"Acho que em qualquer época eu teria amado a liberdade; mas na época em que vivemos, sinto-me propenso a idolatrá-la"
(Tocqueville)

A Odisseia de Homero

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Sem dúvida, um clássico!

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Há alguns meses fizemos um breve post sobre a Ilíada de Homero, e lá registramos alguns dados que devem ser repisados:

Há séculos os literatos discutem qual o catálogo dos clássicos. Ao menos desde Quintiliano, que com sua “Institutio Oratoria” indicou uma biblioteca mínima para os alunos de retórica e pautou todo o critério de importância das obras escritas até ele, o debate é intenso, incessante; e um acordo, inviável.

A consulta aos vários cânons de clássicos escritos pelos vários autores demonstra uma enorme disparidade de listas, com livros que ora aparecem, ora somem; autores que ganham enorme relevância, tendo várias obras apontadas, e então recaem no mais profundo esquecimento.

Todavia, essas várias listas, por mais variadas e díspares, possuem ao menos um ponto de absoluto consenso: os épicos de Homero, a Ilíada e a Odisseia.

Se alguém merece o título de “pai fundador” da literatura ocidental, esse alguém é ele, Homero.

Não à toa, já foi escrito no jornal O Globo que:

‘Com a Ilíada e Odisseia, Homero Lançou os fundamentos da Cultura do Ocidente.’

É um fato.”

Neste artigo iremos tratar da segunda grande obra homérica: A Odisseia. Nossa ideia é descrever o tema central do livro, suas partes, e apresentar um pequeno resumo da história. Em um segundo artigo, pretendemos indicar as lições éticas, jurídicas e políticas que podemos extrair dos versos do poeta.

A Odisseia de Homero

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A Odisseia pode ser classificada como um romance em verso sobre a luta apaixonada de Odisseu (ou Ulisses, na tradição latina) para retornar à casa depois da Guerra de Troia, e retomar o convívio da esposa e do filho.

Com efeito, a obra conta como depois da batalha épica, Odisseu permanece vagando durante 10 anos, por vingança de Posido ou Poseidon – o deus dos mares -, tentando apaixonadamente retornar para a casa e para o convívio da esposa (Penélope) e do filho (Telêmaco). Enquanto isso, sua mulher é assediada por pretendentes que dilapidam o patrimônio da família. Ao final, Odisseu consegue retornar, vingando-se dos pretendentes e reconquistando convívio do lar e o governo de sua cidade.

A obra pode ser dividida em três partes:

1ª partecolocação do tema e busca de Telêmaco: o autor introduz o assunto do livro, ao narrar como Telêmaco, lacerado de saudades do pai, e vendo a mãe assediada por pretendentes, parte em busca dos antigos heróis da Guerra de Troia para obter notícias de Odisseu. Isso ocorre entre os Cantos I e IV do livro.

2ª parteOdisseu chega à Feácia e conta suas aventuras: a partir do Canto V, a obra muda totalmente de ambiente, deixando de lado a aventura de Telêmaco, cuja narrativa só será retomada ao final quando esse se reencontra com o pai, e passa a centrar-se propriamente no protagonista, o herói Odisseu.

Entre os Cantos V e VIII, o poema conta como Odisseu que, ao início do livro se encontrava preso pela deusa Calipso na Ilha Ogígia – visto que essa queria desposá-lo, enquanto ele desejava ardentemente retornar para casa -, é libertado por ela por ordem dos deuses, e parte até a ilha dos feácios, um povo náutico, acostumado a salvar náufragos e levá-los de volta à casa.

Recebido por aquele povo, durante os Cantos IX e XII – trecho cujos relatos são os mais famosos da obra – Odisseu relata suas aventuras desde quando deixou Troia até aquele momento: como seu grupo foi impedido pelos deuses de retornar direto à casa, em virtude das más ações de alguns durante a guerra, enfrentando uma tormenta que os levou à ilha dos Ciclopes onde enfrentou o gigante Polifemo; como passou pelas sereias sem ser seduzido pela voz de seu canto; como enfrentou a serpente de várias cabeças (Cila) e o tufão dos mares (Caribde) etc.

Ao final dessa parte, completamente apiedados pela número de trabalhos e sofrimentos enfrentados por Odisseu, os feácios o levam de volta à sua terra materna: a Ilha de Ítaca, que segundo os estudiosos, fica nas atuais ilhas gregas de Tiaki e Leucas.

3ª parte – A vingança de Odisseu e a retomada do lar e da pátria: a partir do Canto XIII, o livro conta como Odisseu chega a Ítaca, vinga-se dos pretendentes e retoma o convívio familiar e o governo da ilha.

Percebe-se que o conto não segue a ordem cronológica dos acontecimento, que seria:

1º – Odisseu passa por várias aventuras após deixar Troia;

2º – depois de duas décadas de ausência do pai, Telêmaco sai em busca dele;

3º – Odisseu retorna, vinga-se dos pretendentes e retoma o convívio familiar.

Os especialista afirmam que as aventuras de Telêmaco (Telemaquia) são, provavelmente, uma incorporação tardia. Algo comum em romances: continuar a narrativa por meio da aventura de outras gerações, quando esgotadas as possibilidades do herói inicial. Seria mais ou menos o que ocorreu com a saga Star Wars ou possivelmente com Harry Potter, só que na ordem inversa. Nesses últimos, a primeira saga mostra as aventuras de Luke Skywalker, e numa nova série as de seu pai, Anakin Skywalker; no segundo caso, a sequência de livros explora inicialmente a história de Harry Potter, deixando aberta a possibilidade de mostrar as aventuras da geração anterior ao enfrentar o mesmo vilão, Voldemort.

Os estudiosos também apontam uma diferença muito clara entre a Ilíada e a Odisseia no que toca ao gênero literário: enquanto a primeira é um épico, contando parte dos feitos do povo grego; a segunda – nas palavras de Carlos Alberto Nunes – “é puro romance, de enredo bem-arquitetado” (pág. 8 da edição da Nova Fronteira de 2015). O relato aqui não se foca nos grandes feitos épicos de uma nação; “o tema da Odisseia é principalmente psicológico, ou interior”: “o propósito inalterável do herói de atingir a sua meta, ou seja, a reconquista do próprio palácio e da afeição da esposa“, tendo “como ponto culminante a cena do reconhecimento entre Odisseu e Penélope” (p. 10 da mesma edição).

