Imagem ilustrativa. | Reprodução/Unsplash
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O que hoje conhecemos como a Primeira Emenda [à Constituição Americana] foi primeiramente proposto pela convenção ratificadora do estado da Virgínia durante a aprovação do texto constitucional, em junho de 1788. A resolução da Virgínia declarou que o livre exercício da adoração religiosa não poderia "ser cancelado, abreviado ou modificado" pelo novo Congresso federal, assim como outros direitos essenciais, incluindo a "liberdade de consciência e de imprensa". James Madison, o quarto presidente americano e considerado o "pai da Constituição”, redigiu o texto formal da emenda que prevê esses princípios, e a adição foi ratificada pelos estados do país em março de 1792: 

O Congresso não fará nenhuma lei que diz respeito ao estabelecimento de uma religião, ou proibindo seu livre exercício; ou abreviar a liberdade de expressão, ou de imprensa; ou o direito das pessoas se reunirem para peticionar ao governo por uma resolução de problemas. 

Madison acreditava que as liberdades garantidas pela Primeira Emenda eram a fonte "de todos os triunfos da razão e da humanidade, sobre o erro e a opressão". Mesmo assim, a nova nação cometeu alguns deslizes em direção à censura desde seu início.  

Os Alien and Sedition Acts (Atos de Alienação e Sedição, em tradução livre, dificultavam a naturalização de estrangeiros e facilitava sua extradição) foram aprovados em 1798, e grupos se reuniram para suprimir discursos políticos em Baltimore e Nova York em 1804, 1810, 1811 e 1815. Só no ano de 1835, houve 147 motins políticos nos Estados Unidos, levando à morte de 63 pessoas. Em 1837, um motim em Alton, Illinois, causou a morte do jornalista abolicionista Elijah Lovejoy e levou ao primeiro grande discurso político do ascendente advogado Abraham Lincoln. 

Apenas depois do final da Primeira Guerra Mundial a Suprema Corte Americana finalmente proibiu, de forma clara a censura, dizendo, no caso Abrams vs United States (1919) (muito baseada na jurisprudência, o sistema jurídico americano é marcado por casos específicos, sendo alguns deles muito conhecidos ao longo da história) que "o melhor teste da verdade é o poder do pensamento ser aceito na competição do mercado". 

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Pouco menos de um século depois de a liberdade de expressão se tornar uma das leis menos ambíguas do país, ela perde seu apelo na opinião pública. Hoje, muitas pessoas que dizem defender a liberdade de expressão regularmente, voltam-se para suprimir a visão de outros. Em sua palestra no Dia da Constituição na Universidade de Princeton, a professora de antropologia Carolyn Rouse chamou a liberdade de expressão de ilusão política, uma fraude sem base que permitia às pessoas "dizer o que quiserem, em qualquer contexto, sem repercussões sociais, econômicas, legais ou políticas". 

De acordo com Rouse, existem diferentes discursos, e nem todos eles devem ser considerados merecedores da proteção da liberdade. O que, então, serve para classificar os discursos que merecem daqueles que não merecem a proteção da Primeira Emenda? A resposta da professora é a cultura: "cultura é o que nos ajuda a determinar a propriedade do discurso, ao balancear nossos direitos garantidos pela Constituição com entendimentos do contexto". Por cultura, Rouse quer dizer sua própria visão de cultura. Alguém que questiona as mudanças climáticas, ela explica, não tem o direito de fazer "comentários sobre sobre mudanças climáticas, como se tudo que ciência descobriu nos últimos ‘x’ anos fosse irrelevante". 

Mas as alterações no clima não são o único tópico que é alvo daqueles que procuram censurar o debate aberto. Em dezembro de 2016, Rouse articulou para que pessoas abandonassem uma palestra do sociólogo Charles Murray, dizendo, por meio de um panfleto, que Murray representava a "normalização do racismo e do elitismo na academia". 

