Interior de um cassino.

O Facebook não vai curá-lo do vício no Facebook e Instagram

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2/8/18, 11h04 5 min 4 comentários

O Facebook anunciou, nesta quarta-feira (1), que começou a disponibilizar um novo recurso no Facebook e Instagram que informa o usuário do tempo gasto em cada aplicativo e lhe dá ferramentas para limitar o uso deles. À primeira vista, parece uma atitude nobre e bem intencionada. Provavelmente não é.

O remédio anunciado pela rede social não se destina a curar o excesso de atenção que depositamos nesses locais, o “engajamento”, mas sim os sintomas desses exageros que, a longo prazo, podem ser nocivos ao negócio. Trata-se de um antiácido receitado para que continuemos nos alimentando do conteúdo pouco nutritivo polvilhado por anúncios altamente segmentados que Facebook e Instagram nos servem.

Telas do novo controle de uso do Instagram.
Imagem: Facebook/Divulgação.

Há diversos paralelos similares a essa iniciativa em outras indústrias que lucram em cima de vícios. Cassinos, por exemplo, monitoram os clientes a fim de identificar os momentos em que eles estão mais propensos a desistir, como após uma grande perda. Quando isso acontece, a casa oferece algum mimo que quebra a sequência de apostas — um drinque, uma refeição. Com isso, a sensação de desânimo ou desconfiança passa e o cliente se sente confiante para continuar apostando, digo, perdendo dinheiro.

Troque “cassino” por “Facebook e “apostas” por “engajamento” e acabamos no mesmo cenário.

Outro exemplo? O bloqueador de anúncios do Chrome, navegador web do Google, empresa quase que totalmente dependente de anúncios. Ele ataca uma parcela ínfima de anúncios intrusivos e passa batido pelo verdadeiro problema deles: a tonelada de scripts de que o usuário não vê na tela, mas que monitoram o seu comportamento online, segmenta a publicidade, compromete o desempenho do smartphone e consome sua bateria além do necessário.

Confiar no Facebook para nos curar do vício em Facebook é o mesmo que incumbir à Philip Morris a luta contra o tabagismo. Alguém pode dizer que há campanhas antitabagismo e que os maços de cigarro vêm com mensagens de alerta. O que é verdade. Nada disso, porém, é de iniciativa da indústria. Se dependesse das fabricantes de cigarros, ainda estaríamos vendo médicos recomendando cigarros em anúncios publicitários. E quando a própria Philip Morris anuncia que está se afastando dos cigarros, não é uma negação do seu histórico ou um lapso de consciência, mas um movimento no sentido de produtos “mais saudáveis” e com potencial de lucro maior.

O Facebook diz que desenvolveu a nova ferramenta “baseado na colaboração e inspirado por organizações e líderes especialistas em saúde mental, acadêmicos e nossa extensa pesquisa e feedback da nossa comunidade”. O texto não cita quais especialistas nem que acadêmicos foram consultados. Com essa lacuna, o trecho soa como uma tentativa de dar verniz de autoridade a um recurso questionável que poderia ser criticado por pesquisadores sérios.

O histórico do Facebook tampouco colabora: no começo do ano, a empresa apresentou uma “pesquisa” que reconheceu que as pessoas se sentem mesmo miseráveis ao usarem a rede social, mas que a solução é (adivinhe) usar mais o Facebook. E teve aquela vez, em 2014, em que os engenheiros do Facebook manipularam o algoritmo de uma parcela dos usuários, sem avisá-los, para ver se era possível alterar o humor deles somente com o feed. (Sim, é possível.)

A grande questão é “por quê?” Por que o Facebook está disposto a abrir aos usuários uma informação que pode fazê-los usar menos?

São duas respostas.

Primeiro, porque uma eventual queda no uso desses aplicativos não implica necessariamente quedas no engajamento ou de receita. No começo do ano, ao divulgar os resultados financeiros da sua empresa, Zuckerberg revelou que os usuários do Facebook estavam passando 50 milhões de horas a menos na rede por dia. Parece um número enorme, só que não é. Diluído entre todos os usuários, 2,13 bilhões na época, ele se transforma em 2,1 minutos por dia por usuário.

Zuckerberg se apropriou e subverteu o termo “time well spent”, cunhado por Tristan Harris, uma das vozes fortes no Vale do Silício que exigem mais ética e transparências de empresas que lucram com o vício. “Tempo bem gasto”, no dicionário do Facebook, é vendo anúncios, então não importa que alguém esteja 2,1 minutos a menos por dia vendo coisas irrelevantes à manutenção do “engajamento”, se esse tempo perdido era gasto vendo coisas que desestimulam o uso. E o que são 2,1 minutos em relação a um #DeleteFacebook? Na ocasião, a campanha estava a pleno vapor. Dizer que as pessoas estavam passando menos tempo no Facebook ajuda a tirar o foco dos reais problemas que a plataforma desencadeia.

O outro motivo é que Apple e Google estão preparando ferramentas similares, no nível do sistema (iOS e Android), mais poderosas e opacas ao Facebook que a sua solução própria.

No Facebook e Instagram, o relatório de uso só permite desativar notificações temporariamente. No iOS 12 e Android P, a desativação é permanente. Nos aplicativos, o Facebook tem acesso à torrente de dados comportamentais dos usuários que se disporem a mexer nessas configurações e pode trabalhar com eles para equilibrar o “tempo bem gasto” do “tempo não gasto” nos apps. Nos sistemas operacionais, essas informações são mais difíceis de acessar.

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  • Bora usar drogas pra parar de usar drogas…

    Ou aquele episódio do desenho do (creio eu) Porky Pig que está num hotel e começam resolvendo o problema do rato com um gato, o problema do gato com o cachorro e assim por diante….

    Tenho amigos que se valeram de ajuda profissional para o vício, se viciando em outras coisas. O Fecalbook está agindo como os traficantes e alguns psiquiatras agem: viciando o cliente.

  • Philip Morris vai continuar vendendo cigarros, eletrônicos.

    Queria ver o Xvideos fazer algo semelhante. kkkkkkkk

    A indústria deve ter um orgasmo quando descobre que seu produto viciou o consumidor.

    abs

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  • Mas como é que eu posso saber o tempo que eu fico no FB e no Instagram? Li tudo e não entendi como isso é feito (e como posso não fazer, se eu quiser).

  • Marciel Jara

    saí faz tempo