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Revisitando a primeira rede social que desafiou a hegemonia do Facebook

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11/4/18, 19h01 8 min 15 comentários

Ouvimos o feedback. É preciso uma maneira mais simples de controlar suas informações. Nas próximas semanas, lançaremos controles de privacidade muito mais fáceis de usar. Também lhe daremos uma maneira simples de desativar todos os serviços de terceiros. Estamos trabalhando duro para disponibilizar essas mudanças o quanto antes. Esperamos que você goste do resultado do nosso trabalho e, como sempre, estamos ávidos para saber o que você achou.

Você acertou se atribuiu o trecho acima a Mark Zuckerberg. Errou, porém, se acha que ele foi feito nesta semana, talvez durante as sabatinas a que o CEO do Facebook se submeteu no Congresso dos Estados Unidos a fim de se retratar pelo escândalo da Cambridge Analytica.

Essa mistura de “mea culpa” e promessas que você leu ali em cima foi feita em maio de 2010, há quase oito anos. Na época, o Facebook havia alterado, unilateralmente e sem aviso, diversas configurações padrões de privacidade. Zuckerberg assinou um artigo no Washington Post para se desculpar e prometer mudanças.

Não foi a primeira e nem seria a última vez que veríamos esse filme. Sistematicamente, desde antes da criação do Facebook, Zuckerberg está em um loop eterno: faz uma bobagem, nega, reconhece, pede perdão e promete mudanças. É algo tão encrostado no Facebook que estava no lema da empresa: “move fast and break things” (“mova-se rápido e quebre coisas”, em tradução livre). Na Wired, Zenyp Tufekci fez uma linha do tempo bastante esclarecedora desse padrão — 14 anos da mesma ladainha.

O pedido de desculpas de 2010 teve um ingrediente extra. Em meio ao caos, quatro jovens, todos estudantes da Universidade de Nova York, propuseram uma alternativa. Chamada Diaspora, seria uma rede social similar ao Facebook, mas descentralizada, sem anúncios e com foco em privacidade.

Para tirá-la do papel, Dan Grippi, Max Salzberg, Raphael Sofaer e Ilya Zhitomirskiy, então com idades entre 19 e 22 anos, lançaram a ideia no Kickstarter, uma plataforma de financiamento coletivo. Pediram US$ 10 mil; receberam US$ 200 mil, inclusive de Mark Zuckerberg, que, na época, justificou a doação dizendo que “achava uma ideia legal”.

O anti-Facebook

A Diaspora não era muito diferente do Facebook. No início da década, a rede social de Zuckerberg ainda era um produto focado em computadores, então a Diaspora imitava o visual para computadores do rival estabelecido (na época, o Facebook tinha cerca de 450 milhões de usuários). Não havia muita preocupação com apps de celular ou versão responsiva do site (embora ela exista).

Na Diaspora, tínhamos um mural, perfis e amigos — páginas de marcas e publicações era uma ausência notável. Amigos eram organizados em “aspectos”, grupos que facilitavam o compartilhamento direcionado dos conteúdos publicados na rede. (Essa metáfora ganhou mais força um ano mais tarde, quando o Google+ chegou fazendo muito barulho e enfatizando os “círculos”, o equivalente aos aspectos da Diaspora. O Facebook também permitia, e até hoje permite, segmentar os contatos da plataforma, embora seja algo enterrado nas confusas configurações da rede.)

Stream da Diaspora.
Este é o equivalente ao feed na Diaspora.

Visualmente, a Diaspora era um site espartano, com uma paleta de cores monocromática e elementos de interface bem básicos. Os posts podiam ser curtidos, compartilhados e receber comentários. Havia suporte a menções e a área de atividades dentro da rede, que no Facebook fica escondida nas configurações, na Diaspora é bem evidente, com um botão fixo no menu principal (“My activity”).

Dar o controle das informações dos usuários a eles próprios era central na missão da Diaspora. Na política de privacidade se lê, mais de uma vez, alguma variação de “não usamos suas informações para servir anúncios”. Nas configurações, simples e diretas, botões destacados permitem exportar dados e fechar a conta.

Perfil de Rodrigo Ghedin na Diaspora.
Do tempo em que eu era jovem.

A principal singularidade da Diaspora, o que a posicionava como algo realmente diferente do Facebook, estava nos bastidores. Era uma rede com código-fonte aberto, o que significa que ela aceitava contribuições de quaisquer desenvolvedores, e uma rede descentralizada/federada, o que significa que diversos servidores podiam rodar a aplicação de maneira independente e, opcionalmente, conversar com as demais formando uma grande rede. Cada instância era chamada de “pod”; a principal era o joindiaspora.com, mas havia outras. (Um dos clones do Twitter, o Mastodon, usa a mesma dinâmica — que, convenhamos, é difícil de sacar, mas faz bastante sentido.)

A euforia que precedeu a liberação da versão alpha da Diaspora virou um misto de descontentamento e insatisfação quando ela foi liberada. Era um projeto complexo e que caminhava devagar, muito provavelmente por falta de braços e de recursos — US$ 200 mil é nada para um projeto que pretende ser realmente grande e que nasce cercado de tanta expectativa. A versão alpha tinha muitos bugs, era lentíssima e pouco povoada. Quem conseguia entrar, saía de lá com uma primeira impressão ruim.

