Tela da F8 mostrando scores de posts no Facebook ao longo do dia.

O fim do feed de notícias

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6/4/18, 12h22 11 min 4 comentários

Quando me casei, minha futura esposa e eu tínhamos certeza de que faríamos uma cerimônia pequena e tranquila — nada dessas festas gigantescas e extravagantes com centenas de pessoas! Convidaríamos apenas familiares e amigos próximos. Então, fizemos uma lista de “familiares e amigos próximos” e… constatamos por que as pessoas convidam 100 ou 200 pessoas para seus casamentos. Você conhece muito mais pessoas do que imagina.

Lembrei-me disso recentemente pelo fato de que, de acordo com o Facebook, seu usuário médio é elegível para ver pelo menos 1500 itens por dia no feed de notícias. Assim como o casamento com 200 pessoas, isso parece absurdo. Mas acontece que, ao longo de alguns anos, você faz 200 ou 300 “amizades” no Facebook. E se você se conectou a 300 pessoas e cada uma delas publicar algumas fotos, curtir algumas notícias ou comentar umas duas ou três vezes, então, pela inexorável lei da multiplicação, sim, você terá pouco mais de mil itens em seu feed todos os dias.

É a combinação de dois fatores: o número de Dunbar (uma regra que sugere que você provavelmente conhece algumas centenas de pessoas bem o suficiente para ser amigo delas no Facebook) e a “lei de Zuckerberg” (a suposta tendência de compartilhar mais e mais nas redes sociais ao longo do tempo). Combine-os e você terá uma sobrecarga.

Indo um pouco além, parece-me que a lei de Zuckerberg, tal como ela se apresenta, é realmente uma observação sobre os modelos para seguir pessoas que as plataformas de mídias sociais evoluíram, nas quais compartilhar algo em seu próprio feed não é o mesmo que enviá-lo para qualquer pessoa em particular. Você não enviaria 10 fotos de seu filho ou cachorro para todo mundo na sua agenda de endereços com frequência, ou mesmo uma só vez, e a maioria das pessoas (abaixo de 50 anos) não enviaria todas as notícias engraçadas ou ultrajantes que elas veem para todos da agenda de endereços, mas o feed assimétrico torna a publicação nessa frequência algo normal em vez de rude. Como você está postando no “seu” feed em vez de enviá-lo explicitamente para alguém, não há problema em postar muito e em postar coisas menos importantes. Isso, por sua vez, nos leva à tragédia dos comuns —espera-se que nós postemos coisas, mas postando coisas sobrecarregamos os feeds uns dos outros. A equipe de engajamento do Facebook era boa demais em seu trabalho.

Essa sobrecarga significa que agora faz pouco sentido pedir o feed cronológico de volta. Se você tem 1500 ou três mil itens por dia, o feed cronológico é, na verdade, apenas os itens que você pode se dar ao trabalho de percorrer antes de cansar e desistir, o que pode ser apenas 10% ou 20% do que realmente está lá. Isso não terá nenhuma ordem lógica, exceto se seus amigos postaram na última hora. Não é muito cronológico, em qualquer sentido útil, como uma amostra aleatória, em que o aleatório é simplesmente o horário em que você abre o aplicativo. “O que qualquer uma das 300 pessoas a quem me conectei nos últimos cinco anos postou entre 16h32 e 17h03?” Enquanto isso, fornecer controles manuais e filtros detalhados faz pouco sentido — toda a história da indústria de tecnologia nos diz que pessoas normais nunca os usariam, mesmo que eles funcionassem.

Essa é a lógica que levou o Facebook inexoravelmente ao feed algorítmico, que é, na real, apenas um jargão técnico para dizer que, em vez desta amostra aleatória (ou seja, baseada no tempo) do que foi publicado, a plataforma tenta descobrir de quais pessoas você mais gostaria de ver as coisas e que tipos de coisas você mais gostaria de ver. Ele deveria ser capaz de descobrir quem são seus amigos próximos e que tipo de coisas você normalmente clica. A lógica parece (ou parecia) inevitável. Assim, em vez de uma amostra puramente aleatória, você obtém uma amostra com base no que realmente deseja ver.

Por mais inevitável que pareça, essa abordagem tem dois problemas. Primeiro, obter essa amostra “certa” é muito difícil e algo que é afetado por todos os tipos de desafios conceituais. Mas, segundo, mesmo que seja uma amostra bem sucedida, ainda será apenas uma amostra.