Vejamos, pois, um breve resumo de cada Canto do poema. Frise-se que a leitura abaixo não dispensa – de modo algum! – a leitura integral da obra. É que, em se tratando dos clássicos, não importa saber apenas o que eles contam ou dizem; mas experimentar como disseram. É a musicalidade, a beleza e envergadura do conto que deixam marcas indeléveis na alma e na inteligência do leitor. De todo modo, segue a título de introdução, uma rápida sumarização das aventuras do herói.

Sinopse da Odisseia

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Nesta breve sinopse, vamos nos valer da divisão do poema de Marcus Reis Pinheiro, utilizada na edição da Editora Nova Fronteira, separando a história em um Prelúdio e seis partes.

Prelúdio – Canto I: colocação do tema

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O primeiro canto, antes das seis partes do poema, serve de prelúdio. Ele coloca o material da narrativa: as aventuras de Ulisses (Odisseu) durante seu retorno da Guerra de Troia.

Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso que muito

peregrinou, dês que esfez as muralhas sagradas de Troia (…)

Perceba que esse é mais o contexto do poema, do que seu tema. O tema, como ocorre em todo romance, é interior. Passa-se na intimidade do herói. De fato, como anota Susan Wise Bauer em seu clássico “A Mente Bem Educada”, traduzido para o português pela Editora É Realizações sob o título “Como Educar sua mente”, a principal característica do romance é o “vislumbre da vida interior de uma personalidade individual” (p. 74 da edição em português).

Nessa linha, o tema da Odisseia é, na verdade, o desejo do protagonista de retornar à casa e sua atuação obstinada para tanto. Suas aventuras compõem o quadro narrativo em que essa ação interior se desenvolve.

O relato inicia com uma reunião dos deuses do Olimpo, em que Atena relata a Zeus que Odisseu, apesar de piedoso para com as deidades, já tendo ofertado abundantes oferendas aos olímpicos, ainda não conseguiu retornar à casa e ao convívio da família, o que muito sofrimento lhe traz.

A narrativa, como dito acima, inicia quando Odisseu está na Ilha Ogígia, refém da deusa Calipso, que lhe quer ter por esposo, sob promessa de fazer-lhe divino, à custa de esquecer-se da casa e da família. Atena relata a Zeus como Odisseu não pretende desposar a deusa, mas sim voltar à casa.

Zeus afirma que a demora do retorno de Odisseu se deve à ira de Posido (Poseidon em algumas traduções), em virtude de Odisseu ter privado da vista o ciclope Polifemo, filho do deus das águas. Contudo, resolve que tendo todos os demais deuses concordado em conceder o retorno a Odisseu, não é possível a Posido isoladamente privá-lo de seu desejo. Assim, autoriza os demais a diligenciarem o retorno do herói.

Atenas, então, informa que o deus Hermes será enviado à Ilha de Ogígia para alertar Calipso que deverá libertar Odisseu. Enquanto isso, Atenas descerá para informar Telêmeco de que o pai vive e retornará, e que Telêmeco deve se dirigir a Esparta e Pilo, para falar com Nestor e Menelau (heróis na Guerra de Troia e personagens importantes da Ilíada), a fim de ter notícias do pai.

Atena assim procede. Ao se dirigir à morada de Telêmaco, em Ítaca, encontra sua casa lotada de pretendentes da mãe. Com efeito, após o fim da Guerra de Troia, não tendo Ulisses retornado, Penélope, sua esposa, passa a receber pretendentes. Como ela guarda esperança do retorno de Odisseu, não aceita casar-se. Porém, como o filho ainda é menor, também não recusa os pretendentes, a fim de não deixar a casa permanentemente sem um homem adulto. Assim, enquanto ela não se resolve, esses ficam nas propriedades dela, vivendo às suas custas e dilapidando os bens que seriam herdados por Telêmaco.

Atena orienta o jovem a dar um ultimado nos pretendentes e depois a preparar-se para a viagem, a fim de ter notícias do pai.

Primeira parte: Telemaquia – Canto II a IV

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Como dito rapidamente, a Telemaquia segue um estilo comum que consiste em, após o esgotamento das aventuras de um herói, explorar as de seus descendentes (como no desenho animado Dragon Ball) ou ascendentes (tal qual na saga Star Wars). A Telemaquia, por isso, apesar de colocada no início do poema, provavelmente, foi a última parte a ser elaborada. Ela conta as aventuras de Telêmaco, filho de Odisseu, ao partir em busca de notícias do pai.

Canto II – Telêmaco fala aos pretendentes e parte em viagem

Telêmaco convoca a assembleia dos itacenses e dá um ultimato aos pretendentes, de que parem de usufruir de seus bens, ou serão objeto de sua vingança. Solicita, ainda, um navio para viajar a Esparta e Pilo para ter notícias do pai. Os pretendentes se recusam a deixar sua casa e a fornecer-lhe o navio. Telêmaco, então, recebendo uma pequena nau de Noémone, um morador da ilha e seu aliado, e provisões de sua ama Euricleia, parte escondido para aqueles lugares.

Canto III – Ida de Telêmaco a Pilo, a ilha do herói Nestor

Telêmaco vai até Pilo, acompanhado de Atena, onde encontra Nestor, o qual descreve alguns fatos ocorridos em Troia e que, após a vitória, não quiseram os deuses conceder rápido retorno aos gregos, em virtude das más ações cometidas durante a investida.

Ele diz que houve discussão entre os gregos, os quais se dividiram em dois grupos. O de Nestor partiu logo, enquanto o de Odisseu permaneceu com Agamémnone (líder dos gregos na Guerra de Troia). Nestor conta ainda como ocorreu o trágico destino de Agamémnone, o qual traído por sua mulher (Clitemnestra) com Egisto, foi assassinado por este último. Morte mais tarde vingada por seu filho, Orestes.

Após ouvir esses relatos, Telêmaco, orientado por Nestor, dirige-se a cavalo junto com Pisístrato (filho de Nestor) à Lacônia, a fim de encontrar Menelau.

Canto IV – Telêmaco vai à Lacônia falar com o herói Menelau

Telêmaco chega à Lacônia com Pisístrato, sendo recebido por Menelau, o qual apresenta relatos de episódios da Guerra de Troia, envolvendo Odisseu. Fala do Cavalo de Troia, episódio que não aparece na Ilíada. É a primeira vez que a lenda do Cavalo de Troia aparece nos textos homéricos.

