Camila responde perguntas no meio da plateia.

O Cinese quer mudar o processo de aprendizagem através do crowdlearning

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9/10/14, 13h26 5 min 2 comentários

Está acontecendo em Maringá (PR) o IV Multicom, a semana do curso de Comunicação e Multimeios da UEM. Entre os convidados para falar à comunidade acadêmica estava Camila Haddad, co-fundadora do Cinese. Após sua palestra sobre economia colaborativa, ontem (8/10), conversei rapidamente com ela sobre seus projetos e ideias a respeito de como pessoas como eu, ela e você podem mudar os cenários econômico, de ensino e participativo das cidades.

Livrando-se das amarras do ensino tradicional

O Cinese é uma plataforma de crowdlearning, uma espécie de fusão entre colaboração e aprendizagem. Criado pela Camila, formada em Administração pela FGV e mestra em Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável pelo University College London, na Inglaterra, e sua irmã, a advogada “em crise com o mundo dos diplomas” Anna Haddad, o site de apenas dois anos já tem números dos quais se orgulhar: mais de oito mil usuários, mais de 600 encontros realizados, alguns projetos paralelos bem bacanas e muita gente inspirada pelo caminho.

Apresentada como uma plataforma sem burocracia e com foco na colaboração, pelo Cinese é possível organizar encontros, grupos de discussão e aulas sobre quaisquer temas. O processo é simples e Camila sempre ressalta o fato de não haver curadoria ou seleção dos encontros propostos. Se há demanda, ele acontece, e a variedade das ofertas é estimulante — há desde coisas bem práticas, como oficinas de graffiti e curso de pizza, até discussões mais intangíveis, como a que debate “filosofia, psicanálise, sociologia, física quântica, cinema, literatura e o que mais surgir” partindo de uma metáfora do desenho Caverna do Dragão.

O modelo é inovador e isso, às vezes, gera alguns mal entendidos, como pessoas interessadas em participar dos encontros para ganhar certificado, ou o receio em se encontrar com pessoas estranhas reunidas através de um site. Na sessão de perguntas e respostas pós-palestra, Camila tocou nesse último assunto. Para ela, ainda nos falta a crença nos elos fracos entre pessoas. O brasileiro é muito apegado aos elos fortes, ou seja, a parentes e amigos próximos, e vê desconhecidos com desconfiança excessiva. A parte boa dessa história é que, ainda segundo ela, basta uma experiência positiva para derrubar essa concepção. Nesse sentido, o Cinese acaba atuando também como um disseminador da boa vontade.

Vencidas essas barreiras, o Cinese se revela uma plataforma de articulação e reunião de pessoas com interesses afins bastante poderosa. Em parte, graças ao seu crescimento orgânico. O site apareceu em alguns veículos de comunicação, mas mesmo isso foi natural — eles não investem em uma assessoria, por exemplo, e só chegaram à Veja, Época e outros porque repórteres e editores dessas redações toparam com o Cinese e gostaram do que viram.

O boca a boca é o principal vetor de crescimento e Camila acha isso importante para que ele ocorra de maneira saudável: “Essa estratégia de crescer organicamente a partir da galera que usa tem funcionado bem, especialmente porque quem usa, entende [a plataforma].” Um encontro de designers realizado no Rio de Janeiro, exemplifica, expande o Cinese para dois grupos distintos, um temático (designers) e outro geográfico (cariocas).

Disrupção e sustentabilidade

Foto de um encontro do Cinese.
Um dos encontros organizados pelo Cinese. Foto: Cinese/Facebook.

“Não vai acontecer disrupção sem choque.”

Timidamente, o Cinese se posiciona junto a outras startups que miram, com maior ou menor intensidade, indústrias e segmentos estabelecidos. Não me pareceu ser a pretensão da Camila acabar com escolas e a formação tradicional, mas sim apresentar uma via alternativa a esse modelo. E mesmo isso, por melhor que seja a intenção, pode fazer eclodir a ira de quem não considera nada além do status quo.

A visão dela para essa delicada questão alinha-se à da (aparente) estratégia do Uber: entrar com força nos mercados e tornar o produto tão atraente que os próprios cidadãos-usuários acabam fazendo pressão nos legisladores e no executivo para que eles considerem esse lado também. A mudança passa pela estrutura política. Só no Brasil, por exemplo, as caronas compartilhadas e os empréstimos entre pessoas físicas, duas práticas super comuns na economia colaborativa, são vedadas por lei.

Antes de pensar nessa frente, porém, é preciso pagar as contas. O Cinese mudou recentemente seu modelo de negócios. Antes, o site cobrava comissões dos cursos pagos; agora, usa um sistema de crowdfunding, similar ao do Manual do Usuário, para viabilizar seu funcionamento.

Para tanto, desenvolvedores envolvidos no projeto criaram uma plataforma para micropagamentos recorrentes, o Unlock. A inspiração é o Patreon (que uso aqui), e o objetivo é servir apenas de ferramenta complementar. O Unlock se sustenta com uma entrada no próprio Unlock, quase um “Unlockception”, e visa apenas o suficiente para se manter no ar.

Evento na Laboriosa 89.
Evento da @acostureirinha na Laboriosa 89. Foto: @mpelli/Instagra.

E é assim, com pequenos projetos e grandes ideais, que o Cinese vem prosperando. Camila também está à frente da Laboriosa 89, um ambiente colaborativo aberto e gratuito na Vila Madalena, em São Paulo. Ele funciona mais ou menos como escritórios compartilhados que viraram febre em grandes centros nos últimos anos, mas é gratuito e autorregulado. Quem tira muito dali e quer que o projeto continue, contribui com o que pode — no Unlock, claro.

Cinese, Unlock e Laboriosa 89 são todos serviços gratuitos, com propostas inovadoras e financiados via crowdfunding pelos usuários. Conheça mais do trabalho da Camila e da Anna no blog do Cinese.

Foto do topo: César Biegas/Multicom.

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