Smartphone Twist Metal de costas em um gramado.

Ajustando expectativas com o Android Go

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23/10/18, 15h24 5 min Comente

O último smartphone do Google, o Pixel 3, tem 4 GB de RAM. A RAM é um tipo de memória temporária, usado pelo sistema e todos os aplicativos durante sua execução. O Galaxy Note 9, da Samsung, tem 6 GB de RAM. Existem aparelhos, como o OnePlus 6 e o Huawei P20 Pro, que chegam a 8 GB. Em breve a chinesa Oppo lançará um com 10 GB. Quanto é o bastante? Em regra, quanto mais, melhor. Mas para a Positivo e o Google, apenas 1 GB já é o bastante.

Curioso com essa proposta, testei durante duas semanas o Twist Metal, primeiro smartphone lançado no Brasil com o Android Go, uma variante especial desenvolvida pelo Google para smartphones com configurações modestas. (Dá para ir além; o Twist Mini, também da Positivo, tem apenas 512 MB de RAM.)

A Positivo desenvolveu o Twist Metal em parceria estreita com o Google e afirma que o modelo superou os índices de desempenho de referência da dona do Android.

Surpreendi-me com o Twist Metal em alguns momentos, pois ele é usável, algo que não pode ser dito de muitos outros smartphones em sua faixa de preço. Os apps demoram um pouco para abrir? Sim. A rolagem de tela em apps como o Twitter Lite e o Instagram dá uns saltos esquisitos? Com frequência. E os apps “lite”, embora compreendam as funcionalidades básicas das versões completas, exigem uma curva de adaptação, principalmente para quem é acostumado às suas versões convencionais. O da Uber, por exemplo, sequer mostra o mapa por padrão; o Google Maps não tem navegação curva a curva.

Ainda assim, a experiência passou longe de outras com smartphones de entrada que dificultavam ao extremo a realização de ações básicas, como abrir o app de telefone. E o espaço interno, que já é generoso neste modelo com incomuns 32 GB, fica ainda maior porque o Android Go enxuga muitos recursos que, mesmo que estivessem presentes, não poderiam ser explorados pela falta ou fraqueza do conjunto de hardware.

Detalhe da tela do Twist Metal sob a luz do Sol.
A tela é apenas ok. Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

Nesse sentido, o que a Positivo tenta dizer ao consumidor ressabiado é: pode comprar, esse negócio funciona. E funciona mesmo, embora não seja nada surpreendente e com o potencial de irritar o usuário em uma situação ou outra devido à lentidão.

Encontrar este tom correto na comunicação do Twist Metal e, por extensão, do Android Go é o grande desafio da fabricante paranaense, disse-me Guilherme Ravagnani, gerente de software para desenvolvimento de smartphones da Positivo, na edição #160 do podcast. “A gente tem que alinhar as expectativas com nosso cliente. O preço que você está pagando por esse smartphone de entrada, ele está muito longe de ser comparável ao Galaxy S ou algum outro que tenha uma especificação de hardware muito superior”, justificou no programa.

Por mais otimizações que o Android Go faça, ele ainda é o mesmo Android que equipa smartphones com muito mais recursos que o Twist Metal — o Pixel 3, que pode ser tomado como uma espécie de hardware de referência do Google, tem quatro vezes mais RAM, para ficar em um componente crítico ao desempenho. Não há milagre capaz de equiparar as duas experiências.

Além disso, não é só no desempenho que o Twist Metal apresenta resultados modestos. A tela, de 5,2 polegadas, tem resolução apenas mediana (854×480) e brilho baixo, do tipo que dificulta enxergar sob a luz do Sol. (Mas tem um sensor de luminosidade, que possibilita o ajuste automático do brilho.)

O acabamento é o que se esperaria de um smartphone intermediário há uns três ou quatro anos. O “metal” do nome é justificado pelo uso do material na tampa de trás do aparelho, removível, que confere um toque sofisticado a um aparelho que, de resto, tem um design pouco inspirado, quase utilitário.

Tampa de trás do Twist Metal.
Detalhe da tampa de metal do Twist Metal. Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

As câmeras tampouco se destacam. A de trás gera imagens com definição e alcance dinâmico limitados e a da frente difere principalmente pelo ângulo, mais aberto para caber todo mundo na selfie.

Algumas fotos redimensionadas:

Close de uma flor ao ar livre em dia de Sol.

Prato de comida em ambiente fechado com iluminação artificial.

Foto ao ar livre, com muito detalhe, de uma rua com carros e árvores em dia de chuva.

A bateria dura , mas não sei dizer se por mérito ou pelo efeito repelente da lentidão dos apps mais viciantes, como os de redes sociais, o que acaba fazendo o usuário recorrer menos ao smartphone — afinal, a melhor dica para conservar a bateria do smartphone é não usá-lo.

Não que tudo isso seja um desastre. Por R$ 550, preço para a compra à vista direto na loja da Positivo, o Twist Metal entrega uma experiência condizente com o que custa. O mercado brasileiro está recheado de smartphones muito melhores, mas todos eles com preços muito maiores. O queridinho/compra certa nacional, o Moto G6 da Motorola, começa perto dos R$ 1 mil, quase o dobro do que custa este Android Go.

No fim, é uma questão de expectativa. O Twist Metal é um smartphone acertado na proposta e que entrega o que promete. O problema é que para quem demanda mais do que o básico em um smartphone — e hoje esse é um grande público, basicamente qualquer um que faça mais do que ligações e troca de mensagens esporádicas —, ele pode não ser o bastante.

Foto do topo: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

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