Helena intervém e conta que Odisseu chegou a adentrar o muros de Troia fantasiado de mendigo e conversou com ela, quando esta já estava arrependida de ter abandonado a Grécia e Menelau para juntar-se com o herdeiro troiano Páris. Por isso, conta ela que ajudou Odisseu, fato que segundo a lenda foi inclusive relevante para que Helena fosse novamente aceita por Menelau.

Menelau conta como, durante sua passagem no Egito, Proteu, filho do deus Posido, informou-lhe que Odisseu estava vivo, sendo mantido refém da deusa Calipso em uma ilha.

Enquanto isso, os pretendentes, em Ítaca, organizam uma conspiração contra Telêmaco. O fato da partida do jovem e do plano dos pretendentes chegam aos ouvidos de Penélope, que se desespera. Após momentos de tormento e angústia, Penélope cai em pesado sono. Atena, em sonho inspira confiança em Penélope, a qual acorda renovada.

Os pretendentes se dirigem a uma pequena ilha no caminho pelo qual Telêmaco teria de passar para voltar a Ítaca e ali armam emboscada contra ele.

Nesse ar de suspense, encerra-se a primeira parte do poema, a Telemaquia.

Segunda parte – Odisseu parte da Ilha de Calipso (Ilha Ogígia) e chega à terra dos Feácios (chefiados por Alcínoo)

Odisseu e Nausícaa – Pieter Lastman – 1619

Canto V – Partida de Odisseu da Ilha de Calipso para a terra dos Feácios

Zeus convoca uma segunda assembleia das deidades. Atena reclama que Odisseu ainda não foi libertado e que os pretendentes de sua esposa tramam contra o Telêmaco. Zeus afirma que ela já tem autorização para ajudar Odisseu e Telêmaco. Zeus, finalmente, envia Hermes para que determine a Calipso que liberte Odisseu. Hermes transmite a mensagem para Calipso, contando-lhe que os gregos não puderam retornar após a vitória em Troia por terem desagradado Atena, que enviou fortes ondas contra os navios. Calipso descreve como acolheu Odisseu quando ele chegou a sua ilha como único sobrevivente de um naufrágio, abraçado na quilha da nau.

Calipso se dirige a Odisseu, o qual se encontrava chorando na praia de saudades da casa e da família. Informa que o libertará, embora o advirta de que se soubesse dos trabalhos que ainda deveria passar antes de tomar posse de sua casa, optaria por ficar com ela, desposá-la e deixar que ela o tornasse divino. Mas, visto que Odisseu escolhe partir, orienta-o a construir uma jangada e avisa que lhe fornecerá mantimentos para a viagem.

Odisseu procede conforme orientação da deusa. Parte e navega por 17 dias, quando vislumbra o monte de pedras da ilha dos Feácios. Posido vê que os deuses o libertaram de Calipso e que está prestes a chegar à Feácia. Para causar-lhe maiores males, torna o mar revolto. Odisseu ao verificar a mudança do tempo fica tomado de temor. Após algum tempo em que guiava a jangada, lutando contra a forte tempestade, ele se desfaz das roupas que o submergiam e larga a jangada estraçalhada pelas ondas, buscando nadar até a terra Feácia. Odisseu, abraçado em uma tábua da nau destruída, fica mais dois dias vagando em meio às ondas, até que alcança a ilha dos Feácios, totalmente combalido. Faz uma cama com folhas e mergulha em sono profundo.

Canto VI – Odisseu é encontrado por Nausícaa, a filha do chefe da Ilha

Nausícaa, filha de Alcínoo (chefe da ilha e do povo feácio), inspirada por Atena em sonho, vai com outras servas até onde Odisseu estava dormindo. Encontra-o, fornece-lhe alimentos e roupas, e o acompanha até o centro da cidade, próximo de onde ficava a casa de seu pai.

Canto VII – Odisseu chega à casa de Alcínoo.

Atena aparece a Odisseu e o guia do centro da cidade até a casa do pai de Nausícaa. Chegando lá, Odisseu se lança aos pés da esposa de Alcínoo, Arete, implorando que lhe conceda um barco e o leve de volta à casa. Alcínoo ouve e concorda com a súplica, acolhendo Odisseu e fornecendo-lhe estadia. Arete reconhece as roupas que Odisseu usava (fornecidas por Nausícaa) e lhe pergunta de onde vem e quem lhe deu aquelas vestimentas. Odisseu conta o que lhe ocorreu desde a ilha de Calipso até a ajuda que recebeu de Nausícaa.

Canto VIII – A assembleia dos nobre Feácios com Odisseu

Reúne-se uma assembleia de nobres feácios na casa de Alcínoo, para recepção do estrangeiro. Alcínoo informa sobre a chegada de Odisseu e de sua necessidade de abrigo e de um navio que o leve até sua casa, concitando todos a ajudá-lo, ao que é unanimemente apoiado. Um navio é preparado para partida de Odisseu, sendo sua despedida precedida de uma festa. Eles jantam, cantam e praticam competições esportivas. Um músico inicia uma canção sobre o Cavalo de Troia, a pedido de Odisseu, que revela parcialmente o que ocorreu, sem revelar que era um dos personagens principais da aludida Guerra de Troia:

“Ora começa de novo, e o cavalo de pau nos invoca,

que por Epeio foi feito com a ajuda de Palas Atena,

esse, que o divo Odisseu com astúcia pôs dentro de Troia,

cheio de heróis destemidos, que os muros sagrados saquearam.”

Ao ouvir a música, Odisseu derrama-se em lágrimas e é questionado sobre sua origem.

Terceira parte – O relato de Odisseu sobre suas aventuras antes de chegar na Ilha de Calipso: o relato vai da Ilha dos Ciclopes até os Bois de Hélio, na Trinácria. Essa é a parte que contém os principais mitos conhecidos das aventuras de Ulisses.

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Ulisses e as Sereias – John William Waterhouse – 1891

Canto IX – Os Cíconos, os Lotófagos e o Ciclope

Odisseu se identifica como o herói das guerras de Troia. Conta como após sair da cidade amuralhada, uma ventania lançou a embarcação à terra habitada por Cíconos (ou Ciconianos).

Como já mencionado, o poema atribui as dificuldades no retorno ao desejo dos deuses. Afirma Odisseu: “Dir-te-ei do regresso que fiz, trabalhoso, dado por Zeus, quando a costa de Troia deixei, de retorno“.