O mesmo Charles Murray foi calado por gritos e acabou fisicamente agredido por ativistas estudantis na Universidade de Middlebury. Em um confronto ainda mais inacreditável, autoridades no campus da Evergreen State College se recusaram a proteger o professor de biologia Bret Weinstein de ameaças físicas de ativistas após Weinstein, declaradamente progressista na política, questionar a validade do dia de "ausência racial", que excluía estudantes brancos do campus de Evergreen. Quase que prevendo o discurso de Rouse no Dia da Constituição, os ativistas da universidade insistiram que os questionamentos do professor violavam as normas da cultura de Evergreen. 

"Ele incitou supremacistas brancos e está validando supremacistas brancos e nazistas em nossa comunidade e na nação. E eu acho que isso não deveria ser protegido pela liberdade de expressão”, disse um estudante à Vice News em entrevista sobre o protesto. 

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Essa visão obscura do discurso livre não é fruto do acaso nem restrita a alguns círculos. Mais do que nunca universitários dizem ter ressalvas em relação à liberdade de expressão. 44% dos estudantes entrevistados pela Brookings Institution, agência de pesquisa americana, não acreditam que a Primeira Emenda protege a liberdade de expressão, em comparação com os 39% que acreditam que protege. 20% dos entrevistados disseram ser aceitável infringir dano físico àqueles acusados de fazer "comentários ofensivos e nocivos". 

O princípio que Madison trabalhou para preservar em nome da razão e da humanidade agora se curva à ditadura da "cultura". Professores, estudantes e seus aliados intelectuais agem como se o país fosse uma tribo, em que qualquer comentário desaprovado se torna uma afronta contra a ordem social estabelecida, ao invés de uma república. 

Talvez haja um alívio ao se considerar que os ataques à liberdade de expressão têm um histórico conhecido, e que, de tempos em tempos, ganham certa credibilidade temporária, apenas para serem acachapados posteriormente. 

Os puritanos da baía de Massachusetts eram tão confiantes na própria cultura que insistiram que qualquer desvio dela era uma violação da própria verdade. Nesse tipo de visão de mundo, tolerar pontos de vista diferentes só geraria confusão entre as pessoas que acreditavam [na liberdade de expressão], que precisavam ser iluminadas. 

"Aquele que está disposto a tolerar qualquer religião, ou tipo discrepante de religião, além da própria, a menos que seja em questões irrelevantes, ou duvida da própria crença ou não é sincero nela”, escreveu Nathaniel Ward em 1647. 

Apoiadores dos Atos de Alienação e Sedição de 1798 não eram menos confiantes nos axiomas de sua própria cultura política, e também acreditavam não precisar aprender nada com aquilo que eles classificavam como erro palpável. 

"A verdade só tem um lado, e escutar o erro e a falsidade é de fato um jeito estranho de descobrir a verdade", escreveu o advogado da Pensilvânia Alexander Addison, no que poderia ser muito bem uma paródia do discurso da professora Rouse em Princeton. 

Desprezo e medo da liberdade da expressão também caracterizavam defensores da escravidão. Em 1835, o diretor geral do correio americano Amos Kendall atendeu as demandas dos escravistas para censurar o correio, justificando sua decisão na defesa de valores culturais, em detrimento da liberdade política.

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"Temos uma obrigação com a lei, mas uma [obrigação] maior com a comunidade em que vivemos e, se a primeira está fadada a destruir a segunda, o patriotismo que deve desconsiderá-las [as leis]." 

Aqueles que hoje desprezam a liberdade de expressão têm sua raiz em uma ideologia diferentes daquele tribalismo que era usado para defender o escravismo e o puritanismo. Essa nova ideologia se iniciou com Karl Marx - ou melhor, com a dificuldade de intelectuais marxistas de explicar porque os proletários europeus não iniciaram uma revolução violenta após a eclosão da Primeira Guerra Mundial. 