Olhando para o primeiro deles, há um monte de problemas em torno de obter a amostra “correta” do feed de notícias algorítmico, a maioria discutida em profundidade nos últimos anos. Há muitos incentivos para as pessoas (russos, desenvolvedores de jogos) tentarem manipular o feed. Usando sinais do que as pessoas parecem querer ver, há riscos de ajustes excessivos, circularidade e filtros bolha. Os desejos das pessoas mudam e elas ficam entediadas, então o Facebook tem que mexer o tempo todo no mix para tentar refletir isso, o que o tornou um parceiro pouco confiável para todos, da Zynga aos jornais. O Facebook tem que fazer julgamentos subjetivos sobre o que parece que as pessoas querem e sobre quais métricas parecem capturar isso, e nada é estático ou mesmo, em princípio, perfeitamente possível. O Facebook surfa na onda do comportamento do usuário.

É útil comparar o desafio do feed de notícias com o desafio dos resultados da pesquisa do Google. O Google tem que descobrir os dez melhores resultados para mostrar, usando todos os tipos de julgamento sobre quais sinais funcionam melhor e quais importam mais, assim como o feed de notícias faz — ele não pode mostrar os resultados por alguma medida objetiva, como data ou tamanho do arquivo. Ele pode oferecer controles e filtros complexos, mas, como o Facebook, precisa acertar as coisas sem esses controles, porque a maioria das pessoas nunca os tocará. E também como o Facebook, é claro, há pessoas tentando manipular o sistema. Ao contrário do Facebook, porém, o Google tem uma intenção explícita — você diz ao sistema o que quer ver. E assim, se o Google me mostrar exatamente o que eu queria, ele será bem-sucedido, mesmo que eu não “devesse” ter buscado aquilo. O Facebook não tem esse sinal direto. Há coisas que ele não “deveria” me mostrar, mesmo que meu tio as compartilhasse. Mas quais são essas coisas e quem deve decidir, e como é a ponderação?

Esse é o desafio de acertar um algoritmo, mas há também o segundo problema — de que se trata sempre de uma amostra. O Facebook tem feito tanto desenvolvimento, divulgação e “growth hacking” para conseguir mais coisas no feed e acabar com o atrito para compartilhar, que agora há muito mais conteúdo disponível para mim do que sou capaz de ver. Ele tenta me dar uma amostra disso e uma amostra que é melhor do que “o que quer que tenha sido postado nos últimos 45 minutos”. Pode ou não ter sucesso em ser melhor, mas permanece a questão — as pessoas ainda querem uma amostra?

Um problema básico aqui é que se o feed é focado em “o que eu quero ver?”, então ele não pode focar em “o que meus amigos querem (ou precisam) que eu veja?” Às vezes, isso é a mesma coisa — meu amigo e eu queremos que eu veja que ele está dando uma festa hoje à noite. Mas se cada feed for uma amostra, o usuário não terá como saber quem verá a postagem. De fato, conceitualmente, pode-se sugerir que eles não têm como saber se alguém verá esse post. É claro que as equipes de engajamento do Facebook não deixarão isso acontecer — se eu sentir que estou falando para ninguém, irei embora (esse é um dos problemas de novos usuários do Twitter); então, terei racionada ao mínimo suficiente minha exposição a amigos e ao feedback de engajamento para continuar postando. Até que não. Mas se algo é realmente importante, por que você colocaria no Facebook?

Acho que alguém poderia sugerir que isso é parte do que está por trás das presunções de engajamento sistemicamente mais baixo nos feeds de notícia do Facebook e por trás do franco crescimento das conversas um a um (mais obviamente WhatsApp, iMessage, Facebook Messenger e Instagram — três dos quais são do Facebook). A dinâmica social de um bate-papo de 1:1 funciona muito mais fortemente contra a sobrecarga e, mesmo que uma pessoa compartilhe por excesso, ela está em uma caixa separada, que você pode silenciar se quiser.

Enquanto isso, você poderia propor que o formato Stories inventado pela Snap e que o Facebook… continuou inventando também é uma maneira de lidar com a sobrecarga: agrupando o que você deseja compartilhar em uma unidade em vez de muitos itens separados, mesmo que você compartilhe muito com muitas pessoas, o feed é mais gerenciável. Isso, por sua vez, torna mais fácil uma tese importante sobre a Snap — embora você ainda compartilhe as coisas de forma assimétrica, não deve haver um algoritmo entre você e seus amigos. Isto é, talvez os Stories signifiquem que você compartilha mais coisas, mas agrupando-as em uma coisa você coloca menos carga em seus amigos e reduz a necessidade de um filtro. Você coloca a estrutura no conteúdo em vez de na exibição do conteúdo.