No Canto III, Nestor já havia apontado que “após a vitória, não quiseram os deuses conceder rápido retorno aos gregos, em virtude das más ações cometidas durante a investida. Houve discussão entre os gregos, os quais se dividiram em dois grupos. O de Nestor partiu logo, enquanto o de Odisseu permaneceu com Agamémnone.”

O poema põe os seguintes versos na boca de Nestor:

quando a excelsa cidade de Príamo, enfim, destruímos,

às naus subimos velozes; um deus dispersou os Aquivos.

Zeus planejou no mais íntimo triste regresso aos Acaios,

visto nem todos se terem mostrado sensatos e justos,

pela cizânia terrível que a filha do pai poderoso,

a de olhos glaucos, Atena, lançou entre fortes Atridas.

Estes resolvem reunir a assembleia-geral dos Acaios,

inoportunos e contra os costumes, depois do Sol posto.”

Afirma, então, que houve uma contenda. Agamémnone teria pedido que ficassem, ofertando hecatombes a Atenas, a fim de aplacá-la. Porém, diz Nestor: “Tolo! De fato, ignorava que lhe era impossível dobrá-la, pois não se muda assim, prestes, a mente dos deuses eternos.” O grupo de Nestor parte, enquanto o de Agamémnone com Odisseu permanece e encontra dificuldades na volta.

Na terra dos Cíconos, o grupo de Odisseu saqueou e pilhou a cidade, repartindo o tesouro acumulado. Porém, o grupo contrariou o conselho do herói que pretendia partir imediatamente após saquear a cidade. Optaram por permanecer, fartando-se com a comida e bebida roubada. Os Cíconos, então, chamaram grupos de regiões vizinhas para auxiliá-los e iniciaram novo combate, matando seis gregos de cada nave. Os demais conseguiram fugir.

Partiram, assim, e após saírem da terra dos Cíconos, novamente, os deuses impedem o retorno tranquilo: “Sobre os navios lançou o poderoso, que as nuvens reúne, Zeus, tempestade violenta, fazendo que as nuvens cobrissem a terra e o mar juntamente.”

Enfrentaram outra violenta tempestade que levou Odisseu e seus companheiros à terra dos Lotófagos, ou seja, homens que se alimentavam de flores de Lótus. Depois de os membros das embarcações se alimentarem, enviam três homens para conhecer os habitantes daquela terra. Os Lotófagos “não empreenderam fazer nenhum dano aos nossos homens, mas logo fizeram que loto comessem“. “O efeito causado pela ingestão dessa planta era esquecer inteiramente a própria terra de origem, além do desejo de permanecer naquele país. Ulisses precisou utilizar muita força para arrastar seus homens dali, e foi mesmo obrigado a amarrá-los aos assentos nos navios” (p. 357, “O Livro da Mitologia”, de Thomas Bulfinch), dando ordem aos demais para darem partida nos barcos.

Saíram, então, e chegaram “ao país dos soberbos Ciclopes“. O grupo, àquela altura, era composto de 12 navios. Avistaram a gruta do Ciclope gigante, chamado Polifemo – filho de Posido – e, então, em 12 companheiros mais Odisseu foram até lá. Ingressaram na gruta e se alimentaram com a comida que encontraram, e tomaram o vinho que levaram consigo.

O Ciclope retornou e fez entrar seu rebanho de ovelhas na caverna. Fechou a entrada com uma pedra de tamanho descomunal, impossível de ser removida mesmo por um grupo numeroso de homens fortes. Ele só então viu os estrangeiros, momento em que Odisseu lhe solicitou ajuda e hospedagem em nome dos deuses. O Ciclope respondeu que não atendia ao nome dos deuses. Tomou dois dos companheiros e os arremessou no chão, tirando-lhes a vida, fazendo refeição com seus corpos.

Odisseu teve ocasião de matá-lo, mas não o fez, pois percebeu que morreriam ali, visto que não conseguiriam remover a pedra da porta. No dia seguinte, o Ciclope assassina mais dois dos companheiros para o almoço e sai com o rebanho de ovelhas.

Odisseu toma um tronco que estava dentro da gruta e faz uma enorme estaca. Quando o Ciclope retorna à noite com o rebanho, Odisseu oferece-lhe vinho. O Ciclope aceita a bebida e se embriaga. Ele pergunta o nome de Odisseu e esse diz que se chama “Ninguém”.

O Ciclope cai em sono profundo e, então, Odisseu toma a estaca gigante, coloca-a no fogo e com mais quatro companheiros enterra-a no olho do gigante, cegando-o.

Polifemo solta enormes gritos, chamando os demais ciclopes. Quando eles perguntam o que ocorreu, ele diz que “‘Ninguém’ me feriu e quer me matar“. Eles então vão embora, achando que Polifemo se lesionou sozinho.

Odisseu e seus companheiros se prendem na barriga das ovelhas. Quando amanhece, o Ciclope remove a pedra da entrada e deixa-as sair, carregando os intrusos.

Eles fogem para o barco, carregando consigo alguns animais do rebanho. Quando já estão a alguma distância, Odisseu grita ao Ciclope:

Ouve, Ciclope! Se um dia, qualquer dos mortais inquirir-te

sobre a razão vergonhosa de estares com o olho vazado,

dize ter sido o potente Odisseu, eversor de cidades,

que de Laertes é filho e que em Ítaca tem a morada“.

Odisseu ainda provoca Posido, pai de Polifemo, ao afirmar que “não pode curar-te Posido, que a terra sacode“, menosprezando o poder do deus dos mares.

O Ciclope, então, ora a Posido pedindo que Odisseu demore para retornar à casa, perca os amigos e encontre infortúnios em sua pátria.

Ouve-me, ó deus de cabelos escuros, que a terra sacode,

se sou teu filho, em verdade, e te orgulhas de pai me ter sido,

dá que não possa voltar Odisseu, eversor de cidades,

que de Laertes é filho e que em Ítaca tem a morada.

Mas, se é do Fado que deva rever os amigos, e à casa

bem-construída voltar, assim como ao torrão de nascença,

que, miserável, o faça e mui tarde, perdidos os sócios,

em um navio estrangeiro, e aflições vá encontrar no palácio“.

Polifemo foi imediatamente atendido por Posido. Essa maldição de Poseidon explica os demais trabalhos sofridos pelo herói, como ficou demonstrado no Canto I, quando Zeus declara ao tratar das causas dos sofrimentos de Odisseu: “de ter-lhe ódio não cessa Posido, que a terra sacode, pelo motivo de haver o Ciclope privado da vista, sim, Polifemo, a um deus semelhante, de força enormíssima, entre os Ciclopes, gerado que foi pela ninfa Toosa (…). Por essa causa Posido, que a terra violento sacode, quer, não matá-lo, mas tê-lo constante alongado da pátria“.

