"Acho que em qualquer época eu teria amado a liberdade; mas na época em que vivemos, sinto-me propenso a idolatrá-la"
(Tocqueville)

Semana da Pátria: dica de leitura – Biografia da Imperatriz Leopoldina

Imprimir Artigo

Livro Leopoldina

Cinco anos após a França de Napoleão declarar guerra à então poderosa Áustria, e Francisco II ser declarado Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, nascia – no dia 22 de janeiro de 1797 –, na cidade de Viena, a futura Imperatriz brasileira: Maria Leopoldina Carolina Josefa de Habsburgo-Lorena.

Aproveitando a proximidade do dia 7 de setembro, aniversário de nossa Independência, e a semana da pátria que antecede aquela comemoração, gostaria de escrever este artigo para indicar a leitura da biografia desta que foi uma das mais fascinantes figuras da história política brasileira. Escrita pelo historiador e escritor Paulo Rezzutti, o livro “D. Leopoldina: a história não contada – A mulher que arquitetou a Independência do Brasil” é leitura valiosa.

Resumindo algumas das datas mais relevantes, podemos relembrar que Leopoldina casou-se com D. Pedro I em 1817. No mesmo ano veio para o Brasil, país que jamais deixaria. Isso ocorreu pouco após testemunhar em primeira pessoa a ascensão de Napoleão e sua queda em 1814, bem como o Congresso de Viena (um dos acontecimentos políticos mais importantes do século, responsável por reorganizar a Europa pós-Napoleão, em 1815).

Como registra a historiadora Viviane Tassitore:

alegre, cheia de vida, disposta a enfrentar seus temores e a demonstrar força e coragem sempre que necessário, com uma profunda fé cristã e uma sólida formação científica e cultural, que incluía política e noções de governo, e preparada para reinar, d. Leopoldina aceitara, com o noivado, o desafio de ser a primeira princesa europeia a se casar no continente americano” (p. 364-365).

O dia de sua chegada ao Rio de Janeiro foi 5 de novembro, tendo desembarcado um dia depois, quando foi celebrada a benção de sua união matrimonial na Capela Real (o casamento já havia sido realizado por procuração em maio daquele ano).

Leopoldina presenciou, então, todos os acontecimentos relevantes da Independência brasileira, desde a crise em Portugal no ano de 1820 até a consumação da proclamação em 7 de setembro de 1822.

Mais do que isso: Leopoldina não foi apenas testemunha desse processo. Ela teve um papel de destaque no seu desenrolar. Não por outro motivo, o subtítulo da obra: “A mulher que arquitetou a Independência do Brasil”.

Com efeito, em 14 de agosto do ano da Independência (1822), D. Pedro havia deixado a capital no Rio de Janeiro e partido rumo a São Paulo. Um dia antes (13 de ago.), nomeara sua esposa como Regente do Brasil. Leopoldina, portanto, foi nada menos do que a primeira mulher a chefiar – ainda que interinamente – o Governo brasileiro.

Foi durante sua regência que Portugal tentou dar um ultimato no Brasil, buscando impor uma série de medidas que na prática faziam com que o país retornasse a um status de colônia. Em 2 de setembro daquele ano, reagindo a uma carta que determinava o retorno da família real para Portugal, Leopoldina convocou e chefiou um Conselho de Estado, presidido por ela e composto pelos ministros. Naquele ato ficou deliberado, após fala determinante de José Bonifácio, que se escrevesse para D. Pedro impelindo-o a proclamar a Independência brasileira.

Aquele não foi um ato impetuoso. Já bem antes, Leopoldina dava sinais de favorecer a causa brasileira. De uma formação intelectual brilhante e tendo sido educada nos círculos mais seletos da Europa, Leopoldina utilizou toda sua perspicácia e contatos em seu continente de origem para favorecer o processo de Independência do Brasil.

Sua história como Imperatriz, no entanto, foi curta. Após a Independência, vítima de desprezo pelo marido, Leopoldina viu seu estado de saúde se deteriorar até sua morte em 11 de dezembro de 1826, quando contava com apenas 29 anos. Figura bastante popular, seu falecimento foi vigorosamente lamentado pela população, inclusive pelas camadas mais simples. As circunstâncias de sua morte ainda acabaram por contribuir para o desgaste da popularidade do Imperador D. Pedro I, o que levou a sua renúncia em 1831.

