Interior de uma fábrica de notebooks da Lenovo.

O dia em que montei um notebook da Lenovo

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20/9/18, 12h34 7 min 5 comentários

Em Indaiatuba, cidade a pouco mais de 100 km de São Paulo, fica a fábrica brasileira da Lenovo. No último dia 12, a empresa aproveitou a ocasião do lançamento do IdeaPad 330S para levar jornalistas para não só conhecer o local, mas participar de uma linha de montagem. Se você comprar um notebook Lenovo nos próximos meses e ele vier zoado, foi mal — provavelmente é culpa minha.

A fábrica da Lenovo em Indaiatuba opera desde agosto de 2016. Na época, o setor de computadores estava em retração no Brasil e a mudança, segundo a cobertura da imprensa na época, se deu para adequar a produção ao enfraquecimento da demanda, já que o então novo espaço era menor que a fábrica anterior, em Itu, também no interior de São Paulo.

Apesar do encolhimento, a fábrica da Lenovo tem dimensões e características respeitáveis. Ela ocupa 80% do Centro Logístico de Indaiatuba (Clin) e é a única da empresa no mundo inteiro que manufatura todas as linhas de notebooks, computadores e servidores da Lenovo — as demais se especializam em um ou alguns formatos e/ou linhas. Ela também se distingue por outra característica, a de ser a única que integra outros setores da Lenovo no mesmo espaço da fabricação.

Um desses setores é o centro de reparos, totalmente operado pela Lenovo, responsável pela assistência técnica das linhas do mercado consumidor, como a IdeaPad. (A ThinkPad, indicada a empresas, tem atendimento “on-site”, ou seja, um dos mais de 500 técnicos vai até o cliente consertar o defeito.)

Na fábrica, a parceira logística DHL tem uma participação quase simbiótica na operação. Tudo o que entra e tudo o que sai da fábrica da Lenovo passa pelas mãos dos funcionários da DHL. Na parte de RMA (assistência técnica), a empresa faz o recebimento e depois, o despacho. Na montagem dos equipamentos, a DHL recebe os componentes, que vêm da China e de Manaus, e os organiza para as linhas de montagem. Depois de prontos, a DHL distribui os produtos para todo o Brasil.

Essa forte concentração tem alguns efeitos positivos. No setor de reparos, os técnicos têm 99% das peças disponíveis imediatamente, o que ajuda a entregar 98% das demandas em até dois dias. Todos os processos são analisados para aperfeiçoamentos e a Lenovo já estuda iniciativas de automação e indústria 4.0. Durante a visita, vimos o protótipo de um robô especializado em parafusar placas-mãe aos chassis dos computadores, por exemplo.

O ambiente de fábrica é impressionante. Como é praxe, não nos foi permitido tirar fotos do lugar e a Lenovo infelizmente não forneceu imagens de divulgação — a foto lá de cima, que abre este post, é de outra fábrica da Lenovo não especificada pela assessoria de imprensa. Assim, só me resta mostrar eu vestido com um jaleco isolante na antessala preparada para as palestras e coffee break, dentro da fábrica, e a você, confiar no meu relato.

Rodrigo Ghedin vestindo um jaleco da Lenovo.
Eu de jaleco.

Um dia de operário

Na linha de montagem que observamos mais de perto, os funcionários montavam o novo IdeaPad 330S. Havia 14 deles ali, dez ocupados com a montagem em si e quatro, com os testes iniciais. Ao todo, 600 profissionais trabalham na fábrica de Indaiatuba.

Quando botei a mão na massa, digo, nos notebooks, ocupei a segunda posição da linha. Recebia a parte inferior do chassi do notebook aberta em uma espécie de almofada e, em uma esteira posicionada à minha frente, tinha à disposição o “sushi”, uma caixa preta, sem tampa, compartimentada com todos os componentes que formarão o notebook até o final da linha.

A minha missão era:

  • Pegar no “sushi” o cabo do conector de energia do notebook, ligá-lo à placa-mãe e posicionar a entrada do cabo de energia na lateral do chassi;
  • Pegar a tampa/tela LCD e analisá-la a fim de detectar imperfeições;
  • Arrumar os fios da tampa/tela LCD que se conectarão à placa-mãe;
  • Posicionar e parafusar a tampa/tela LCD ao chassi;
  • Pegar o processador e posicioná-lo no local correto;
  • Pegar o dissipador e posicioná-lo no local correto.

Devo ter levado uns cinco minutos para fazer tudo isso. A funcionária que estava ali e me auxiliou fazia o mesmo trabalho em menos de um minuto, com uma agilidade impressionante. A linha, quando preenchida e em pleno funcionamento, entrega, em média, um notebook pronto por minuto. Por ano, a Lenovo monta ali 3,5 milhões de computadores.