Feito o rogo a Posido, Polifemo lança uma enorme pedra contra o barco, fazendo-o ancorar na praia onde haviam chegado na ilha e estavam os demais companheiros. Ali fazem refeição e partem.

Canto X – Ilha de Éolo, monarca com domínio sobre os ventos; a tribo dos Lestrigões e a ilha de Circe.

O grupo chega e desembarca na ilha Eólia, onde chefiava Éolo, regente dos ventos por concessão dos deuses. Ele e seus doze filhos dão hospedagem a Odisseu e ouvem sua história. Compadecidos, decidem ajudá-los no retorno à casa. Éolo prende todos os ventos contrários num odre e libera apenas Zéfiro, para que sopre nas velas da nau guiando-os à casa.

Após nove dias de viagem e quando já podiam enxergar a terra nativa ao longe, Odisseu dormiu. Seus companheiros, tomados de inveja, e curiosos para saber se no odre havia ouro e prata recebidos por Odisseu como presente de Éolo, abrem a tampa, liberando os ventos contrários.

Com isso, retornam arrastados à ilha Eólia. Odisseu explica o ocorrido. Éolo vê nisso um sinal de que Odisseu é odiado pelos deuses, o que deveria revelar uma intensa maldade pessoal e o expulsa.

O grupo, então, parte a remo, chegando à Lestrigônia, terra dos lestrigões, seres gigantes. Odisseu atracou seu barco na parte externa de uma baía, enquanto os demais adentraram e atracaram num porto que ali se encontrava. Desembarcaram e Odisseu enviou três companheiros para ter notícias de quem habitava no local. Ao chegarem ao centro da cidade, encontraram a filha do monarca, Antífates, a qual apontou onde ficava a casa do pai. Dirigiram-se para lá e quando chegaram foram recebidos pela esposa do governante, uma gigante, a qual mandou chamar o marido. Imediatamente atacou-os, tomando um deles e devorando-o. Os dois outros fugiram às pressas até os barcos. Os lestrigões soaram o alarme, avisando que havia fugitivos na ilha. Os seres gigantes atacaram as naus com pedras imensas. Apenas o navio de Odisseu que estava ancorado na parte externa conseguiu escapar.

Após a fuga, aportaram na ilha Eeia, onde morava a deusa Circe. Lá chegando ficaram dois dias e duas noites exaustos. Odisseu saiu, subiu numa pedra e ficou a procurar se enxergava sinal de alguém que habitasse a ilha. Viu fumaça subindo em certa altura.

Contou o fato aos companheiros, os quais ficaram aterrorizados e temorosos de novamente defrontarem inimigos como o Ciclope ou os lestrigões. Odisseu buscou acalmá-los e dividiu-os em dois grupos, um chefiado por ele e outro por Euríloco. Tiraram a sorte, sendo o grupo de Euríloco escolhido para ingressar na ilha e descobrir quem lá habitava.

O grupo, formado pelo líder e mais 22 sócios, partiu, chegando à casa de Circe. Lá chegando ouviram um canto belo no interior da morada, quando:

veio Circe e o portão lhes franqueia,

belo e brilhante; os estultos, então para dentro a seguiram,

com exceção só de Euríloco, por suspeitar de algum dolo“.

Circe, então, fornece alimento e bebida ao grupo que entrou, enquanto Euríloco observa os fatos do lado de fora da casa. Circe mistura na bebida uma droga que os faz perder a memória e, logo após, lança contra eles um encanto, tocando-os com uma varinha em seus ombros, transformando-os em porcos.

Euríloco horrorizado, parte para junto de Odisseu e, aos prantos, conta o ocorrido, implorando que partam dali e salvem os que restaram. Odisseu afirma que “força incontida” o “obriga” a ingressar na ilha para tentar salvar os companheiros.

Odisseu, então, ingressa na ilha e conta: “quando estava no vale sagrado e do grande palácio me aproximava, de Circe que todas as plantas conhece, Hermes me veio encontrar, o imortal que o bastão de ouro leva – a antes de a casa chegar – na figura de um moço radiante“. Hermes deu a Odisseu um antídoto ao feitiço de Circe. Orienta-o a logo que Circe o tocar no ombro, tomar a espada e solicitar que a deusa prometa solenemente que nenhum mal o fará se ele nada contra ela fizer. Ele ainda pede que ela liberte seus companheiros.

Assim, ocorre. Circe liberta-os e lhes dá excelente hospedagem. Eles ficam em sua ilha por um ano. Após esse período pedem que Circe os envie de volta a Ítaca. Ela, porém, responde que não poderão ir diretamente para lá, o que desespera a todos.

Afirma que antes terão de ir à mansão dos mortos, dominada pelo deus Hades e sua esposa, a deusa Perséfone, para consultar um cego adivinho, o tebano Tirésias. Ela explica como devem fazer para chegar ao local onde poderão consultar os mortos. Embora contrariados por terem de enfrentar novas aventuras antes de partirem para casa, embarcam rumo ao local indicado por Circe.

Canto XI – Odisseu consulta os mortos

Chegam à ilha indicada por Circe. Odisseu procede conforme orientado pela deusa e estabelece contato com o mundo dos mortos. Encontra o tebano advinho Tirésias. Esse lhe diz que retornará à casa, mas ainda terá de enfrentar novos trabalhos, em virtude da fúria de Posido em razão de Odisseu lhe ter cegado o filho.

Tirésias afirma que, apesar dos trabalhos, chegarão na Ilha Trinácria, onde ficam os bois do deus Hélio. Se lá nada fizerem contra os bois e as ovelhas, terão retorno contente. Caso qualquer lesão pratiquem contra esses animais, Odisseu chegará em Ítaca após longo período, e somente depois de perder o barco e ver morrer os companheiros. Sendo que ao chegar à casa, encontrará ainda novos sofrimentos, pois pretendentes lhe devorarão os bens e tentarão conquistar sua esposa.

Diz o poema:

vira-se o grande vidente e me diz as seguintes palavras:

‘Andas em busca do doce regresso, Odisseu preclaríssimo,

mas há de um deus agravar-te o retorno; não creio que escapes

do que sacode os pilares da terra, pois sempre irritado

contra ti se acha, por teres o filho querido cegado.

