Transeunte observa mochila holográfica da Holo Ahead.

Esta empresa oferece hologramas para ajudar políticos a se elegerem

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5/9/18, 14h29 5 min 3 comentários

Em 2018, santinhos, caminhadas com apoiadores e programas de rádio e TV estão recebendo reforços tecnológicos na corrida eleitoral. Fala-se muito em posts patrocinados no Facebook e correntes no WhatsApp como táticas de vanguarda neste pleito, mas a Holo Ahead apresentou algo ainda mais futurista para os candidatos dialogarem com os eleitores: hologramas.

A Holo Ahead tem sede em São Paulo e acredita que mochilas holográficas podem ser decisivas nessas eleições. Pela lógica da empresa, explicada ao Manual do Usuário por Leandro Pires Nunes, um dos dois sócios da empresa, o fato de o produto funcionar nas ruas é um diferencial determinante para as redes sociais, que, embora falem com mais gente de maneiras bem específicas, não têm aquele calor humano que só um encontro com correligionários na feira para comer pastel gorduroso debaixo de um Sol de rachar oferece. “A gente trabalha há algum tempo com isso e a rua é negligenciada. Os problemas reais estão na rua”, diz o empreendedor.

Apesar de inédita no Brasil, esta não é a primeira vez que a holografia é usada na política. Inspirados talvez pela Princesa Leia ou pelos herdeiros do rapper Tupac Shakur, outros políticos já recorreram à tecnologia para arrebatar eleitores.

Montagem de Tupac em Star Wars.
Não me lembro desta parte do filme.

Atual primeiro-ministro indiano, Narendra Modi usou o recurso para fazer seu holograma presente em várias partes do país, que a exemplo do Brasil também tem dimensões continentais, nas eleições de 2012. Mais tarde, na França, o candidato à presidência da extrema esquerda, Jean-Luc Melenchon, também tentou a sorte com a holografia. Era 2017 e ele acabou derrotado por Emmanuel Macron.

A solução dos políticos indiano e francês era mais complexa, feita para a exibição em palcos; a da Holo Ahead confia em uma lâmina de LEDs que gira rapidamente para gerar imagens. “É um princípio muito antigo. No Egito, os caras já usavam uma roda girando para produzir imagens”, explica Nunes. O resultado também é mais barato, fácil (dispensa uma grande produção) e, talvez a maior vantagem, é portátil.

Nunes e seu sócio, Gabriel Cecilio, tiveram que ir ao outro lado do mundo buscar a tecnologia. “Encontramos um pessoal da Universidade Dōngnán, na China, e naquele momento eles tinham uma lâmina menor e de baixa resolução”, conta o empreendedor brasileiro. “Então, começamos a desenvolver um produto adequado à legislação brasileira”. Entre as exigências do TSE está a de tamanho — peças eleitorais não podem ter mais do que 50 cm, por exemplo. Especialistas consultados pela Folha de S.Paulo confirmaram que as mochilas da Holo Ahead estão em conformidade com as regras destas eleições.

Homem-placa moderno

O produto da Holo Ahead é uma mochila de acrílico transparente. Na prática, é como se fosse uma versão high-tech do famigerado homem-placa, ou homem-sanduíche, aquele “veste” uma placa que anuncia a compra de ouro e outros negócios suspeitos, um personagem muito comum nos grandes centros. Veja:

Dentro da bolha acrílica fica a lâmina e seu rotor. Ela tem 46 cm de diâmetro e resolução de 512×512 pixels. A tela do seu celular tem uma resolução bem maior, mas como a mochila é vista de longe, a distância compensa essa diferença aos olhos de transeuntes. Não é preciso um par de óculos especiais ou qualquer adereço para enxergar a imagem.

A luminosidade da imagem gerada é alta, de 4.000 cd, brilhante o bastante para que as imagens sejam vistas mesmo ao ar livre, sob o Sol. A título comparativo, a luminosidade de uma lâmpada incandescente de 40W é de apenas 30 cd.

A mochila pesa apenas 700 gramas e a duração da bateria varia de 4 a 8 horas, dependendo dos recursos utilizados. Os vídeos podem ser transferidos pelo celular do usuário — há apps para Android e iOS — e independe de conexão à internet. A mochila gera uma rede Wi-Fi para que o smartphone se conecte e transfira os arquivos. Outra alternativa, que preserva mais bateria, é usar um controle remoto para alternar entre vídeos pré-carregados.

Mochila da Holo Ahead exibe holograma.
Detalhe da mochila da Holo Ahead. Imagem: Holo Ahead/YouTube.

A Holo Ahead pretende chegar até o fim das eleições com 1 mil unidades da mochila disponíveis para os políticos brasileiros em campanha. Até meados de agosto, quando Nunes me concedeu uma entrevista, a empresa já tinha o primeiro lote, com 100 unidades, a pronta entrega e aguardava a chegada do segundo, com mais 150 peças.

As mochilas não são vendidas, mas alugadas. O custo é de R$ 6,6 mil até o fim da campanha. Em paralelo, a Holo Ahead também vende templates de vídeos para serem usados nas mochilas. Custa R$ 6,7 mil, mas os vídeos podem ser usados em quantas mochilas o candidato quiser. A empresa também oferece conteúdo personalizado.

A Holo Ahead não abre número de clientes nem quem eles são, alegando que todos os contratos são assinados com cláusula de confidencialidade.

Os planos da empresa transcendem as eleições de 2018. “A Holo Ahead tem esse nome devido a esse primeiro projeto,” diz Nunes, “mas a nossa empresa é voltada à busca por inovação e adaptação ao mercado brasileiro”. A própria mochila está sendo considerada pela dupla de empreendedores para uso por empresas. Antes, ela terá que passar pela sua primeira prova de fogo, que é conseguir aderência junto ao primeiro público-alvo escolhido. Na pior das hipóteses, a Holo Ahead corre o risco de replicar um dos piores traços dos políticos: ficar só na promessa.

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