(E a Motorola? Os smartphones da marca, comprada pela Lenovo quando era do Google, em 2014, são fabricados em outro lugar. O mesmo vale para a assistência, que, segundo executivos da Lenovo, usa um modelo descentralizado devido à urgência maior que o reparo de um smartphone representa ao consumidor. O notebook pode ficar uns dias longe; o smartphone, é mais difícil. A fábrica de Indaiatuba é focada em computaores.)

Existem trechos mais complexos. Segundo o pessoal da linha, a instalação do chip Wi-Fi é a tarefa mais chata: ele é pequeno e os fios que conectam ele à placa-mãe têm um encaixe bastante delicado. Esse chip e os de RAM (uma memória de acesso rápido) são os únicos componentes que não vêm dentro do “sushi”. Em vez disso, ficam na estação do funcionário responsável em suportes de plástico.

Quando o notebook chega ao 11.º funcionário na linha de montagem, ele ganha um sistema preliminar para que a bateria de testes seja executada. Tudo é testado: teclado, tela, webcam, memórias etc. Um pen drive transfere a imagem e inicia os testes; o funcionário entra em ação quando é preciso intervenção humana — para testar o teclado, por exemplo. O equipamento ainda é verificado por outros três funcionários e, posteriormente, passa por outras avaliações em setores diferentes da fábrica.

Este é o IdeaPad 330S:

Foto do IdeaPad 330S de 15 polegadas.
Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

Toda a operação é controlada em tempo real. Se os engenheiros da Lenovo notam gargalos, as linhas são remanejadas ou procedimentos são revisados e alterados. No caso dos testadores, ao fim do processo eles autenticam o teste com uma foto do crachá.

Outro detalhe curioso é um sistema de tageamento digital dos notebooks. Serve para o controle das unidades, mas também para direcionar, automaticamente, a imagem do Windows exata para determinados pedidos. Se a Lenovo vende um lote para um Tribunal de Justiça, por exemplo, e tem que mudar uma coisa simples, tipo um logo na inicialização do sistema, esse tageamento coloca a imagem exata no computador correto.

Computadores, smartphones e servidores

A Lenovo nasceu na China em 1984 com o nome Legend. Em 2002, como parte de um plano de expansão, a empresa adotou o nome Lenovo. Três anos depois, deu o passo que a consolidou no cenário internacional ao adquirir a divisão de computadores pessoais da IBM, incluindo a icônica marca ThinkPad, por US$ 1,25 bilhão e um débito de US$ 500 milhões. Entre 2012 e 2015, a Lenovo foi a maior fabricante de computadores do mundo. Hoje, a liderança é da norte-americana HP, segundo dados da consultoria IDC.

Ao mesmo tempo em que sustenta sua posição de destaque no segmento de computadores, incluindo aquisições estratégicas recentes — a brasileira CCE em 2012 e uma fatia majoritária da Fujitsu no final de 2017 —, a Lenovo tenta emplacar duas áreas gestadas a partir de aquisições.

A primeira é a de smartphones, potencializada pela aquisição da Motorola, então propriedade do Google, em 2014, por US$ 2,91 bilhões. A outra, a de servidores, a partir da aquisição da divisão de servidores da IBM (System x e BladeCenter), por US$ 2,1 bilhões.

A Lenovo está presente em 160 países e faturou US$ 45,3 bilhões no último ano fiscal, encerrado em março de 2018.

Foto do topo: Lenovo/Divulgação.

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  • Hahahahaha, foi o melhor texto que li a respeito da experiência. Muito chato mesmo isso deles não tirarem umas fotos e depois mandarem pra vocês escondendo os “segredos” industriais. 😕

  • Tonny Jose

    Infelizmente a Lenovo é uma das piores empresas no mercado nacional, e o setor de reparos é horrível notebooks com defeito de fabricação vão e voltam com o mesmo defeito. Peças de notebooks como tela ou placa mãe com mais de 3 anos esqueça não existe no mercado e na central de venda de reparos informa que não estão ofertando reparo para o modelo em especial.
    Assim como cce é sinônimo de começou comprando errado.
    Lenovo nem louco.

    • Tive uma boa experiência com HP

      • Tonny Jose

        Hp é uma boa empresa. Se procurar no mercado temos peças de reposição disponível para o consumidor, infelizmente as praticas de obsolencia programada tenta forçar o consumidor a descatar um produto em boas condições.

    • Andre Guilhon

      Você deve estar se referindo aos ideapads. Esses não são muito bons mesmo…
      Os Thinkpads são robustos, e a assistência é on-site. Esses são bons!