Mas, apesar dos trabalhos, à pátria hás de ir ter estremada,

se conseguires refrear a cobiça e a dos teus companheiros,

quando chegar teu navio, de sólida e bela feitura,

à ilha Trinácria, fugindo da sanha das ondas violentas,

onde hás de ver nas pastagens as vacas e pingues ovelhas

de Hélio que tudo discerne e que todas as coisas escuta.

Se nenhum mal lhes fizerdes, cuidando somente da volta,

posto que muitos trabalhos tenhais, ainda haveis de ver Ítaca;

mas se as lesardes, então, desde já te anuncio a ruína

dos companheiros, bem como da nave; conquanto te salves,

hás de voltar muito tarde, com perda de todos os sócios,

em nave estranha, indo em casa encontrar infinitos trabalhos,

homens de grande soberba, que todos os bens te devoram,

e que tua esposa divina pretendem ganhar com presentes.

Mas, lá chegado, sem dúvida a todos darás o castigo.

Diz Tirésias, ainda, que de um modo ou de outro, após retomar o convívio do lar, deve ofertar especiais sacrifícios aos deuses, especialmente a Posido:

sacrifícios esplêndidos logo oferece a Posido,

primeiramente um carneiro, depois um novilho e um cachaço.

Volta, depois, para casa e oferece hecatombes sagradas

às divindades eternas, que moram no céu espaçoco,

a todas elas, por ordem.

Diz o adivinha Tirésias que, assim procedendo, Odisseu viverá longa vida e morrerá feliz, governando sua pátria:

(…) distante do mar há a Morte

de te surpreender por maneira mui doce e suave, ao te vires

enfraquecido em velhice opulenta e deixares um povo

completamente feliz. Eis que toda a verdade te disse“.

Odisseu, então, suspende a narrativa. Mas Alcínoo pede que conte se no Hades teve acesso a alguns de seus companheiros da Guerra de Troia:

Vamos! Agora me fala e responde conforme a verdade,

se viste, acaso, qualquer dos excelsos amigos, que outrora

a Ílio viajaram contigo, onde acerbo destino encontraram?

(…) Ora os feitos nos conta admiráveis.

Consentiria em ficar até vir-nos a aurora divina,

se suportasses, aqui no salão, teus trabalhos contar-nos

Odisseu, então, relata como falou no Hades com Agamémnone, Aquiles e também Ajaz. Aqui o poema narra o que ocorreu com Ajaz, que após disputar com Odisseu a herança da armadura de Aquiles, sendo derrotado, suicidou-se. A disputa entra Ajaz e Odisseu, na mitologia grega, com a vitória do último, indicava a superioridade da sagacidade sobre a força bruta.

Odisseu conta, então, como se levantou da visão do mundo dos mortos e partiu com os companheiros a barco, retornando à Ilha Eeia, onde habitava Circe.

Canto XII – A ida até a Trinácria, passando pelas Sereias e enfrentando Cila e Caribde. A perda dos companheiros e a chegada à Ilha de Calipso.

Chegando à ilha Eeia, o grupo é recebido por Circe, que os concede hospedagem e refeição. Odisseu conta a Circe tudo o que ouviu de Tirésias.

Circe, então, revela-lhe o caminho que terá de percorrer, buscando preveni-lo dos riscos.

Primeiramente, informa sobre as Sereias e seu canto:

Quem quer que, por ignorância, vá ter às Sereias, e o canto

delas ouvir, nunca mais a mulher nem os tenros filhinhos

hão de saudá-lo contentes, por não mais voltar para casa.

Enfeitiçado será pela voz das Sereias maviosas.

Elas se encontram num prado; ao redor se lhe veem muitos ossos

de corpos de homens desfeitos, nos quais se engrouvinha a epiderme.

Passa de largo, mas tapa os ouvidos de todos os sócios

com cera doce amolgada, porque nenhum deles o canto possa escutar.

Afirma que mais à frente na viagem, Odisseu encontrará uma gruta na qual mora a terrível Cila, uma espécie de serpente gigante com seis cabeças. Descreve, ainda, que próximo dali, habita Caribde, um tufão das águas que três vezes ao dia aspira tudo o que está na superfície. Orienta Odisseu a passar perto de Cila, pois perderá apenas seis companheiros, cada um devorado por uma cabeça do monstro, mas ao menos não perderá a embarcação toda, o que arrisca ocorrer se passar pelas águas no momento em que Cila atacar.

Descreve que após chegarão à ilha Trinácria, onde encontrarão ovelhas e vacas de Hélio, prevenindo-os de que:

Se todas elas deixardes ilesas, pensando na volta,

a Ítaca haveis de chegar, apesar dos trabalhos da viagem;

mas, se lesardes alguma, anuncio-te a ruína dos sócios

e do navio; conquanto tu próprio te salves, mui tarde

e miserável à pátria hás de ir ter, sem nenhum companheiro“.

Odisseu, então, embarca junto com os companheiros e partem. Odisseu adverte-os sobre tudo o que Circe lhe disse. Ao contar-lhe acerca das Sereias, dá-lhes a seguinte orientação:

peço a vós todos

que me amarreis com bem fortes calabres, porque permaneça

junto do mastro, de pé, com possantes amarras seguro.

Se, por acaso, pedir ou ordenar que as amarras me soltem,

mais fortes cordas, em torno do corpo, deveis apertar-me“.

Rapidamente chegam à ilha das Sereias. Odisseu tapa o ouvido dos companheiros com cera e eles procedem como orientado, amarrando-o ao mastro. Passam então pela ilha. Odisseu ouve o canto das Sereias que o convidam a chegar até o local. Odisseu faz sinal com os olhos para que os companheiros o soltem, mas conforme combinado eles o apertam ainda mais, de modo que passam em segurança.

Chegam ao trecho em que “cheios de angústia” iniciam “a estreita passagem“, por terem “Cila de um lado e Caribde divina do oposto“. No momento da passagem Caribde lança o tufão, motivo por que Odisseu ordenou que dirigissem a nave de modo a navegarem rentes à gruta de Cila. Odisseu vestiu as armas e se colocou no ponto mais alto do navio, para fazer frente ao mostro, jamais vencido. O ataque de Caribde destrai a todos, de modo que “enquanto o olhar para ali dirigíamos, cheios de espanto, seis companheiros do fundo da côncava nave arrancou-me Cila, entre todos os mais distinguidos em força e no braço“.