Ao invés de se unirem em solidariedade aos seus companheiros de classe de outras nações, os trabalhadores europeus se empenharam em defender suas bandeiras nacionais, se enfrentando em uma matança de 4 anos que desafiou todas noções anteriores de guerra, e então sucumbiram às ondas de fascismo populista. A única revolução que os marxistas conseguiram realizar nos protagonistas da Grande Guerra foi no império mais atrasado e menos industrializado da Europa, e, mesmo na época, apenas pela ação daquilo que Vladimir Lenin chamou da "vanguarda" das elites marxistas, ao invés de um levante espontâneo dos trabalhadores. 

Foi tarefa do marxista italiano Antonio Gramsci reconciliar as particularidades dessa situação com a visão de mundo de Marx, e ele o fez ao concluir que Marx se esqueceu de um detalhe importante: a classe trabalhadora é oprimida, não apenas pelo poder econômico e político das classes dominantes europeias, mas também pela cultura da classe dominante, que leva o proletariado a assimilar os valores culturais e as atitudes de seus mandantes. Para que a revolução de classe funcione, as nações precisam primeiro se livrar do discurso opressivo da burguesia. 

As ideias de Gramsci atravessaram o Atlântico nos anos 30 e 40, e ganharam mais seguidores entre os americanos da nova esquerda nos anos 60, aqueles que declararam que a liberdade de expressão era simplesmente uma ferramenta que a classe dominante usava para afundar mensagens revolucionárias em meio a uma enchente de bobagens sem significado sobre liberdade e tolerância.

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Sob o argumento da liberdade de expressão, "a tolerância é estendida a políticas, condições, e modos de comportamento que não devem ser tolerados porque estão impedindo… …as chances da criação de uma existência sem medo e miséria", escreveu o proeminente membro da nova esquerda Herbert Marcuse. Esse argumento é praticamente indistinguível das alegações dos censores do passado, mas ele se camufla sob a vestimenta de resistência à opressão. 

Isso nos permite traçar um paralelo entre os ataques à liberdade de expressão e a recente mania de remoção de monumentos que se iniciou em Nova Orleans em maio de 2017 e teve seu pico após as manifestações de Charlottesville alguns meses depois, em agosto. No mundo da ideologia marxista, a única coisa em jogo é o poder político; considerações sobre razão, debate e discussão são simplesmente as falsidades que Gramsci e Marcuse identificaram como truques para oprimir os oprimidos. As estátuas confederadas em Nova Orleans e Charlottesville que estiveram no centro da discussão não podem ser simples estátuas, elas têm que ser declarações de poder, porque tudo é uma declaração de poder político. 

"Os monumentos, fazem uma declaração bem clara sobre a regra da supremacia branca: todos que entram neste tribunal de justiça estão sujeitos às leis dos homens brancos", declarou um professor da Universidade da Carolina do Norte. Não, na verdade foram as leis da era Jim Crow (leis que institucionalizaram a segregação racial nos EUA) que fizeram isso; ninguém mostrou ainda se o General Lee desce de seu cavalo no monumento em Charlottesville para queimar cruzes (alusão a uma ação típica da Klu Klux Klan) nas montanhas Blue Ridge durante a noite. Mas se cultura é política, e política é poder, então os monumentos de fato adquirem capacidades perigosas de locomoção. 

Considere a afirmação de Frederick Douglass (escritor abolicionista americano): "Liberdade não significa nada quando o direito de alguém de exteriorizar seus pensamentos e opiniões deixa de existir", disse Douglass em 1860, adicionando que "a escravidão não aguenta 5 anos de liberdade de expressão". 

Ou também George Orwell: "Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir." Ou ainda John Milton: "Me dê a liberdade de saber, de me manifestar e de discutir livremente de acordo com minha consciência, acima de quaisquer liberdades". 

Ou até mesmo a marxista pré-gramsciana Rosa Luxemburgo: "Liberdade é sempre e exclusivamente liberdade para quem pensa diferente… … porque tudo aquilo que é instrutivo, saudável e purificador na liberdade política depende dessa característica essencial." 