Há claramente outras tendências por trás de qualquer mudança do feed de notícias para as mensagens. O envio de mensagens pode ser mais privado, ter menos pressão social e ser mais divertido. Um Story do Snapchat não é um registro permanente e exerce menos pressão para que você exiba sua perfeição. Figurinhas e filtros são mais divertidos e espontâneos do que as rígidas caixas azuis do Facebook. E algumas delas oferecem maneiras leves de interagir sem compromisso, que também foi uma característica do modelo do Facebook, mas entregam esse pedaço de Maslow de maneiras diferentes.

O problema é que, embora esses sistemas pareçam reduzir a sobrecarga de compartilhamento, você realmente quer conversar em grupos. E muitos grupos. Quando você tem dez grupos do WhatsApp com 50 pessoas em cada, as pessoas compartilharão com eles com bastante liberdade. E então você pensa “talvez devesse haver uma tela com um feed dos novos posts em todos os meus grupos. Você pode chamar isso de ‘feed de notícias’. E talvez deva haver alguma inteligência, para mostrar os posts que mais me interessam…”

Um pessimista pode dizer que isso se parece com a velha piada do “ninguém vai mais lá — é muito lotado”. Isto é, para o social, a Lei de Metcalfe pode parecer mais uma curva em sino. Eu não sei qual será o próximo produto aqui (afinal, não criei a Snap). Mas tecnologias como essa tendem a se mover em ciclos: nós balançamos de um tipo de expressão para outro e de volta, e podemos estar nos afastando do feed.

Por fim, quaisquer alterações do tipo têm consequências para o tráfego que o compartilhamento cria. Os botões “Curtir” tornaram mais fácil publicar qualquer página da web que você deseja em seu feed e empurrá-la para (algum percentual arbitrariamente calculado dos) seus amigos e muito se falou sobre quanto tráfego isso pode gerar e como o Facebook move as coisas para cima e para baixo no ranking do feed. Mas compartilhar links dentro de Stories não é a mesma coisa; um link que você compartilha em um grupo WhatsApp ou iMessage com cinco amigos só será visto por eles; e o Facebook não tem uma alavanca para puxar a fim de tornar isso mais ou menos visível. Por outro lado, o “encaminhar” do WhatsApp pode pegar esse link e viralizá-lo em todo o país, e onde o Facebook é capaz de matar um link ou uma fonte inteira em todo o site se realmente quiser, é muito diferente, em um app P2P de mensagens, conseguir esse feito (fora da China, é claro). Ou seja, o apelo de muitas empresas de mídia para “melhorar o posicionamento” de seus posts no feed de notícias e para matar links de “notícias falsas” é, pelo menos teoricamente, possível no Facebook. Não é possível no iMessage — com criptografia de ponta a ponta, a Apple não faz ideia do que você está compartilhando.

Foto do topo: Ian Kennedy/Flickr.

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  • Pequena correção: acho que no primeiro parágrafo é “constatamos” em vez de “contatamos”.

  • Marciel Jara

    é muito poder para um “algorítimo”!

  • Roderico

    Um problema do feed de notícias é que, conforme mencionado no texto, ao longo dos anos vamos adicionando muitas pessoas no Facebook nas quais a relação se resume apenas em conhecer a pessoa, com zero vínculo emocional ou zero interesse em saber o que a pessoa pensa, posta, compartilha ou curte.

    Na visão “cega” do algoritmo, por mais enviesada que seja, esse simples conhecido compete em igualdade com uma pessoa muito próxima ou uma pessoa em que você se interessa e se identifica.

    Obviamente o algoritmo deve fazer diversas interpretações de curtidas, amigos em comum, lugares visitados, etc, mas de certa forma, ao adicionar um amigo de infância ou uma simples pessoa que você divide o andar no trabalho, para o Facebook ambos estão sujeitos aos mesmos critérios de elegibilidade de relevância para o seu feed no primeiro momento.

    • Acho que o algoritmo já é mais esperto que isso. Talvez ele mostre mais atividades de novos contatos nos primeiros dias, mas depois regula a exibição de acordo com sinais muito específicos. Se você não convive com essa pessoa recém-adicionada nem demonstra interesse por ela, o algoritmo dá um jeito de removê-la do feed e, talvez, só mostrar coisas realmente importantes — um novo emprego, um novo relacionamento, algum post que tenha muito mais interações que o habitual etc.