Quando a cabeça de novo volvi para a célere nave

e para os sócios, por cima de mim percebi que agitavam

as mãos e os pés, a chamar por meu nome com voz angustiosa,

o que fizeram pela última vez na premência em que estavam.

(…)

Cila os comeu ali mesmo, na entrada da gruta, entre gritos;

eles as mãos me estendiam, na luta horrorosa em que estavam.

Foi esse o quadro mais triste de todos que viram meus olhos,

em quanto tenho sofrido a explorar as estradas marinhas“.

Ultrapassam o ponto perigoso e chegam à ilha Trinácria. Odisseu pede que passem direto, mas Euríloco deflagra revolta entre os companheiros, fazendo discurso alegando que o cansaço os impedia de seguir. Odisseu aceita que façam parada, mas avisa os companheiros sobre as profecias e de como deviam deixar intocados os bois e as ovelhas, devendo comer “tão somente, das iguarias de Circe“.

Enquanto na ilha se achavam, contudo, tempestade violenta se abate sobre os mares, impedindo a partida. Após 30 dias na ilha, a comida começa a escassear. Odisseu se afasta certo dia para rezar aos eternos, pedindo que consigam livrar-se daquela situação e retornar à casa.

Nesse meio tempo novamente Euríloco convence os companheiros a matar as reses, alegando que do contrário morreriam de fome. Eles matam os bois e assam a carne. Quando Odisseu retorna percebe o que foi feito e se desespera.

No sétimo dia após a morte das vacas, cessa a tempestade. Todos embarcam. Todavia, em virtude do sacrifício dos animais, Zeus envia terrível tempestade que destrói a nave, matando todos os companheiros de Odisseu. Este se apega a um pedaço do navio e fica vagando durante nove dias. Na noite do décimo, é levado pelo mar à ilha Ogígia, onde é recebido por Calipso, local em que se encontrava no início do poema.

Quarta parte – O retorno de Odisseu a Ítaca

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Canto XIII – Odisseu chega a Ítaca, levado pelos Feácios

Os Feácios, após ouvirem os relatos de Odisseu, apiedam-se ainda mais dele. Concedem-lhe presentes e o levam em um veloz navio até a ilha de Ítaca. Odisseu adormece no caminho. Ao lá chegaram, os Feácios o colocam adormecido na praia junto dos presentes a ele concedidos.

Odisseu acorda e não reconhece a terra natal. Atenas aparece a ele, na forma de um jovem, e lhe informa que está em Ítaca, o que muito alegra o herói. Atenas se revela a Odisseu, informando-o  de que foi ela quem o protegeu para chegar até ali.

Atenas, então, indica-lhe uma gruta para esconder seus tesouros, até que todo seu plano esteja consumado, no que é atendida por Odisseu. Informa que há três anos os pretendentes de sua esposa consomem os bens de sua propriedade. Orienta-o a procurar o porqueiro Eumeu, antigo criado de Odisseu e extremamente leal à família, sem contudo lhe revelar sua identidade. Atenas lhe transforma a aparência na de um velho mendigo para que o antigo servo não o reconheça. Ela diz irá para Esparta, nas campinas de Lacedemônia para buscar Telêmaco, que havia partido para ter notícias do pai.

Ambos, então, partem para executar o plano de Atenas.

Canto XIV – Odisseu chega à casa do porqueiro Eumeu

Odisseu é recebido pelo porqueiro Eumeu com toda hospitalidade. Fingindo ser outra pessoa, conta de seus trabalhos e anuncia que Odisseu está para retornar à casa.

Canto XV – O retorno de Telêmaco a Ítaca

Atenas aparece, em sonho, a Telêmaco e o inspira a retornar para Ítaca. Ela adverte-o da emboscada dos pretendentes, orientando-o a passar longe da ilha em que o aguardam, e navegar apenas durante a noite, informando-o de que um deus o protegerá. Telêmaco atende ao pedido e parte, aportando em Ítaca são e salvo.

Canto XVI – Telêmaco chega à casa de Eumeu, reconhece Odisseu e trama um plano contra os pretendentes

Telêmaco chega à casa do porqueiro Eumeu. Senta-se com ele e Odisseu, e eles conversam sobre as ofensas praticadas pelos pretendentes. Telêmaco pede a Eumeu que vá até o palácio informar Penélope de que voltou em segurança.

Ao ficarem a sós Telêmaco e Odisseu, este último recupera a aparência normal por ação de Atenas e lhe revela sua identidade. A cena do reencontro é tocante. Diz Odisseu:

Sou, sim, teu pai, por quem hás suspirado, saudoso, já tanto

e tantas dores sofrido (…).

Isso disse ele, indo o filho beijar. Pelo rosto lhe escorrem

lágrimas para o chão duro, que tanto, até ali, represara.

(…)

Sou, sim, eu mesmo, que, após sofrimentos e viagens inúmeras,

vinte anos já decorridos, ao solo da pátria retorno.

(…)

Ambos sentiram desejo incontido de ao prato se darem,

e prorromperam em choro ruidoso (…).

Odisseu orienta Telêmaco a retornar para o palácio no dia seguinte, avisando que irá para lá também sob a forma de um mendigo e pede a Telêmaco que recolha todas as armas do salão, deixando apenas duas: uma para cada um deles.

Eumeu chega ao palácio e avisa Penélope do retorno do filho. Após, volta à casa e encontra Odisseu (já novamente transfigurado em mendigo por Atenas, a fim de que o porqueiro não o reconhecesse) e Telêmaco conversando.

Quinta parte – Odisseu no Palácio

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Pintura de Odisseu e Penélope, Johann Heinrich Wilhelm Tischbein – 1802

Canto XVII – Telêmaco e Odisseu chegam ao Palácio

Telêmaco se dirige ao palácio e conta para sua mãe um resumo de sua viagem. Odisseu também se dirige para lá. Sob a forma de um mendigo é insultado pelos pretendentes, porém não reage.

Canto XVIII – Odisseu entra em combate com o mendigo Iro (Arneu)

Havia um mendigo em Ítaca de nome Arneu, mas chamado pelo povo de Iro, em alusão a Íris, deusa mensageira do arco-íris, dado que o mendigo trabalhava transmitindo mensagens. Ele chegou próximo a Odisseu e tentou expulsá-lo do local, sob ameaças, afirmando que caso não deixasse o palácio entrariam em contenda. Odisseu aceita o duelo. Ao se preparar, expõe a forte musculatura, surpreendendo os presentes e o adversário. Com um único golpe nocauteia Iro.