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Discuta com eles se quiser, mas não espere que os americanos acreditem que a liberdade de expressão é um marionete dos poderosos. É, ao contrário, um ingrediente indispensável na receita para prevenir tiranias, sejam elas de esquerda ou de direita, seja ela em nome da pátria-mãe, do povo ou dos trabalhadores. Afirmar o contrário é simplesmente fazer o que Michael Polanyi chamou de uma "inversão moral" - um malabarismo intelectual em que somos pedidos, em termos orwellianos, a considerar liberdade como escravidão, discriminação como não-discriminação e verdade como poder. 

Claro, nunca existiu uma liberdade que alguém não se mostrou ingênuo o suficiente para abusar. Carolyn Rouse tem razão em um ponto: culturas inibem discursos. Ela aprendeu isso, para a própria surpresa, em fevereiro, quando o uso da palavra "N" (em inglês, o uso da palavra nigga, para se referir aos negros, é evitado devido à sua carga histórico-pejorativa. Em seu lugar, é usado o "eufemismo" “palavra ‘N’”) pelo professor de Antropologia do Direito Leonard Rosen levou alunos a abandonarem sua aula. Ao defender seu colega, Rouse foi atacada por falhar em entender "esperar que estudantes dissidentes debatam imparcialmente em meio ao discurso de ódio é equivalente a silenciar suas experiências". 

Alguns discursos são rudes e alguns discursos são tolos, e a cultura faz com que as pessoas evitem suas próprias rudezas e tolices. Mas o que Rouse e os gramscianos ignoram é que inibições culturais são vagas, consensuais e passíveis de transgressão e mutação. A cultura tornou o uso da "Bomba F" (forma "educada" de dizer o palavrão fuck sem dizê-lo) impensável em 1965; 40 anos depois, a HBO não sobreviveria sem o termo. 

E o motivo para isso é que a cultura mudou, constantemente, imperceptivelmente, como dunas do deserto. Quando expostas ao contrário, inibições culturais podem ser dificultadas e desafiadas, para então voltarem ao normal em questão de alguns anos. Elas se tornam letais apenas quando o poder político é usado para encerrar a competição pela expressão cultural a favor de um lado. O maior crime da supremacia branca não foi ter erguido estátuas, ou mesmo realizado discursos, mas o fato de ter atacado cidadãos e aprovado leis. 

Rouse também está correta em dizer que existem diferentes arenas de discurso e que a supressão da liberdade de expressão em algumas dessas arenas é aceito e perfeitamente natural sem qualquer oposição da Primeira Emenda. Uma criança respondendo a seus pais não é um exemplo latente de liberdade de expressão, e até Oliver Wendell Holmes, o autor da decisão do caso Abrams, reconhece os prejuízos ao público que resultariam de alguém "falsamente gritando fogo em um teatro e causando pânico". Mas a linha que separa algumas arenas do discurso de outras - e que permite a supressão [do discurso] - também se altera constantemente.

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Rouse acredita que "discurso de ódio" não tem lugar no espaço acadêmico, e como o espaço acadêmico permite a supressão de alguns discursos em favor de outros, algumas formas de censura podem ser impostas. Se a academia é de fato uma arena privada, há um certo mérito nesse argumento. 

Mas, na prática, a limitação do discurso acadêmico tem se tornado cada vez mais suspeita. A exclusão de certas formas de discurso da academia deveria ser resultado de debates, mas geralmente vemos o contrário. Chegamos ao ponto em que o debate é desconsiderado, em um cenário parecido com o espírito da Rainha Vermelha de Lewis Carroll: sentença primeiro, veredito depois. 

