carneiro contrasta com as torres modernas do conjunto Evolution Towers. | Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
Fachada em estilo neocolonial da casa de David Carneiro contrasta com as torres modernas do conjunto Evolution Towers.| Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

A pequena fachada rosa de traços neocoloniais se destaca em meio ao cenário urbano da Rua Brigadeiro Franco, quase na esquina com a Comendador Araújo. O contraste que a construção compõe com o conjunto Evolution Towers, que abriga o hotel Pestana, é o registro de um pedaço da história do Paraná e do Brasil reunida e mantida pelo intelectual David Carneiro.

Quem foi David Carneiro?

Historiador, engenheiro, colecionador e poeta. Estes são alguns dos títulos que podem ser atribuídos a David Antonio da Silva Carneiro, mais conhecido como professor David Carneiro. Filho de um dos mais importantes industriais do mate do Paraná – o Coronel David Carneiro – nasceu em 1904 e dedicou a vida a resgatar e divulgar a história do Paraná e do Brasil. Antes de ser historiador, estudou no Colégio Militar do Rio de Janeiro, mas voltou a Curitiba onde diplomou-se em engenharia civil, em 1928. Na década de 1950, assumiu a cadeira de “Evolução da Conjuntura Econômica” na Faculdade de Economia da Universidade Federal do Paraná – tal cadeira não existia e foi criada especialmente para ele. Foi professor visitante em universidades dos Estados Unidos, onde lecionou História e Economia. Escreveu em torno de 70 livros, entre eles “O Cerco da Lapa e Seus Heróis”. Por inspiração do pai, reuniu durante toda sua vida uma coleção de objetos, documentos e pinturas que retratam a história do estado, como a Revolução Federalista, abrigadas no museu particular que fundou, em 1928.

A fachada é o que restou da residência da família Carneiro, que hoje dá lugar ao Espaço Cultural que leva o nome de seu construtor. A construção da casa data do final da década de 1940 e foi inspirada na residência do escritor português Eça de Queiroz – “o ramalhete”. A mudança para o endereço, onde antes funcionava a ervateira da família destruída em um incêndio, ocorreu em decorrência do falecimento de uma das filhas do intelectual, como lembra Elisa Marilia Prado Carneiro, neta de David. “Como todos os lugares da antiga casa [na Rua Desembargador Motta] lembravam a filha, meus avós resolveram construir na Brigadeiro Franco. Esta casa era grande. Do lado direito, olhando de frente, ficavam os quartos e do esquerdo a biblioteca do meu avô”, conta.

O coordenador de pesquisa histórica da Fundação Cultural de Curitiba, Marcelo Sutil, explica que os traços neocoloniais não são característicos do período da construção, mas resultam de um resgate feito por Carneiro ao movimento, que surgiu por volta dos anos 1920 em resposta ao ecletismo vigente até então. “Este é um tipo de arquitetura que praticamente desapareceu das ruas da cidade. Os azulejos na fachada e as pedras ao redor das janelas são algumas referências a este movimento”, diz.

O museu

Depois que a residência ficou pronta, o intelectual investiu na obra “barroca” que abrigaria o acervo do seu museu particular, iniciado nas primeiras décadas do século 20 e um dos maiores do Brasil.

O prédio era composto pelas salas de exposição e pela Capela da Religião da Humanidade, além de um auditório nos quais aconteciam as conferências positivistas, corrente da qual Carneiro era entusiasta.

Após a morte do intelectual, em 1990, o imóvel passou a pertencer ao Banco do Brasil como pagamento de uma dívida da família. Em 1998, um grupo de cinco empresas adquiriu a área que recebeu o conjunto de edifícios. “À época da construção havia somente a casa onde vivia a família. Em um acordo com a prefeitura, parte dela foi demolida para dar espaço ao conjunto, mantendo-se a fachada e a entrada originais”, conta Lilian Franco, gerente geral do Pestana Curitiba.

Como contrapartida à demolição parcial, o município concedeu o uso do local em comodato por 99 anos, desde que mantido o Espaço Cultural David Carneiro. Das três torres do conjunto, duas estão sob a administração do Pestana: a que abriga as instalações do hotel, com 172 quartos, e a corporativa, locada para a rede e onde funciona o espaço cultural. A terceira torre abriga as unidades residenciais do complexo.

Acervo David Carneiro está disponível para visitação

Objetos de partilha e de disputa entre os herdeiros e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), boa parte das cerca de 5 mil peças que compunham o acervo do Museu Coronel David Carneiro – tombadas pelo estado e pelo instituto – foram adquiridas pelo governo do Paraná, em 2004. Hoje, elas estão expostas ou abrigadas na reserva técnica do Museu Paranaense. São armas, quadros, medalhas, uniformes e documentos que contam parte da história militar do estado, como a Revolução Federalista e a Guerra do Contestado. “Também há artigos arqueológicos, como pontas de flecha, machadinhas e urnas. Dos seis acervos arqueológicos tombados pelo Iphan no Brasil, dois estão aqui. Um é o do museu e o outro do David”, conta Renato Carneiro, diretor do Museu Paranaense.

Acervo compartilhado

Uma parte desta coleção foi disponibilizada para o acervo do Museu Histórico da Lapa. O Espaço Cultural David Carneiro também conta com exposição de peças de mobiliário e de uso pessoal do historiador e intelectual para os visitantes.

Fontes consultadas: Rosina Parchen, chefe da Coordenação do Patrimônio Cultural da Secretaria de Estado da Cultura, e Casa da Memória
  • Casa foi inspirada na residência “o ramalhete”, do escritor português Eça de Queiroz
  • Resquício da arquitetura neocolonial, casa de David Carneiro contrasta com as torres modernas ao fundo.
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