Dali em diante, a linha do tempo da Diaspora é uma espiral de infortúnios:

  • Alguns meses após ser destaque no New York Times, em maio de 2010, a Diaspora não conseguiu sustentar o momento e rapidamente caiu no ostracismo.
  • Um ano e meio depois de explodirem para o mundo, em novembro de 2011, um dos cofundadores, Ilya Zhitomirskiy, foi encontrado morto em seu apartamento, na cidade de São Francisco. Segundo a polícia, ele se suicidou.
  • No final de 2012, os fundadores da Diaspora passaram o controle do projeto à comunidade, que, desde então, o mantém vivo.

Diaspora hoje

Apesar de ter me referido à Dispora no passado ao longo de todo esse texto, o projeto ainda existe. Com o movimento #DeleteFacebook ganhando força, a lembrança da rede social que um dia pareceu que ganharia massa para se posicionar frente ao Facebook voltou. “Como ela está hoje?”, pensei.

Assoprei a grossa camada de poeira que havia sobre o site da Diaspora e revivi meu perfil lá — as imagens acima são recentes. Assim que recuperei minha senha (há muito esquecida) e fiz login no pod joindiaspora.com, fui transportado de volta para 2011. Nada significativo mudou nos últimos sete anos.

Imagem de divulgação da versão 0.7 da Diaspora.
Imagem: Diaspora/Divulgação.

A última grande atualização do software da Diaspora, a versão 0.7 de agosto de 2017, incorporou @menções em comentários, melhorias no editor de textos e… basicamente só isso. O protocolo do sistema federado também foi atualizado, o que, nas palavras dos mantenedores da rede, seria algo tão importante que “merece um anúncio à parte”. Para o usuário final, esse tipo de notícia é o mesmo que dizer que o céu é azul — irrelevante. Ou melhor, há um detalhe negativo importante aí: a versão 0.7 quebra a compatibilidade com versões antigas da Diaspora, então quem estiver em um pod desatualizado ficará de fora da grande rede.

O site ainda é funcional, o que não é muita surpresa dada a sua simplicidade original. Ele é um reflexo da sua época, parece algo que ficou congelado em 2011, em um mundo onde o computador ainda é o principal dispositivo para se conectar à internet.

Não que isso faça muita diferença. Ser funcional não é, nem nunca foi, o bastante. Já naquela época era relativamente simples subir um clone do Facebook. Tínhamos até um concorrente nacional! Hoje, é algo que beira o trivial. Redes sociais nascem e morrem toda semana. Não é um “Facebook melhor” que desbancará o Facebook — tema da última newsletter do Manual do Usuário.

A grande dificuldade em rivalizar com o Facebook é o “efeito de rede”, ou o fato de que todo mundo que você conhece estar lá. Uma rede que se proponha substituir o Facebook deve ser capaz de atrair mais gente além dos entusiastas, o mínimo para que os que ingressarem nela não se sintam sozinhos, falando com o vento. Não é fácil.

Redes sociais que se dizem a antítese do Facebook funcionam, mas numa escala reduzida. (Convenhamos que igualar-se ao Facebook nesse sentido, um serviço com dois bilhões de usuários, é quase utópico.)

A Diaspora, além de atrair terroristas do Estado Islâmico, sobrevive graças a um público pequeno, mas fiel. A Ello, que despontou com a polêmica da proibição dos nomes sociais para pessoas LGBT no Facebook, em meados de 2014, segue bastante ativa entre artistas digitais. E o Snapchat, que fez fama com conteúdo efêmero em contraponto ao histórico assustador que o Facebook tem de todos nós, estagnou, mas ainda conta com quase 200 milhões de usuários fiéis.

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  • Gilberto Nascimento

    Pô. Deixem de ser chatos. O Feice é ótimo. Nunca mais precisei preencher um cadastro. Basta escolher a opção “preencher com os dados do Feice”. Não se façam de vítimas, porque a cada aplicativo baixado no celu vocês concordam em dar acesso a TUDO. E depois ficam aí chorando as pitangas.

    • Aplicativos precisam do seu consentimento expresso para terem acesso a dados do celular. Esses dados são limitados — no iOS, por exemplo, ninguém consegue acessar seu histórico de chamadas e SMS. Os apps também não conseguem monitorar seu histórico de navegação web. Outra diferença: basta apertar um botão para interromper a cessão desses dados.

      Eu entendo que o Facebook é prático e útil para muita gente, mas não é isso o que está em discussão. É a propriedade dos seus dados e o uso deliberado — e potencialmente ilícito — que o Facebook faz deles. Se para você não é problema, paciência; está no seu direito. Mas não venha aqui minimizar a questão, por favor. (Ou, no mínimo, encontre um argumento menos ruim para isso.)