Além disso, o discurso acadêmico não pode mais ser chamado de privado ou comunal. O ensino superior autorizado e supervisionado pelo estado está há muito tempo limitado de restringir ou controlar o discurso acadêmico. E a separação entre a educação superior pública e privada nos EUA está diminuindo nos últimos 50 anos. Recursos públicos constituem a maior parte do orçamentos universitários dos Estados Unidos, seja por forma de subsídios governamentais para pesquisas e programas, ou no ainda mais vasto fluxo de bolsas estudantis garantidas pelo governo. 

Em linhas gerais, a distinção entre a educação superior pública e privada no país deixou de existir. Ademais, o grande número de jovens americanos sendo atraídos para o sistema universitário (cerca de 20.4 milhões, aumento de 25% em relação ao ano 2000) - sob a presunção de que diplomas são virtualmente uma garantia de entrada em profissões e mercados com boa remuneração - acabou com a pretensão de que a academia é um reino superior, muito acima da órbita da sociedade civil. 

Ironicamente, algumas das formas mais violentas de "discurso de ódio" bem intencionado ocorreram dentro da academia, cometidas por estudantes que se opõe, ao invés de ajudar, à expansão dos direitos da liberdade de expressão. Em 12 de novembro de 2015, 150 ativista do Black Lives Matter invadiram uma biblioteca em Dartmouth, New Hampshire, gritando aos estudantes presentes "vão se f*der, seus brancos nojentos!, "se f*der vocês e seu conforto!" e "vão se f*der, seus m*rdas racistas!", como forma de solidariedade a "nossos irmãos e irmãs ao redor do país que enfrentam terrorismo e violência na sua frente". 

Uma estudante também foi agredida. O departamento de comunicações da Universidade de Dartmouth liberou uma declaração em que afirmava o compromisso com o "os princípios da liberdade de expressão, protesto público e inclusividade." Todavia, a instituição se recusou a tomar qualquer ação contra os invasores porque "não houveram violações específicas aos Códigos de Conduta. Em suma, nenhuma regra e nenhuma sanção estabelecida foi quebrada." Talvez não tenham mesmo, mas é difícil interpretar essa ação como algo diferente de odiosa. 

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Os tumultos em Dartmouth foram seguidos pelo incidente da "Demandas de Vozes Negras" na Universidade de Duke, em que o alvo das intimidações passou dos estudantes para a faculdade. Dentre as "demandas", estavam os requerimentos de "professores estarem em risco de perder seus trabalho, e membros vitalícios perderem seus status vitalícios se perpetuarem discurso de ódio que ameace a segurança de estudantes negros". 

Neste ano, o curso 110 de Humanas da Universidade Reed se iniciou com demonstrações na sala de aula atacando a professora Lucía Martínez Valdivia como "traidora de raça", "anti-negros" e "permissiva [com discursos de ódio]" levando Valdivia a confessar: "estou com medo de dar aulas sobre raça, gênero e sexualidade, ou até mesmo passar textos que comentam esses assuntos em qualquer forma… … especialmente porque alguns desses estudantes não acreditam em história e fatos objetivos". 

Gostaria de poder dizer que universitários são universitários, e não com o que se preocupar. Mas esse luxo não existe mais, diferentemente de quando universidades eram realmente instituições privadas, e não é mais um luxo quando consideramos outros eventos de supressão de discurso, como em Berkeley, Middlebury e Evergreen State. 

Para piorar a situação, porque as universidades se tornaram um caminho que todos jovens devem passar por - ou pensam que devem passar - para conseguir boas oportunidades financeiras, a supressão de discursos está rapidamente se tornando norma em toda sociedade civil. Recentemente, o CEO do Mozilla Brendan Eich foi forçado a renunciar depois de ter doado dinheiro para uma campanha política que queria banir uniões homoafetivas; e o engenheiro do Google James Damore foi demitido por escrever um artigo em que questionava as políticas de gênero da companhia. 