Aqui, todavia, não quero me deter nos pormenores históricos. Para isso, indico a leitura da obra. A série “Brasil – A Última Cruzada” do Brasil Paralelo também é um repositório seguro dos fatos da Independência, ainda que com muito menos detalhes sobre a trajetória de vida e participação de Leopoldina no evento.

Gostaria aqui de me concentrar nos motivos pelos quais creio que a obra deva ser lida.

O principal motivo é: Leopoldina é uma personalidade que merece ser mais estudada. De fato, ao ler a obra me dei conta de que a Primeira Imperatriz brasileira e uma das responsáveis pela nossa Independência vinha de uma das mais poderosas famílias europeias, a qual “reunia tradição, poder e cultura” (p. 364), o que indica que o Brasil era visto como uma nação promissora. Leopoldina era dotada de uma inteligência ímpar e recebeu uma formação sofisticada, de modo que me parece uma das figuras mais exuberantes de nossa história política. Ademais, adotou o Brasil como pátria e se dedicou a ele com todas as suas forças, sendo peça chave e condigna da fundação do país.

Em segundo lugar, creio que o livro conta com alguns argumentos interessantes que perpassam toda sua narrativa. Esses argumentos estão bem sumarizadas no artigo “A primeira Imperatriz do Novo Mundo”, da historiadora Viviane Tessitore. O texto acompanha o livro a título de posfácio. Lá consta que até início do séc. XX, a imagem que sobressai de Leopoldina é a de “esposa martirizada”, mulher dedicada à caridade e coadjuvante do marido na Independência. Mais tarde, alguns biógrafos da principal amante de D. Pedro I, a marquesa de Santos, buscaram inclusive deturpar a imagem de Leopoldina, descrevendo-a como uma estrangeira aristocrática, feia, sem vaidades, desinteressante e apática.

Essa foi a imagem que muitos receberam nos estudos colegiais.

Contudo, durante o século XX, a riqueza de documentos que foram sendo estudados e a ampliação da bibliografia disponível levaram a revisões da história da Imperatriz. Conforme registra a historiadora acima mencionada:

a mulher que emerge da documentação é outra: forte e determinada, com posicionamentos políticos definidos e disposta a pagar o preço por eles, tornando-se, antes mesmo do marido, ativa no movimento da Independência. Uma mulher que exerceu o poder indiretamente, como consorte do soberano, e diretamente, quando substituiu o príncipe regente e posterior imperador ausente no governo do país, que ficou pela primeira vez em mãos femininas” (p. 361).

Aliás, as próprias humilhações suportadas por Leopoldina em virtude do tratamento dispensado pelo marido, analisadas sob perspectiva ampliada, não revelam passividade ou resignação, mas fortaleza consciente em vista do plano que tinha em vista e que executava como protagonista: auxiliar na formação da nação recém-emancipada, buscando evitar desgastes à Coroa e instabilidade no país. Ainda mais: visava construir e apresentar um verdadeiro modelo de conduta virtuosa dentro da Casa Real, inclusive contrabalanceando a postura tosca e impopular do marido. Talvez, o sofrimento ao final da vida decorresse exatamente da percepção de que a conduta escandalosa de D. Pedro I já levava à perda de prestígio do governo e ameaçava aquilo que ela tentara construir com tanto sacrifício pessoal. Há, inclusive, relatos de que as tropas do Exército já planejavam derrubar D. Pedro em 1824, tendo sido exatamente o enorme respeito à Imperatriz o que os impedira de levar tal plano a cabo.

Enfim, a Imperatriz Leopoldina foi uma pessoa de personalidade interessante, bem preparada, com uma educação humanista e integral, protagonizou uma história nada trivial e com impacto decisivo na história nacional. Por tudo isso, cremos que sua biografia merece ser estudada. E acreditamos que a obra apontada acima é uma excelente referência sobre o tema.

Para quem quiser, gravei um vídeo no YouTube contando mais algumas impressões que tive da obra.



Compartilhe:

8 recomendações para você

Desenvolvido por bbmarketing.com.br