      • Gilberto Nascimento

        As pessoas não se preocupam se os aplicativos conseguirão ou não monitorar os históricos de navegação, ou acessar históricos de chamadas e SMS. As pessoas simplesmente consentem. Celulares com GPS permitem monitorar inclusive o deslocamento das pessoas. Sou usuário de Strava e… posso lhe dizer. Tem uma precisão bem razoável. O Twitter uma época me informava por onde andavam meus amigos. Não sei se o “serviço” ainda existe. É mais ou menos como viver numa cidade pequena de antigamente, onde as fofoqueiras ficavam na janela cuidando da vida de todo mundo. Não tem escapatória.

        • “As pessoas” é muita gente para assumirmos comportamento sem base científica. E há escapatória — se não por iniciativa das empresas, o que não espero, via pressão popular e com a interferência do poder público. Privacidade é um negócio importante demais para abdicarmos assim, sem resistência.

          • Gilberto Nascimento

            Ademais, celular em si é controle. Os pais põe um aparelho nas mãos dos filhos para que mesmo? Para exercer controle total e absoluto sobre onde estão e o que estão fazendo. Quem sabe usar o celular é quem o desliga. Sim, é possível. Eu uso um mínimo de aplicativos. Na academia, deixo o celular no carro para não atrapalhar o treino. Ao sair com os cachorros, nem levo, porque não dá para usar com os bichos (que não são adestrados) me puxando a toda hora. Feice e Twitter uso para seguir páginas com finalidade educativa ou mesmo páginas institucionais. Whats, acredite, não uso. Não tenho saco. Se o Feice tem tanto poder, em grande parte é porque as tais “pessoas” são viciadas e dependentes. A tal “resistência” poderia ser exercida deixando o celular na gaveta de vez em quando. No mínimo, os treinos de academia seriam mais eficientes.

          • Vi este tweet e lembrei da nossa discussão:

            https://twitter.com/zeynep/status/984427577795317760

          • Gilberto Nascimento

            Pois tem muito work pela frente. Tenho visto comentários levantando a questão de que o Google é tão ou mais poderoso que o Feice. Aliás, sua coluna já deve ter tratado do tema em algum passado não tão remoto.

          • Sim, é um trabalho hercúleo, pouco técnico, muito mais político. Conscientizar a população e colocar o problema na agenda pública são, talvez, as duas frentes mais complexas. Mas estamos avançando.

            Sobre o Google, isto talvez interesse: http://www.gazetadopovo.com.br/manualdousuario/tudo-que-o-google-sabe-de-voce/

      • Paulo Lobo

        Teu comentário me fez lembrar do Google, que tem relatórios de todos os lugares por onde passamos, na verdade parece até estar monitorando nossa vida, concordo contigo, é muito perigoso esse tipo de monitoramento de dados privados, a ultima vez que usei o Facebook foi 2011, pensei em voltar a usá-lo mas vou aguardar o desenrolar dessa história, afinal já tenho o Google cuidando da minha vida….

        • Gilberto Nascimento

          Paulo Lobo a ideia é: você está passeando num shopping. Em alguma loja do shopping tem algum produto que pode ser do seu interesse. Bingo. Você recebe um SMS dizendo que a loja X tem o produto Y que é perfeito para você. Tipo, dias atrás você pesquisou no Google um… digamos… livro de finanças. Aí você está naquele shopping onde uma livraria tem aquele mesmo livro de finanças em estoque por um preço bom. Pronto. Do nada chega aquela mensagem dizendo que “aquele produto que você viu está a alguns passos de você”. Não é um mundo maravilhoso?

          • Drax

            Acho que essa é a ideia de smart. Para muita gente isso é muito bom, para outros é invasivo. Depois dos postos aqui do MdU e do Tecnoblog, desativei todo tipo de rastreamento. Mas para outras pessoas isso é indiferente. Vai de cada um.

  • luis

    Eu reduzi bastante o acesso ao Facebook após esse escândalo. Só tenho visto rapidamente o feed umas três ou quatro vezes na semana, no desktop ( não acesso mais em dispositivos móveis) por causa do efeito rede, do qual é difícil se desvencilhar logo de cara. Porém, apesar da comodidade nos logins, tenho deixado por conta de gerenciadores de senhas. O facebook está intrusivo além da conta. Pessoas próximas, menos informadas das táticas da rede social, tem chegado pra mim e comentado das “coincidências” que ocorrem no dia a dia, como estar num shopping à procura de um produto e algumas horas depois, o celular começa a pipocar anúncios do mesmo, ou então numa conversa informal uma palavra qualquer é mencionada e logo em seguida aparecem sugestões no aparelho. Se pessoas leigas começam a perceber isso, é porque a coisa tá fora de controle mesmo.

  • Antonio Henriques

    Encerrei o meu fazem 6 meses. Reduziram drasticamente meu alcance, de 30 a 40 likes para 1 no máximo 2 likes, mas como postava comentários conservadores e desmentindo notícias falaciosas através de outras fontes e documentos fui devidamente “posto na geladeira”. Não sinto a menor falta, o Twitter é muito mais dinâmico e rápido no alcance.

  • Aab Aab

    não uso e não tenho facebullshit, e não faz falta na minha vida esse lixo que espiona a vida das pessoas.

  • binho_0

    Bela reflexão e chamada de atenção, Ghedin!