Como um engenheiro sênior de software de uma famosa companhia escreveu, "como todos trabalhadores americanos, eu tenho contas pra pagar. Por isso, sempre tenho que pensar no que posso e não posso dizer aos outros no trabalho". O que incomoda esse engenheiro é que isso não é ditado pela prudência ou pela civilidade, mas pelo medo, porque "meus colegas de esquerda têm total liberdade de discutir suas visões em voz alta". À medida que certas formas de discurso se tornam mais suprimidas - incluindo posições que, até outro dia, eram senso comum -, nossa cultura intelectual continuará a se tornar mais rígida e mais hostil. 

Em setembro de 2017, a Universidade da Califórnia em Berkeley, lar do Movimento pela Liberdade de Expressão nos anos 1960, estava agendada para receber uma "Semana da Liberdade de Expressão", com participação do provocador da extrema direita Milo Yiannopoulos. O evento acabou cancelado pelos patrocinadores, que citaram "extraordinária pressão e resistência, se não hostilidade clara" por parte da administração da universidade. 

Um artista gráfico de Berkeley demonstrou perfeitamente os sentimentos dos oponentes da liberdade de expressão quando escreveu, sem ironia, "liberdade de expressão mata". Tendo a concordar que a liberdade de expressão de fato mata, mas de uma forma bem diferente daquela que seus oponentes tem em mente: mata a estupidez, a preguiça, a corrupção, as mentes pequenas, o orgulho, a confiança excessiva, e a noção de sempre estar correto. Essa demonstração envergonha, perturba e expõe - e mostra o quadro dos administradores acadêmicos que se tornaram, nos últimos 50 anos, os maiores componentes de poder da cultura dos campi. 

Existem sempre duas grandes perguntas a serem feitas em momentos de crise: quem é o culpado e o que deve ser feito? Já vimos quantas mãos estão sujas de culpa pela presente crise da liberdade de expressão. Mas o que podemos fazer? O grande instinto da humanidade, mesmo diante de catástrofes, é não fazer nada ao invés de tomar ações. Mas esses desordenados não estão contentes apenas com a inação das pessoas; como vimos em caso atrás de caso, as demandas para silenciar a liberdade de expressão sempre vem juntas do requerimento de nossa condescendência.

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Não ficaremos seguros ao fazer o mesmo que o comerciante descrito por Václav Havel em seu artigo em 1978 "O Poder dos Sem-Poder" fazia: toda manhã durante a dominação soviética sobre o leste europeu, ele pendurava um cartaz, "TRABALHADORES DO MUNDO, UNI-VOS!" Era um slogan que o comerciante sabia ser falso, mas o pendurava de qualquer forma, "porque essas coisas precisam ser feitas para poder seguir em frente com a vida" e para "garantir uma vida relativamente tranquila, em harmonia com a sociedade".

Mas isso, Havel avisou, permite a ele apenas "esconder de si mesmo as profundas fundações de sua obediência". O comerciante escolheu viver se enganando - ele está mentindo pra si mesmo, não apenas sobre os trabalhadores do mundo, mas sobre sua própria impotência. Mas ele tem outra escolha. A verdade, disse Havel, é "uma arma contagiosa, quando usada por um único indivíduo é capaz de desarmar uma divisão inteira". 

Aqueles que optam por ficar ao lado da verdade e enfrentar uma cultura de censura devem considerar três passos importantes no curto prazo. O primeiro é tornar a causa comum para outras pessoas. Em seu novo livro The Once and Future Liberal (”O progressista de hoje e de amanhã”, em tradução livre), Mark Lilla seus colegas progressistas para não serem calados pelas buzinas de ar e sprays de pimenta de seus silenciadores.