Penélope, após ter notícia do ocorrido, desce para o saguão e repreende Telêmaco por permitir que o suposto mendigo, Odisseu, fosse ultrajado daquele modo, sendo provocado e tendo de entrar em combate. Telêmaco tenta justificar-se e afirma que, de todo modo, ao final, o estrangeiro venceu a luta.

Canto XIX – Encontro de Penélope e Odisseu. Odisseu é reconhecido por sua antiga ama.

Odisseu e Telêmaco recolhem as armas do saguão, preparando a execução da vingança. Odisseu reencontra Penélope, que não o reconhece. Ele, fingindo ser outra pessoa, profetiza o próprio retorno, ainda no curso daquele ano. Penélope cai em lágrimas, alegra-se e manda que Euricleia banhe Odisseu. Euricleia havia sido ama de criação dele, de modo que o reconhece ao deparar com uma cicatriz da infância em sua perna:

A cicatriz de Odisseu, Euricleia, ao tocá-la, no banho,

reconheceu, o que fez que soltasse das mãos logo a perna.

(…)

Dor e alegria, a um só tempo, abalavam-lhe o peito; de lágrimas

os olhos se enchem, sem que conseguisse emitir a voz forte.

Toca no queixo do divo Odisseu e lhe diz o seguinte:

‘És Odisseu, caro filho, não tenho mais dúvida’ (…)“.

Ele pede que ela guarde segredo por ora, ao que Euricleia consente.

Canto XX – A profecia da morte dos pretendentes

No dia seguinte ao encontro entre Penélope e Odisseu, este não para de meditar sobre o modo de vingar-se dos pretendentes, preocupado ante a superioridade numérica deles. Atena aprece-lhe e profetiza que com sua ajuda Odisseu sairá vencedor e nada tem a temer.

Durante o dia, Odisseu recebe inúmeros agravos dos pretendentes, que demonstram enorme soberba e desprezo por ele e Telêmaco, o que incita ainda mais o desejo de justiça no íntimo de ambos.

Sexta parte – A vingança de Odisseu

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Canto XXI – A prova do arco

Penélope lança uma prova aos pretendentes, avisando que se casará com o vencedor: a prova do arco. Quem conseguisse envergar o arco que Odisseu deixou em casa antes de sair para a guerra, lançando a flecha por entre 12 pequenos círculos, seria escolhido como marido.

Os pretendentes começam as tentativas, mas sem sucesso. Enquanto isso, Odisseu se dirige a dois antigos empregados, Eumeu – o porqueiro – e Filécio. Após verificar a lealdade deste último com perguntas, ele dá a conhecer sua verdadeira identidade a ambos e combina com eles como dar cabo dos pretendentes. Pede que Eumeu lhe entregue o arco e a flecha para que possa participar do certame, e que Filécio oriente as criadas a trancarem todas as portas e a não reingressarem no saguão onde ocorria o concurso.

Após todos os pretendentes falharem no uso do arco, Odisseu pede para participar. Os pretendentes reclamam, mas apoiado por Penélope e Telêmaco, Eumeu leva o arco até o herói. Logo, Eumeu sai da sala com Filécio e fecham as portas junto com Euricleia.

Odisseu toma o arco e, com facilidade, executa a prova e vence o concurso. Imediatamente vira-se para Telêmaco, fazendo-lhe sinal. Este se coloca ao seu lado, desembainha a espada e toma uma lança na mão.

Canto XXII – A chacina dos pretendentes

Virando-se para os pretendentes, Odisseu começa o ataque, disparando flechas. Eles, tomados de medo, levantam e procuram armas; porém, sem sucesso.

Um dos servos de Odisseu, no entanto, de nome Melântio, sobe à sala onde estavam guardadas as armas, e tomando-as leva-as aos pretendentes. Assim, inicia-se verdadeiro combate, equilibrado pelo maior número dos inimigos do herói.

Palas Atena aparece a Odisseu e lhe inspira enorme vigor e coragem.

Odisseu poupa dois dos presentes: o vate, Fêmio, que tocava para os pretendentes; e Medonte, por sempre ter tratado Telêmaco de forma benigna.

Após matar todos os presentes, Odisseu chama Euricleia e pede-lhe que determine às servas que limpem o aposento e removam os cadáveres. Depois, pergunta quais delas eram leais aos pretendentes e não a ele, mandando exterminá-las. Telêmaco as executa, bem como a Melântio, o servo traidor que auxiliou os inimigos durante a contenda.

Ao final, Odisseu pede a Euricleia que chame Penélope e as criadas restantes.

Canto XXIII – O reencontro em que Penélope reconhece Odisseu

Euricleia manda chamar Penélope, informando-a da presença de Odisseu e da morte dos pretendentes. Penélope se reencontra com Odisseu e o reconhece, após ele descrever detalhes da cama que ele mesmo talhara. Ele conta um resumo de suas aventuras. Diz a Penélope que deve partir para cumprir o determinado na visão por Tirésias, de que após chegar à casa deveria se deslocar até outro local para ofertar hecatombes aos deuses.

Canto XXIV – O Tratado de Paz

No início do último canto, inicialmente as almas dos pretendentes descem ao Hades e contam como foram mortos, em virtude de suas más ações, descrevendo como ocorreu a vingança de Odisseu.

Então, narra-se como o herói no dia seguinte à vingança, saiu da cidade e foi visitar seu pai, Laertes. Este, após o filho lhe mostrar sua cicatriz na perna e contar fatos da infância, reconhece-o e se emociona com seu retorno. Odisseu lhe conta da vingança que impôs aos pretendentes.

Eis que próximos do palácio começam a se reunir os parentes dos pretendentes, ao saberem de sua morte. Eles pegam em armas para vingar os defuntos e se dirigem para onde estava o herói.

Odisseu vendo que o grupo se aproximava toma armas junto com seu pai e outros criados que ali se encontravam.

Atenas, no entanto, intervém na batalha e pede que firmem um tratado de paz, no que é atendida, firmando-se novamente paz permanente entre todos, sob o reinado de Odisseu em Ítaca.

Assim, encerra-se o grande poema da Odisseia.

Quais lições podemos extrair da Odisseia?

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Esse será o tema de um próximo post. Nele tentaremos expor algumas lições éticas, políticas e jurídicas que extraímos da leitura desse grande clássico da literatura.

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