"Política democrática é sobre persuasão, não sobre expressão pessoal, e a prioridade é da cidadania sobre personalidades individuais ou grupais.", escreve. Somos todos vozes "em um coro democrático" de cidadãos, declara Lilla; pessoas na esquerda devem parar de se considerarem a "vanguarda de um movimento" cujo objetivo é substituir argumentos por tabus, e expulsar "defensores de políticas conservadoras... … dos campus em um ritual de expurgo". Neste ano, 15 acadêmicos notáveis de Yale, Princeton e Harvard - incluindo Robert George e John Londregan de Princeton, Adrian Vermeule de Harvard e David Gelernter de Yale - publicaram uma carta em defesa desse tipo de inquérito público, urgindo os futuros estudantes a lembrar que o "o ponto central da educação universitária é buscar a verdade e aprender as habilidades e adquirir as virtudes necessárias para continuar buscando a verdade por toda vida."

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A reverência à liberdade de expressão está profundamente enraizada na vida americana, mas ela não pode ser protegida a menos que aqueles que reconhecem seu valor deixem suas divergências partidárias de lado por um momento e confiem no outro o suficiente para dizer que os ataques contra a liberdade de expressão devem acabar. O segundo passo é evitar que as instituições que causam os danos continuem recebendo fundos. Essas instituições de ensino superior onde as mais visíveis afrontas à liberdade de expressão aconteceram não são 100% instituições privadas, mas depende do suporte do governo e de doações particulares. 

E no ambiente financeiro de hoje, elas respondem ao mínimo indício de desaprovação filantrópica. Das 40 maiores doações a universidades, 35 tiveram declínio em 2016, mesmo atuando em um mercado que cresceu 13%. A universidade Middlebury sofreu perda de 9% em suas doações, Dartmouth perdeu 4,1%, e as modestas doações recebidas por Reed diminuíram 5,4%. E isso diz respeito apenas a doações. Ao final de 2017, a Agência Moody's de Investimentos previu que o fechamento de pequenas universidades pode triplicar em relação à década passada. Em outras palavras, essas não são instituições que podem ignorar inquéritos sobre afrontas à liberdade de expressão. É hora de apertar essa ferida. 

Retirar apoio a escolas por "comportamento ruim" não é uma ideia que agrada aqueles que estão acostumados a dor anualmente por amor a sua alma mater (instituição onde o indivíduo se forma). Pergunto apenas se as alma mater importam mais em nossa cabeça que a liberdade de pensamento e expressão. Não estamos falando sobre integrantes de repúblicas fazendo algazarras ou professores excêntricos, mas sobre campanhas orquestradas para atacar uma das liberdades fundamentais da república americana. Campanhas toleradas por administradores que, igualmente, temem confrontos com ativistas estudantis por medo de não avançarem na carreira e esperam que notícias de sua covardia não sejam divulgadas pela imprensa e por ex-alunos. Pense nas suas doações com a mesma racionalidade que você pensa seus investimentos pessoais. Fique ao lado daqueles que defendem a liberdade, corte o fundo daqueles que não defendem, não dando passe livre para esse lado. 

O último passo para salvar a liberdade de expressão é cultivar um espírito de absoluta oposição à sua supressão. O que está em jogo não é pouca. No último mês de outubro, ativistas do Black Lives Matters invadiram um palco na faculdade William & Mary, onde a diretora da American Civil Liberties Union (União das Liberdades Civis Americanas, em tradução livre) ia discursar sobre "estudantes e a Primeira Emenda e acabou reprimida por gritos "ACLU, você protege Hitler também" e "a revolução não vai defender a constituição". Claramente não vai. Mas você deve. Os fanáticos anti-liberdade de expressão nas universidades e ao redor do país já levantaram sua mão contra a ideia que nos garante vida, liberdade e a busca da felicidade. Então, eu digo: quando os mascarados finalmente sentirem coragem o suficiente para partir para agressões físicas, seja contra Charles Murray ou Carolyn Rouse, ou contra protestantes, mórmons, judeus ou católicos - resista. Essa é a resposta de Madison, da Primeira Emenda, e a única resposta válida das mentes livres.

Allen C. Guelzo é professor na Gettysburg College e autor de  “Abraham Lincoln: Redeemer President”.

©2018 City Journal. Publicado com permissão. Original em inglês.

Tradução: Rafael Baltazar.

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